02 02UTC nov 02UTC PM
CONSEGUIR, ENTENDER, QUERER
Não tenho montado tanto em 2009 quanto eu gostaria. Os fiéis seguidores do blog lembrarão de minhas resoluções de ano novo – eu diria que minha equitação melhorou em qualidade, mas nem tanto em quantidade. Tanto que por ora meio desencanei de “treinar para entrar em provas”, seja salto, CCE, enduro… agenda, dinheiro, compromissos, não está muito fácil conciliar tudo isso. Talvez qualquer hora mude, mas por enquanto está assim.
Então, tento deixar os cavalos “semper parata”, sempre alertas para qualquer eventualidade, ao menos em minha imaginação. Um tantinho de condicionamento físico, um pouco de salto, um tanto de adestramento, e outras coisas diferentes, trabalho de chão, passeios, guia… não estou trabalhando com o calendário da data-alvo à frente, mas para ter qualidade constante, ainda que com nível de exigência ligeiramente menor, por causa da inconstância do regime de trabalho. Neste processo, descobri que a qualidade mais importante dos cavalos, ao menos neste patamar de utilização, não é o condicionamento físico, nem sequer o preparo técnico, e sim, o estado de prontidão mental.
E creio que isto se aplica a uma grande parte, senão à maioria, dos cavalos leitores deste blog…. hehehe, é claro, dos cavalos dos leitores deste blog. Os cavalos de amadores, aqueles que trabalham três a quatro vezes por semana (ou até uma ou duas); os que pulam provas baixas há muitos anos, os animais de passeio, os cavalos de escolinha… eles sabem muito bem o que têm que fazer, não lhes falta força ou resistência para fazê-lo. Mas quantas vezes eles “não estão a fim” daquilo que lhes pedimos? E esta falta de motivação tem duas causas principais: excesso de tédio e excesso de tensão. Estou pressupondo animais com saúde normal, livres de fome, dores crônicas, cavaleiros incapazes… penso no indivíduo médio dentre cavaleiros e cavalos de lazer e de esporte amador.
Como vocês sabem, a Paula esteve com a gente aqui no Brasil durante algumas semanas, e uma das coisas que lhe pedi foi que ela fizesse algumas fotos, para meu uso próprio, do Zacarias correndo em liberdade. Na tarde que reservamos para estas fotos, pensei que seria necessária uma grande produção, com chocalhos e capas esvoaçantes, para tirar um tantinho de movimentação brilhante do meu cavalinho sempre pacato. Foi uma surpresa constatar que bastou soltá-lo na pista para que desse voltas e mais voltas em desabalada correira, esticando as pernas e embandeirando a cauda, sem nenhum estímulo maior de minha parte. Isso aconteceu após uns quatro ou cinco dias sem trabalho montado por causa de viagens, agenda, chuvas (quem dos meus colegas cavaleiros não sofreu com a chuva durante este fim de verão e início de primavera??) – mas mesmo assim, o cavalo era solto diariamente, tanto no piquete pequeno quanto, por algumas horas, na pastagem maior, na companhia de outros cavalos. A minha surpresa foi constatar que, contrário ao que eu imaginara, isto não era o bastante para que ele dissipasse a energia acumulada.
Zack fazendo alongamento antes do trabalho…
(C) da foto: PAULA DA SILVA
Enquanto olhava meu “PSI portátil” solto, brincando num trote que era quase uma passage (em contrapartida ao nosso trote montado bem medíocre…), fiquei pensando - “como exigir que ele focalize no trabalho, em descontração e obediência e todo o resto, se está tão cheio de gás?” Quanto da costumeira tensão dele, do ranger de dentes, do dorso contraído e das resistências de frente, viriam tão-somente de falta de prontidão mental e emocional, conflitando com a necessidade imperiosa de obedecer ao cavaleiro, que incutimos em nossos cavalos desde a mais tenra idade? Até que ponto as várias dimensões do meu cavalo – a física, a técnica, a emocional – estariam desalinhadas num conflito de interesses?
Desde aquele dia, comecei a me disciplinar para soltar o cavalo na pista antes de encilhá-lo – há dias em que ele corre mais, outros menos. Às vezes brinca com os outros cavalos por cima da cerca, às vezes se espoja na areia. Sempre significa um investimento de tempo de uns quinze minutos, entre soltá-lo, deixá-lo brincar, recolhê-lo, levá-lo de volta à cocheira para encilhar – tempo que quase sempre, por causa da bendita agenda mencionada lá no começo, tenho que descontar do trabalho montado: quarenta minutos em vez de uma hora. Mas já descobri que são minutos que se transformam em quality time. Depois que concedi ao meu cavalo este tempinho só dele, ele está mais preparado para se submeter a mim, para se dedicar, com concentração e descontração (uma contradição apenas aparente…) aos exercícios que a ele solicito. Na verdade é uma coisa que eu já sabia: se o cavalo não está A FIM DE FAZER o que peço a ele, todo o resto é inútil.
Ontem, terça-feira. Chuva, viagem de trabalho, crise no meu joelho problemático: cinco dias sem montar o Zaca. Fim de tarde – restava pouco tempo de luz. Pistas encharcadas. Mesmo assim, levei-o à pista maior e o soltei. Ele deu uma volta a galope, só areia pesada voando. Deixei-o lá sozinho, desci a pé para buscar o material, voltei depois de alguns minutos. Recebi então um presente: Zack no outro extremo da pista, a uns cem metros (é uma pista bem grande…), levanta a cabeça quando me aproximo e vem ao meu encontro a trote, só parando ao alcance de minha mão. (Nunca tem alguém por perto quando essas coisas acontecem…!) Mas… meu alazão resolvera dar aquela roladinha e se transformara num cavalo empanado, sem um centímetro quadrado de pele limpa. A escova que trouxera comigo, não foi capaz de fazer frente a tanta areia misturada com terra. Dane-se, não tinha ninguém olhando mesmo, limpei como deu o dorso e a região da barrigueira, encilhei e montei. Foram quarenta minutos de um trabalho cheio de energia, porém controlado e focado; “boa vontade” é o termo que me vem a mente. Trote vindo de trás, galope cadenciado com um mínimo de interferência de minha parte. Sem tropeços na pista irregular e pesada, sem tossidas e engasgos do meu cavalo que, apesar da cirurgia, carregará para o resto da vida as sequelas da hemiplegia de laringe. Há poucas semanas, tossir e tropeçar eram ocorrências comuns, nestes trabalhos corridos de fim-de-tarde – e finalmente entendi que não há para estes problemas cura técnica ou física enquanto a causa principal for a tensão mental. (Ok, também admito que nunca na vida eu havia montado um cavalo tão sujo.)
Sei que estou me repetindo. Mas pense nisso: até que ponto seus problemas estariam resolvidos se seu cavalo estivesse, apenas e simplesmente, calmo, focado e com boa vontade em relação àquilo que você pede a ele? Como seria nosso mundo de cavaleiros, se pudéssem pedir “por favor” com um sorriso para os nossos cavalos, e eles respondessem “sim”, também sorrindo, sem forçação de barra nem nada? Claro que o sorriso aqui não é com os lábios e sim… com todo o corpo, toda a mente, toda a alma. Mas isso vocês já sabiam.
Fim do dia de trabalho…
(C) da foto: PAULA DA SILVA


criado por leschonski
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