CAVALOS ENTUSIASMADOS

Textos, fotos e filosofanças de Claudia e amigos sobre o mundo dos cavalos, e os mundos aos quais o cavalo nos leva.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Cururu, essa é pra você

Há muito tempo, eu era criança e adorava cavalos. Qualquer cavalo. Nada melhor, nada mais valioso, nada além deles a que eu quisesse dedicar minha vida.

Quando finalmente comecei a  ter cavalos reais em minha vida diária, nenhum esforço era demasiado, nenhuma dedicação pesada, nada excessivo. Tudo era como devia ser, e era leve, e e era um prazer e um privilégio. Simplesmente o único momento e o único lugar em que eu queria estar. Nesta época, eu era adolescente.

Por toda a vida, continuei amando cavalos. Mas em algum ponto a perspectiva mudou. Algumas coisas se tornaram obrigação, algumas supérfluas, algumas inúteis. Nem todos os cavalos eram bons o bastante. Algumas coisas nem todo o esforço do mundo não seria capaz de mudar. Pior, muitas vezes senti que precisava me justificar, não apenas o amor por cavalos, mas o amor e a dedicação por um determinado cavalo em particular. Era meio como se eu estivesse me desculpando. Talvez fosse também uma maneira de me refugiar na segurança  da mediocridade. Nunca perdi a certeza, nunca perdi o amor por eles, mas talvez em alguns momentos perdesse o amor por mim mesma. E desta frustração resultaram algumas atitudes minhas para com os cavalos das quais não me orgulho.  Esta foi a fase adulta.

Mas agora… que estou no horizonte da meia idade, há este cavalo que ainda é uma criança. Um potro com olhos grandes e suaves, que olha o mundo com curiosidade, mas também com confiança. Que acha que tudo é possível, e que o mundo existe para ser atravessado a galope. Cuja fé na própria capacidade nunca foi abalada, que em seus quatro anos de vida encontrou muito mais gentileza e palavras calmas do que trancos e barrancos. Um potro que não tem compreensão dos conceitos abstratos dos homens, mas que sabe manifestar o amor de uma maneira simples: dando o melhor de si. Uma criança como eu já fui.

Cururu, dezembro 2013. Foto (C) Nicole Ciscato

Cururu, dezembro 2013 - Foto (C) Nicole Ciscato

E assim nestas manhãs quentes de janeiro vem renascendo em mim o entusiasmo da infância e a paixão da adolescência. No amor pelos detalhes, nos cuidados abnegados, na motivação de fazer o melhor simplesmente porque eu posso. Surge a ideia de que não precisamos ser medíocres: podemos ser maravilhosos. Também e ainda mais agora, quando tenho a possibilidade de utilizar todos estes anos de conhecimento e de experiência, até que enfim temperados com alguma paciência, com técnica mais apurada, com a memória dos grandes homens e mulheres em cujo exemplo posso me espelhar.

Quem sabe, este potro poderá se tornar o melhor cavalo de minha vida. Quem sabe, se eu der tudo de mim - assim como ele me dá seu todo, numa entrega quase assustadora em sua inocência - juntos chegaremos bem perto de nosso verdadeiro eu, da melhor versão possível de nós mesmos. Há trinta ou quarenta anos, eu teria acreditado - e hoje, não posso desapontar a confiança dele. Pois se o fizer, estarei sendo infiel a mim mesma.

Namasté, Cururu. Com alegria e  honra. Neste início de nossa longa jornada.

././././.

Cururu, janeiro 2104. Foto (C) Maxx Arr

Cururu, janeiro 2104. Foto (C) Maxx Arr

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segunda-feira, 15 de julho de 2013

O PEQUENO ALAZÃO

Hoje, apenas uma homenagem, citando alguns trechos de um velho favorito meu, o poema que é também canção, “El Alazán”, de Atahualpa Yupanqui.

EL ALAZÁN (trechos)

Atahualpa Yupanqui

Como una cinta de fuego
Galopando, galopando
Crin revuelta en llamaradas

- Cien caminos anduvimos…
Mi alazán, te estoy nombrando.

Oscuro lazo de niebla
Te pialo junto al barranco,
¿Cómo fue que no lo viste?
¿Qué estrella estabas buscando?

Mi caballo, mi caballo.

Si como dicen algunos
Hay cielos pa’l buen caballo,
Por ahí andará mi flete
Galopando, galopando.

././././././

Foto: Zacarias e Claudia no CCE de Rio Claro, junho 2013. (C) Marco Lagazzi.

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segunda-feira, 15 de abril de 2013

NOVO LIVRO SOBRE EQUOTERAPIA

Caros leitores,

A pedido da amiga Lourdes Neves Vieira, tenho muito prazer em ajudar na divulgação do livro “EQUOTERAPIA – Teoria e Prática no Brasil”. Confiram no texto do release abaixo. Na imagem, encontrarão os dados sobre o lançamento oficial, que será no próximo dia 19 de abril. Prestigiem, divulguem, e parabéns a todos os profissionais da equoterapia brasileira!

……………….

Informação do livro

Equoterapia Teoria e prática no Brasil

A Equoterapia é uma prática inovadora, que vem se destacando nos últimos anos, por apresentar resultados relevantes em período inferior ao tratamento convencional. Neste ano de 2013 ela alcançou uma grande conquista, no mês de Fevereiro, o Ministério do Trabalho, reconheceu a profissão de Equoterapeuta, agora classificada no Código Brasileiro de Ocupações com o código 2263-15. Sendo este um momento tão especial para a Equoterapia não poderia haver melhor comemoração do que a exposição do trabalho dos profissionais, agora reconhecidos como equoterapeutas.  O livro Equoterapia: Teoria e Prática no Brasil reuniu um grupo diversificado de profissionais de vários centros de equoterapia do Brasil em prol da divulgação de sua eficácia fornecendo um manancial de conhecimentos e troca de experiências.

É a primeira vez, no Brasil, que se reúne um grupo tão diversificado de profissionais atuantes na Equoterapia, são mais de 600 páginas de experiências e informações apresentando uma abordagem desafiadora com múltiplas interfaces que muito contribui processo de auto-avaliação e descoberta de potencialidades do individuo.

Este livro é importante para profissionais da saúde, educação, pesquisadores, acadêmicos, associações de pessoas com deficiência e seus familiares e para a sociedade de forma geral.

A parceria entre Geralda Otone -Neném, diretora fundadora do INPAR Instituto Paraiso e a Dra.Daniela da Fundação Educacional de Caratinga - FUNEC, iniciada em 2011,com o lançamento do primeiro livro em julho de 2011,durante a Exposição Nacional do Mangalarga Marchador, permanece e chega a este segundo livro.

Todos que tem apoiado essa ideia estão indo muito além da inclusão, acreditam de verdade nesta prática e procuram desenvolver o melhor, por isso o desejo de compartilhar esse saber através de uma divulgação cientifica e de seriedade.

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quarta-feira, 3 de abril de 2013

O PODER DO ENTUSIASMO

Como en tus Tiempos, por Carlos Montefusco. Dois parelheiros cheios de entusiasmo, o de antanho que agora virou montaria e o novo "flete". Reparem na quantidade de pratarias no arreio, conquistadas na cancha. È isto que o artista Montefusco conta a respeito da pintura.

Como en tus Tiempos, por Carlos Montefusco. Dois parelheiros cheios de entusiasmo, o de antanho que agora virou montaria e o novo "flete". Reparem na quantidade de pratarias no arreio, conquistadas na cancha. È isto que o artista Montefusco conta a respeito da pintura.

Este, salvo engano de minha parte,  não é um título original meu, mas neste domingo de Páscoa gostaria de emprestá-lo aos caros leitores para juntos recordarmos de que “ter entusiasmo” significa “ter Deus dentro de si”.

En + theos = (dentro de) + (Deus)

Também acho bacana pensar que este conceito tem muito a ver com a saudação oriental “namasté”, relativa ao Deus interior de cada um de nós: “o deus que está dentro de mim saúda o deus que está dentro de você”.

Isto não precisa significar que “somos Deus”, e sim, que somos divinos, que dentro de cada um de nós existe o modelo perfeito da existência.

Aquilo que nos enche de entusiasmo é aquilo que fazemos com alegria, num estado de entrega, sem sentir o tempo passar, da maneira mais perfeita possível, num ponto onde trabalho e prazer se confundem – ou seja, embuídos de essência divina, do potencial de perfeição. Mesmo que aconteça durante cinco segundos apenas, a sensação é inesquecível, e algo que dali para diante sempre desejaremos recapturar.

"Coloradas", por Carlos Montefusco. Potranquinha entusiasmada descobrindo o mundo...

"Coloradas", por Carlos Montefusco. Potranquinha entusiasmada descobrindo o mundo...

Agora pare um pouco de ler, e reflita sobre o conceito do “entusiasmo” para cavalos, ou na relação entre cavalo e cavaleiro.

Imagine um cavalo e cavaleiro se movimentando juntos, num diálogo permanente de “namasté”: o cavalo perfeito montado por um cavaleiro perfeito. Meu deus interior em diálogo com seu deus interior. (E aí vem a voz interior: “monto mal e meu cavalo não é perfeito!!”. OK, mas imagine: qual seria a sensação se vocês fossem perfeitos? Por cinco segundos apenas?)

Imagine um potro jovem no auge de sua saúde, força e alegria, brincando no pasto com seus pares. Todos os movimentos com controle, força e beleza, harmonia e pureza. Haverá definição melhor de “ter Deus dentro de si”? E se você, como cavaleiro, fosse capaz de preservar e lançar mão deste entusiasmo no cavalo montado? O que você teria que fazer? O que você não poderia fazer sob hipótese alguma? (Por exemplo, provocar dor e medo, chicotear e esporear um cavalo, teriam o efeito desejado?)

E se fosse possível interagir com o seu cavalo de modo que ele fosse o seu deus interior, e você o dele? Se ambos se completassem de maneira a nenhum dos dois saber onde termina a vontade de um e onde começa a força do outro?

Não faz mal que você não saiba o “como fazer”. Da próxima vez em que estiver com seu cavalo, pense e sinta: qual seria a sensação se fóssemos capazes de despertar nosso deus interior, assim, numa simples inspiração? Escutá-lo e segui-lo apenas?

Enfim, são apenas reflexões. É por conta delas que o blog se chama “Cavalos Entusiasmados”. Só para o caso de alguém já ter se feito esta pergunta.

E neste sentido, que o domingo de Páscoa seja um convite para a ressureição do cavaleiro perfeito e do cavalo perfeito que existe em cada um de nós. Na verdade, ele está lá, vivo, mesmo agora.

Porque Deus – não importa como você o chame – sempre está lá.

Namasté, Feliz Páscoa!

Claudia

Lorenzo com seus muitos cavalos muito entusiasmados... Festivallo, Equitana 2013

Lorenzo, com seus muitos cavalos muito entusiasmados…

P.S.: As belas ilustrações são de autoria do artista argentino Carlos Montefusco. Por favor divulguem, ele merece ser muito mais conhecido do que é!!

criado por leschonski    19:24:03 — Arquivado em: Sem categoria

domingo, 3 de fevereiro de 2013

BAILARINO

Um post bem curtinho, só pra começarmos inspirados a semana… :)

Abraços,

Claudia

……..

“Grace is the absence of everything that indicates pain or difficulty. hesitation or incongruity.”

(William Hazlitt)

…………………………………

Imagine-se destinado a ser um dançarino : todo o seu trabalho, o suor e o esforço dos seus dias, empregado em se aperfeiçoar na arte de se movimentar da maneira mais graciosa, mais coordenada, mais perfeita.

Você tem força, energia e vontade : você é uma criatura essencialmente bondosa, a preguiça e a malícia não existem para você.  Mas existe um pequeno problema : você não tem a mínima idéia de que se espera de você que seja um dançarino, meio artista, meio atleta. Pior, você não fala, tampouco entende linguagem falada – e, claro, muito menos sabe ler.

Você também é incapaz de aprender observando dançarinos mais velhos e experientes, pois você é completamente desprovido da capacidade de raciocínio abstrato. E mesmo assim, você é obrigado a aprender a dançar - e você quer fazê-lo. Pois você tem o talento. Você nasceu para isto. Mas nem por isto você nasceu fazendo.

E o seu porvir, seu sucesso ou fracasso, dependerão essencialmente de mestres que entendam e aceitem como você é, que o amam e que saberão tornar seu potencial realidade. Sem que você passe a odiar a dança ao longo do caminho.

Você - tenho certeza de que já o percebeu - é um cavalo.

Como você se sentiria?


criado por leschonski    22:46:22 — Arquivado em: Sem categoria

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

UMA FORMATURA NA TRIBO DO CAVALO

Num poster antigo, a simplicidade essencial do estilo de vida da tribo do cavalo

Num poster antigo, a simplicidade essencial do estilo de vida da tribo do cavalo

Caros leitores,

Pela segunda vez, fui convidada para ser paraninfa de uma turma de formandos do curso de Gestão em Equinocultura mantido pela Universidade de Sorocaba (UNISO) em parceria com a Universidade do Cavalo.

A composição do requerido discurso demandou algum tempo e esforço. Mas até acho que o resultado merece ser compartilhado com vocês, que como nós são membros da grande tribo do cavalo.


Abraços,


Claudia

—————

Queridos alunos, queridos mestres, querida plateia,

Nossa vida não é virtual.

Ela é feita de sol e de chuva, de sentir fome e também do prazer do alimento. Nascemos filhos do Pai celestial e da mãe terra, e por isso temos a cabeça no infinito – mas temos também  os pés no chão.

Por vezes, pessoas se sentem reduzidas a um circuito neuro-cibernético – olhos, dedos e neurônios linkados numa infinita rede, onde a realidade de nossa existência se torna secundária, como se o mundo das ideias fosse superior, como se não fóssemos feitos de carne e osso.

A materialidade é inegável, e ao mesmo tempo, para chegar à  plenitude, nossa existência precisa de uma alma. O desafio é conciliar as imposições da modernidade com a condição humana.

Não é fácil: em nosso país, a prosperidade cresce tal qual os índices de obesidade e de consumo de tranquilizantes e estimulantes, sejam legais ou ilegais. Ferramentas que nos deveriam poupar tempo nos levam ao stress pela falta de tempo. Como resultado, nos distanciamos mais e mais de nós mesmos – fisica, mental e emocionalmente.

Os antídotos são as atividades que levem ao reequilíbrio destas três dimensões, e à reconexão com a quarta dimensão: nosso eu superior.  O físico, pleno e saudável; a mente concentrada e vivaz; a alma equilibrada e feliz. Esporte, arte, ciência ou religião; dança, pára-quedismo ou peregrinação – o desafio é conseguirmos nos manter conectados não apenas ao mundo, mas a nós mesmos.

Nossa “tribo” tem seu próprio meio de chegar lá: os cavalos com tudo que eles nos proporcionam. A vida com cavalos nos leva à parceria com uma mente sentiente e um corpo poderoso, muito diferentes dos nossos. Nesta espécie de dança, somos  a um tempo mestres e subordinados do parceiro. Ela revela nossas fraquezas e limitações como o mais cristalino dos espelhos, e assim nos conduz à auto-superação e à transcendência – até chegarmos o  mais próximo possivel da perfeição que nos for dado atingir numa existência humana.

Existimos para evoluir.

Evoluimos ajudando os outros a evoluir.
Ajudamos os outros a evoluir quando os aproximamos de sua verdadeira vocação.

Para mim, este é o verdadeiro sentido da vida com e para os cavalos, e, por extensão, do curso de gestão em equinocultura. Vocês, meus queridos (ex)alunos, bem sabem que esta é a essência do que lhes falei durante nosso tempo juntos. De hoje em diante, cabe a vocês mostrarem ao mundo que “o cavalo” não é apenas esporte ou lazer, nem coisa de peão nem brincadeira de milionário: é, isto sim, uma das muitas nobres trilhas do ser humano ao centro de si mesmo. Da verdade que nos libertará.

Obrigada, vão com Deus, sejam felizes hoje e sempre.

/././././././

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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Um jacarandá no meio do caminho

Caros amigos,

meu grande amigo Jeff - além de cavaleiro, arquiteto, cantor, ceramista e em suma excelente companhia  - mandou-me este causo ocorrido no sítio de sua propriedade. Ambos achamos que seria uma excelente mensagem de ano novo para compartilhar com os leitores do blog dos cavalos entusiasmados. Afinal, os cavalos adoram as árvores - e, quem sabe, vice-versa?

Boa leitura e feliz 2013! :)

…………..

Durante anos sonhei em ter minha própria pista para trabalhar meus cavalos, porém meu terreno pequeno e com grande declive nunca facilitou tal intento. Certa feita criei coragem e junto ao meu fiel escudeiro (o caseiro do sítio), e com a ajuda dos filhos, conseguimos criar um pequeno platô. No fim das contas, acabei me conformando com um bom redondel conseguido à custa da remoção manual de metros e metros de terra. Estava feliz da vida: finalmente teria um espaço para minhas lições de adestramento colhidas nos livros, com os amigos e dos youtubes da vida.

Porém… um pequeno detalhe ainda teria que ser resolvido: exatamente num dos quadrantes do picadeiro vicejava frondoso um jacarandá mimoso que eu mesmo plantara há alguns anos. Refleti muito e numa batalha épica com meu lado “eco”, decidi enfim pelo sacrifício da querida árvore. Carrasco nas horas necessárias, estava prestes a dar a ordem ao caseiro quando… percebi que um casal de joões-de-barro havia eleito justamente a árvore condenada para construir sua singela obra arquitetônica. Assim me vi obrigado a adiar meu maléfico intento. Numa estranha mistura de frustração e alívio recomendei ao fiel escudeiro que estendesse o prazo do fatídico massacre para quando os filhotes já estivessem criados.


Passados alguns dias da saída dos filhotes, uma nova surpresa - um casal de periquitos sem teto invadiu a linda casinha de barro abandonada, constituindo um novo ninho de amor. Considerando a reciclagem uma atitude atual e necessária, nem sequer fiquei muito frustrado por mais uma vez ter sido obrigado a adiar meus duvidosos planos. Outros tantos dias se passaram, a árvores não tinha mais inquilinos e pronto – chegara a hora do sacrifício final. Fechei meu coração, recusei-me a todo e qualquer pensamento de pena ou gratidão, e ordenei ao escudeiro-carrasco que executasse a sentença no final de semana, quando eu não estaria presente.

E então… nova inesperada descoberta nos assolou. Um novo casal de joões-de-barro construiu uma segunda casa num galho superior. Não tive outra saída a não ser conviver por mais um tempo com aquele jacarandá no meio do caminho. Fomos dando sequência aos nossos treinamentos, independente do estorvo que mais uma vez florescia exuberante, como que implorando pela própria redenção. E assim, sob uma magnífica e disputada sombra, evoluiu o nosso conjunto, até um primeiro passo espanhol e um piaffe ainda pouco alçado, conseguidos após muita insistência e cenouras crocantes.


Pensando em desistir do meu intento perverso, já havia aprendido a usar aquele obstáculo a meu favor, beneficiando-me da sua sombra protetora. Até mesmo pendurei um comedouro num dos galhos do jacarandá, e logo  diversas espécies de aves começaram a colorir minhas manhãs hípicas. E já contamos com um novo visitante, um ágil esquilo serelepe que engorda a olhos vistos.

Ontem, ao final do meu treinamento, eu estava aproveitando para fazer alguns exercícios de alongamento sobre o cavalo. Ao olhar para o alto, constatei que um novo casal de pássaros iniciava as obras de uma terceira casinha. Aquela árvore agora mais parece o canteiro de obras de um condomínio ornitológico. Foi neste momento que tive a certeza de que o nosso jacarandá não mais deveria ser cortado, e sim cuidado e protegido para o bem de todos os seres que por ele passam e desfrutam de sua inestimável força de beleza e vida.

(Autor:  Jeff Hernandez)


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domingo, 23 de dezembro de 2012

BOAS FESTAS, FELIZ 2013!

Caros amigos,

Agora que as Festas estão aí e 2013 praticamente… já chegou, a sensação que tenho ao passar em retrospectiva os dias de 2012 é de evolução. Evolução pessoal e profissional, com metas cumpridas, desafios iniciados, novos questionamentos, respostas a velhas perguntas , constante mutação, mas sempre olhando para frente.

Claro, “evolução” é bem diferente de “realização”. Pois deixa espaço para o novo, para novas possibilidades ainda não vislumbradas, para boas surpresas ainda insuspeitas. Na certeza de estar trilhando a estrada na direção certa – ainda que às vezes com curvas e desvios, e que haverá onde buscar novas respostas para novas perguntas. Sabendo também que na hora dos obstáculos, dificuldades e imprevistos os amigos e as equipes de apoio estarão em toda parte.

Pois se 2012 foi um bom ano, o foi também graças a vocês, parceiros, amigos, colegas de profissão – neste nosso ramo onde o pessoal e o profissional tendem a se misturar. E por isso mesmo somos privilegiados.

Desejo-lhes Festas cheias de alegrias e de tranquilidade e paz em meio a seus seres amados. Com um tantinho de sossego, para que voltemos a 2013 re-energizados, fazendo tudo que   mais gostamos, na companhia de nossos melhores amigos. Aí incluídos todos os novos amigos que surgirão pelo caminho.

Vamos lá, amigos - ao lado de vocês, o sucesso é coisa certa!

Namasté,

Claudia Leschonski

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domingo, 9 de dezembro de 2012

BEM-VINDO CURURU!!

Oi caros,

Vou escrever um rápido depoimento sobre meu novo potro, o Cururu GJ, embora eu ainda não saiba quase nada sobre ele. Em primeiro lugar, quero agradecer à equipe da Genetic Jump e Big Jump, em especial Mario Duarte, Marília Duarte e José Bueri.

Cururu GJ, por Coriall (Holst.) em Bustira xx

Cururu GJ, por Coriall (Holst.) em Bustira xx

Adquiri o Cururu de uma maneira pela qual achei que nunca compraria um cavalo: por seus documentos. Há tempos sou encantada pelo garanhão Coriall, com sua longevidade, fenótipo sólido porém harmonioso, e temperamento equilibrado, um cavalo que levou seu cavaleiro amador aos mais altos níveis do salto. Mas como sou apaixonada em primeiro lugar pelo Concurso Completo de Equitação, sempre brinquei com a ideia de utilizar o Coriall numas éguas puro-sangue inglês.

Assim, quando vi um potro com este pedigree no catálogo do leilão da Genetic Jump (que aconteceu no fim de março), decidi  tentar a compra.  Fui ao leilão e consegui comprar o potro que havia visto apenas na foto do catálogo e uma vez na cocheira. Tendo recém completado dois anos, parecia mais jovem, quase como um potro de sobreano. Ficou no haras pelo resto do ano, voltando à sua rotina de viver no grupo dos machos de sua idade. Consegui visitá-lo duas ou três vezes, e além de ser um castanho num grupo de quinze ou vinte potros, quase todos castanhos, era um dos mais tímidos, ou talvez reservados, da manada. Mal e mal conseguia observá-lo de perto ou encostar-lhe a mão no pescoço.

Agora em dezembro decidi participar com o Cururu de um curso intensivo de doma na Universidade do Cavalo. E nesta sexta feira dia 07, no fim da manhã chegou à UC o potro que nunca havia saído do haras onde nasceu, provavelmente nunca havia subido num caminhão nem se afastado de seu grupo de companheiros. E que, obviamente, nem me conhece nem sabe que sou oficialmente considerada “proprietária” dele (ainda que este status seja, provavelmente, questionado pelos nossos animais…). Acho que é compreensível que eu  estivesse algo apreensiva com a chegada do meu potro desconhecido, um legítimo “dark horse”.

-)

Canelas brancas em contraste com canelas pretas!! :-)

Pois bem: ainda não sei o que vai acontecer no curso de doma, mas nestes primeiros dois dias várias coisas foram constatadas:

a) O potro sabe cabrestear perfeitamente, e fica amarrado na argola

b) É calmo e confiante com as pessoas, inclusive para fazer curativos (claro que ele foi se cortar na cerca logo no primeiro dia…)

c) Considerando que é acostumado a viver em grupo, foi solto com Zacarias, os dois fizeram amizade quase instantânea e por aí vai indo, mesmo o Cururu sendo ainda inteiro

d) Cresceu MUITO  de março para cá, e seu desenvolvimento e conformação foram elogiados por quem entende do assunto

e) Até agora, a impressão que tenho dele é que observa as novidades deste mundo com curiosidade muito mais que com medo ou apreensão.

Foto horrvel? Não, foi escolhida para mostrar o baixo stress no primeiro dia de inserção no esquema de manejo da UC (reparem no lábio relaxado)

Foto horrível? Não, foi escolhida para mostrar o baixo stress no primeiro dia de inserção no esquema de manejo da UC (reparem no lábio relaxado)

Claro que é um potro, e que os dois ou três próximos anos serão às vezes imprevisíveis, aventurosos, divertidos e cheios de aprendizado para nós dois, e para outras pessoas em volta. Mas a impressão inicial – tanto minha quanto da equipe da UC – foi a melhor possível. Nada mal para um potro comprado no papel e desconhecido como indivíduo. E para mim é um grande exemplo da importãncia de se aliar genótipo e ambiente, com muito conhecimento de causa, para se produzir o melhor fenótipo, o famoso F = G + A que tanto “martelo” cabecinhas dos meus queridos alunos adentro.

Até agora, a genética de boa conformação e bom temperamento do Coriall somada à harmonia, atleticismo e inteligência do PSI foram preservados e estimulados pela habilidosa equipe Genetic Jump, com boa nutrição, manejo adequado durante suas fases iniciais de vida, e também com uma equipe de funcionários que gosta de cavalos e os trata com respeito. Do contrário, o potro não teria chegado à sua nova vida tão sereno e gentil com as pessoas, tão pouco estressado com o novo ambiente. Moral da história até aí: se for comprar um cavalo “no escuro”, pelo menos conheça a procedência – no caso, o conhecimento de causa dos responsáveis pelo criatório. Pois sem isto, a melhor genética do mundo não é o bastante.

Agora, está na nossa vez: aproveitarmos esta base sólida para nela construirmos um cavalo de esporte que consiga, em seu devido tempo, alcançar o máximo de seu potencial inerente. Honrar a confiança que o Cururu está depositando em seus novos amigos é uma grande responsabilidade, e com certeza será uma estrada de muito aprendizado – e se Deus quiser, de muita satisfação também. Fiquem de olho nas novidades!!

Abraços,

Claudia

P.S. Só para informação – o cronograma previsto até agora é dez dias de curso de doma, de volta ao haras para férias de verão e castração, depois aos poucos retomada e continuidade da doma. Iniciar, de leve, a  vida de trabalho lá por fevereiro ou março, depois que o Cururu tiver completado seu terceiro aniversário. E se tudo evoluir a contento, quero estudar o trabalho de antigos mestres como Podjahsky e Udo Bürger, que ensinavam e praticavam que o início de carreira dos cavalos jovens deveria, nos dois primeiros anos, se concentrar em torno da equitação de exterior, com muitas subidas e descidas em todos os andamentos, a princípio em moldura aberta e depois num grau crescente de contato, e aos poucos também começando com obstáculos naturais.

criado por leschonski    21:46:34 — Arquivado em: Sem categoria

sábado, 8 de dezembro de 2012

CABELO: “My Way”

Um post sobre um cão amigo dos cavalos… :)

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Claudia, Venus e Cabelo prestando atenção no instrutor José Bueri

Claudia, Venus e Cabelo prestando atenção no instrutor José Bueri

O cãozinho a quem dei o nome de Cabelo entrou na minha vida de maneira bem condizente com sua personalidade: calmo, discreto, porém persistente. Acho que foi em algum momento entre 2006 e 2007: ele chegou na calçada em frente de minha casa, como tantos cães chegam, não sei bem como ou porque. Dou alguma ração, às vezes eles ficam, às vezes vão embora, na maneira típica dos cães de rua. Acho que alguns já nem pensam em ter um dono, gostam de determinar suas próprias vidas, e assumem a responsabilidade do risco das ruas, da barriga às vezes vazia.

Cabelo encontrou um compromisso curioso entre ter um dono e ser dono do próprio focinho: acampou na rua de terra em frente à minha casa. Aceitava a comida, era amável comigo, mas não entrava pelo portão mesmo quando entreaberto. Na época a cachorra Pimenta era meu único cão doméstico, e eles foram fazendo amizade. Eu não era avessa a ter um segundo cachorro, pois Pimenta passava muito tempo sozinha. Mas eu ainda não estava bem decidida quanto a botar o Cabelo – que eu já chamava assim, haja visto a quantidade de pêlos que o cobria por todos os lados, uma espécie de mestiço de poodle com fox pêlo duro  - para dentro de casa, já que ele também parecia preferir sua vida de liberdade. Mas ele começou a me seguir quando eu saía a pé para o supermercado ou à padaria. O momento de decisão veio num dia em que meu carro estava na revisão em Sorocaba, e fui até a rodoviária a pé, seguida do Cabelo que ficou sentado comigo pacientemente, à espera do ônibus. E quando o coletivo me levou embora, ele foi correndo atrás do ônibus! Isto me cortou o coração. Felizmente, quando de noite cheguei de carro em casa, ele já estava me esperando novamente na calçada. E assim passou a ser “meu”, se é que podemos nos considerar donos de alguma criatura viva.

Belo retrato de 2009, autoria e (C) de Lu Vargas

Belo retrato de 2009, autoria e (C) de Lu Vargas

Cabelo sempre teve agenda própria. Andava incansável nos passeios a cavalo, no seu trotezinho peculiar, sempre sorridente, por horas a fio ao lado ou à frente dos cavalos, enquanto a preguiçosa da Pimenta já havia ficado para trás. Recusava-se a dormir no quintal de casa, espremendo-se entre as grades do muro numa acrobacia acreditável apenas para quem via ao vivo. Depois que compreendeu que eu passava parte do tempo no sítio com os cavalos, começou a ir lá por conta, percorrendo os 3 km de minha casa até lá, e me esperava, ou vinha ao meu encontro no portão do sítio. Numa dessas noites, eu voltava de carro para casa enquanto ele estava chegando, e ele deu meia volta para correr latindo atrás de meu carro, o que ignorei por completo, pensando como eram bestas os cachorros do vizinho que não desistiam, por centenas de metros, de correr morro acima atrás de um carro. Apenas quando cheguei em  casa me deparando com a ausência de Cabelo me dei conta de que o cão era ele, e quando minutos depois ele chegou em casa, feliz por ter me achado, aos pulos e latidos apesar de esbaforido, toda envergonhada lhe pedi desculpas: ele reconhia meu carro de noite e com janelas fechadas enquanto eu era incapaz de reconhecer o latido dele!

Ele desenvolveu predileção especial pelo meu carro, compreendendo que onde o carro estava, eu estaria também, e não partiria sem o mesmo. Por isso o carro era seu abrigo nos momentos de tensão, seja quando acuado por cachorros ferozes ou em jogos de futebol ou em qualquer festividade envolvendo rojões, dos quais ele sempre teve pavor, sua única exceção, além das noites de trovoada, para abandonar a rua e dormir em casa – neste caso, se possível na minha cama ou o mais escondido possível. Certa vez eu estava passando alguns dias num haras, compartilhando a casa dos estagiários, e como o local era propício e cheio de cães, havia levado o Cabelo comigo. Uma noite, emprestei o carro para uma estagiária fazer compras, e o desespero do Cabelo foi tragicômico: ouviu o Ka dando partida, ia correr atrás, se deparou comigo calmamente sentada no sofá, me encarou atônito, só faltou gritar “estão levando o carro!!! Como vamos voltar para casa???” Na percepção dele, era a primeira vez que o carro e eu nos separamos.

Cabelo e Pimenta em um dos melhores lugares do mundo

Cabelo e Pimenta em um dos melhores lugares do mundo

Não sei ao certo a idade do Cabelo, mas já devia ter uns quatro ou cinco anos quando veio ter comigo. Ao longo deste ano, ele foi ficando mais devagarzinho, o que atribuí à idade que avançava. Mas quando parou de comer e estava muito anêmico, suspeitei de erlichiose, e o levei à nossa amiga Dra. Liliane, que no começo do ano já havia salvo a Pimenta da mesma doença. O diagnóstico foi mais complicado: problema renal. Soroterapia e medicações o estabilizaram, mas esta doença é sempre progressiva. Mesmo assim, voltou a comer e me acompanhar nas corridinhas em volta da lagoa. No sítio preferia ficar à sombra, não mais acompanhando os cavalos, mas sempre de olho no carro. Continuou adorando os passeios de carro, mesmo que fossem para ir à veterinária para novas internações com soroterapia, e uma vez até transfusão de sangue fez, graças à Vulpi, minha terceira cachorra e valente doadora. E lá pelas tantas, um sopro cardíaco já diagnosticado tempos atrás também começava a dar sintomas.

Nas últimas semanas, estava bem, continuando com seus hábitos de sempre: espremer-se pela grade, dormir na rua, desaparecer a seu bel-prazer e voltar, pedir comida e dormir quietinho debaixo da escrivaninha. Cumprimentava-me com latidos quando eu chegava e atacou um cachorro muito maior com uma legítima voadora, sua arma imbatível  - aliada a um pretenso mega-ego - para atacar os cachorrões em caso de necessidade. Eu o observava, o levava para passear e em geral estava bem focada em sua qualidade de vida, tentando não pensar no futuro. A evolução da doença renal crônica não é agradável nem fácil.

Um cavalheiro discreto e ao mesmo sempre fazendo tudo à sua maneira: fiel a si mesmo, o Cabelo resolveu mais este problema. Hoje cedo, alimentou-se bem e pediu para ir ao sítio comigo, infiltrando-se porta do carro adentro. Num dos dias mais quentes do ano, ficou nos esperando na sombra enquanto cavalgávamos pelos pastos, e subiu para almoçar com a gente. Não estava perto do carro quando me preparava para ir para casa, não respondeu aos meus chamados. É que já havia partido, enrolado ao pé de uma árvore, a nem vinte metros do carro. Sem ter dado um latido, um uivo, sem ter conseguido me procurar. E nós ficamos atônitos, olhando ali para o corpo do cãozinho que estava tão longe, tão perto. De uma vida curta e tão pouco notada, mas tão intensa e marcante, nos seus olhos puros, no seu otimismo e em sua fidelidade eterna. Para mim, o consolo de que não houve sofrimento, que tudo deve ter sido muito rápido. Rápido demais para nós, frágeis seres humanos. Vejo-o agora: numa nova trilha, trotando lépido e sem esforço aparente, avançando sorridente pelo caminho, certo de que ele o conduzirá a seu destino. Sem gastar energia à toa, apenas indo em frente.

Cabelo, todos nós vamos sentir sua falta. Obrigada por sua amizade e sua sabedoria. Até algum dia.

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No sossego, novembro 2012

No sossego, novembro 2012

criado por leschonski    22:04:23 — Arquivado em: Sem categoria
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