CAVALOS ENTUSIASMADOS

Textos, fotos e filosofanças de Claudia e amigos sobre o mundo dos cavalos, e os mundos aos quais o cavalo nos leva.

CAVALOS ENTUSIASMADOS

Textos, fotos e filosofanças de Claudia e amigos sobre o mundo dos cavalos, e os mundos aos quais o cavalo nos leva.
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Terra Blog

20.08.08

Nosso CCE em Hong Kong - primeiras impressões

Queridos amigos leitores,

Após quase três semanas fora do ar (ou melhor, a meio mundo de distância), volto à minha rotina brasileira de trabalho: cavalos a montar, aulas a dar, textos a escrever.

A experiência de participar durante duas semanas dos Jogos da China, na sub-sede de Hong Kong (Jockey Club de Sha Tin), onde aconteceram / estão acontecendo as três modalidades eqüestres, foi muito rica e dará assunto para muito causo e relato aqui no blog. Por um lado muitos de vocês devem estar curiosos, já que eu tinha prometido que tentaria mandar um diário “ao vivo” de Hong Kong, coisa que fui impossibilitada de fazer pelo estatuto que rege todos os integrantes das delegações olímpicas brasileiras. Por outro lado, a cobertura na mídia (especialmente TV e internet) foi bastante boa, e lá de Hong Kong fiquei supresa em ler e-mails de muitos amigos que afirmaram ter acompanhado o adestramento do CCE pela televisão. Isto me deixa numa posição confortável de poder relatar a vocês acontecimentos e impressões dos bastidores.

Para resultados oficiais e textos, há diversos bons sites, tais como:

Resultados em geral:
http://www.fei.org/OLYMPICS/RESULTS/2008RESULTS/Pages/default.aspx

Link para resultados individuais CCE:
http://www.equestrian2008.org/pdf/result/result_main_g6_no1.pdf

Equipes:
http://www.equestrian2008.org/pdf/result/result_main_g5_no1.pdf

Comentários sobre o cross:
http://www.thehorse.com/ViewArticle.aspx?ID=12493&nID=7&src=RA

Também existem blogs de chefes de equipe e atletas, a maioria em inglês. (Aprendi que da próxima vez vou pedir com antecedência para ser a blogueira oficial da equipe brasileira de CCE!) Um bastante interessante é o site oficial da equipe inglesa, escrito por Will Connell (chefe de equipe), em http://www.equestrianteamgbr.co.uk/news-detail.php?id=157.

Ingird Klimke / Abraxxas, da equipe alemã, durante o cross olímpico.


Hoje, para voltar a engrenar o blog, vou lhes mostrar algumas fotos interessantes e começar pelo final, aquilo que todo mundo quer saber e pergunta - mas afinal, como é a China? Como foi a experiência? E como foi, de verdade, o nosso CCE?

Da China não vi muito, pois trabalhamos o tempo todo sem folga, e no final seguimos direto ao aeroporto. Vi Hong Kong principalmente através dos olhos das pessoas nativas que conheci, que me impressionaram pela dedicação, disposição para o trabalho e também cordialidade e curiosidade em relação a nós. Não me importo muito com os clichês de antigamente – bárbaros ocidentais vs. oriente misterioso. Acho que neste século XXI, todo mundo está evoluindo o bastante para se dar conta que há mais coisas nos unindo do que nos separando. Claro, estar numa Olimpíada cercado de cavalos ajuda. Para deixar os locais felizes, fossem visitantes ou funcionários, era só convidá-los a chegar mais perto, ou até posar junto com o cavalo, quando eles timidamente tentavam tirar fotos uns dos outros parados alguns metros á frente dos cavalos olímpicos.

A foto que todo mundo tirou: Juliana, Laura e eu.

O clima foi quente e úmido como se esperava, imaginem uma mistura de Rio de Janeiro com Manaus. Aliás, quando chegamos do aeroporto e seguimos de bus shuttle para o Jockey de Sha Tin, minha primeira impressão foi esta – “cara, demos a volta ao mundo e voltamos ao RJ!!”  Mar batendo em montanhas cobertas por vegetação tropical, e muitos, muitos prédios espremidos entre ambos. Pontes, viadutos e ruelas estreitas. Ar quente e úmido, às vezes uma brisa para aliviar.

A instalação dos cavalos olímpicos:  tudo que se leu e ouviu por aí e mais. Todas as cocheiras com ar condicionado, todos os pisos e paredes emborrachados. Cada pavilhão com seu redondel particular, bem como “cocheira com chão de areia e paredes circulares”, específica para os cavalos rolarem (espojarem) após o trabalho. Máquinas de gelo em cada pavilhão, produzindo cubos sem parar, inteiramente grátis, o sonho de todo endurista!!! De fato, ao fim do dia as máquinas estavam vazias, pois a demanda era gigante. Picadeiro coberto com ar condicionado, só vendo o choque térmico pra crer! Mas era um alívio para cavalos e nós.

Belíssima a pista de grama que circundava a pista principal do Jockey, e na qual levávamos os cavalos para passear e pastar. Escudeiro do Rincão, meu protegido, afetuosamente apelidado de Gordo, elegeu este como o seu local favorito da Olimpíada inteira. Ele é o tipo de indivíduo que, quando entrevistado sobre toda esta história olímpica, provavelmente diria algo como:
- Escudeiro, verdade que você foi à Olimpíada?
- Ah, fui...
- E como foi por lá?
- Olha, a comida era boa...

O temperamento calmo e equilibrado de Escudeiro, mérito também de seu cavaleiro, Jefferson Sgnaolin (que o preparou desde potro de dois anos de idade) com certeza contribuiu muito para que ele concluísse a Olimpíada como um dos dois cavalos mais jovens de todo o CCE (nascido em 1999), na melhor nota brasileira de adestramento (55, merecia mais na opinião de observadores ingleses, australianos e outros que vieram falar com a gente, encantados pelas extensões de trote e mudanças quase-perfeitas), zero nos obstáculos do cross e uma falta boba no salto numa prova de resto brilhante. Escudeiro na verdade está sendo preparado para Londres 2012, e não tenho dúvidas de que ele tem muito a crescer em seu futuro “profissional”.

Escudeiro e Sgnao ambientando-se no picadeiro principal, alguns dias antes do início das competições.

Sim, encantei-me tanto pelo Escudeiro que nem me importava com o fato dele ser tordilho. Começávamos o dia com um rápido banho de remoção de manchas, facilitado pela ducha com água de temperatura regulável (exatamente como um chuveiro de gente), e dali para frente a água era um contínuo em nossas vidas – gelo nas pernas, duchas, chuva.

Ainda há muita coisa pra contar, mas por hoje vou resumir dizendo que nunca uma equipe de CCE brasileiro foi tão forte tecnicamente, independente dos resultados comparativos às outras equipes. Tivemos três zeros (sem penalidades de salto) no cross, um percurso com uma falta e outro com zero no salto, onde uns 60% do total dos concorrentes foram pior do que isso, e tivemos um cavaleiro disputando a final individual. Melhor ainda, muita gente (australianos, alemães, americanos, a turma do Rodrigo Pessoa, etc), veio comentar de nossos cavalos e nossos cavaleiros (qualidade e técnica), e ficou bem evidente que assim que melhorarmos ainda mais no adestramento, e isto for reconhecido pela comunidade internacional de juízes (= menos preconceito), passaremos a ser uma força considerável. Vale reforçar que nesta olimpíada nosso cross e nosso salto foram melhores que os das nações intermediárias, e equiparáveis àqueles dos favoritos.

De resto, só vou passar algum tempo sem comer arroz. Comida esquisita não tinha muito não, pelo menos onde estávamos comendo, onde eles se preocuparam em dar um ar ocidental às refeições. O mais estranho foi mingau de cogumelo com bolinho de nabo no café da manhã. (Escolhi esta opção depois de enjoar das outras três que comia em rodízio - a) panquecas com Karo, b) bacon, ovo e feijões (!!! Pior que nabo com cogumelos), e c) sucrilhos com banana.

A turma do refeitório e eu: quem é mesmo quem tem os olhos puxadinhos???

É isso. Duas semanas de trampo, risadas, muita emoção e momentos inesquecíveis. Nada se compara a ver “seu” cavalo e “seu” cavaleiro chegando inteiros de um cross quatro estrelas. A não ser talvez estar montando no dito cujo, mas acho que nesta encarnação não mais tenho ambições para tanto.

A Olimpíada ocupará este blog ao longo de várias mensagens, então não fiquem tristes, ainda tem muita coisa pra contar! Aguardo seus comentários!

Abraços,

Claudia

06.08.08

RÁPIDO ALÔ DE HONG KONG

Meus caros,


como alguns de vocês já sabiam, estou em viagem desde o dia 29 de julho, acompanhando a delegação brasileira de Concurso Completo de Equitação durante os Jogos Olímpicos da China. As modalidades eqüestres acontecem em Hong Kong, iniciando pelo CCE a partir desta sexta-feira, dia 08.


Minha idéia inicial era fazer relatórios freqüentes desta viagem e compartilhá-los com vocês aqui no blog; no entanto, o Comitê Olímpico Brasileiro determina que os integrantes de nossas delegações não podem se dedicar a qualquer atividade que caracterize relatório ou reportagem dos jogos, o que inclui o envio de áudios, vídeos ou textos para sites de qualquer natureza.


Por isso, peço desculpas a todos aqueles a quem prometi ir mandando notícias via blog. As fotos estão sendo tiradas e o diário escrito, mas infelizmente não poderei mantê-los informados “ao vivo”. Lembrem-se de que existem muitos sites bons onde vocês podem acompanhar o dia-a-dia das nossas três equipes eqüestres, tais como:
http://www.equestrian2008.org e http://www.fei.org/olympics .
No Brasil, um excelente site é o http://www.porforadaspistas.com.br , e é claro, o da CBH, http://www.cbh-hipismo.com.br.


Enquanto isso, deixo vocês com uma foto tirada durante um passeio pelo centro comercial de Mong Kok.  Em cima, um dos mascotes olímpicos.
Abraços, torçam pela gente,

 

Claudia


P.S.: A previsão é que este blog retorne ao ritmo habitual a partir de 15.08.

26.07.08

ADESTRAMENTO PARA A NOVA ERA

Oi turma,

 

a dica de livro desta semana é a respeito do livro "Adestramento para a Nova Era",  da autoria de Dominique Barbier e publicado no Brasil pela Ophicina Books. Vejam mais a respeito em

 

http://www.ophicinabooks.com.br/lancamentos.php .

 

Sempre estamos comentando sobre a falta de livros sobre cavalos, especificamente sobre equitação, publicados no Brasil. A literatura disponível em nosso país e no vernáculo é escassa, e geralmente limitada ou um tanto antiquada.

 

 

Uma das razões pelas quais isso acontece é simplesmente o pequeno mercado - em outras palavras, poucos compradores para os livros existentes, o que não anima as editoras a renovarem edições já existentes ou traduzir novas obras editadas na América do Norte ou em países europeus. Simples questão da lei da oferta e da procura.

 

Por isso mesmo, faço questão de recomendar a vocês o livro do Barbier, que é provavelmente o melhor e mais moderno (diria até heterodoxo...) já publicado no Brasil sobre adestramento clássico. Num país carente tanto de bons livros quanto de bons mestres de equitação (e creio que as duas coisas estão interligadas), o melhor incentivo que nós, público, podemos dar para termos acesso a mais e novas obras sobre cavalos & equitação, é este - consumir os bons livros existentes!

 

Pensem nisso, leiam, comprem, recomendem o livro "Adestramento para a Nova Era". Vejam abaixo um breve trecho da introdução:

 

Neste mundo acelerado, muitos esquecem a calma e a cura que o cavalo oferece. Esquecem da magia do centauro - a unidade entre homem e cavalo. Felizmente, em todo o mundo, muitos estão retornando ao que é essencial, ficando mais conscientes de que o bem-estar de seu cavalo é tão importante quanto o seu próprio. O que chamamos de "Nova Era" é a conscientização de que dividimos o mesmo mundo, e que devemos participar ativamente da construção de um mundo melhor. Sem qualquer sombra de dúvida, o cavalo será parte integrante deste mundo. E se o tratarmos com amor e respeito, ele nos ajudará, e nos curará. Cavalos nos ensinam a pedir sem agressão, a amar sem condição, e a evitar o lado destrutivo da perfeição. Ensinam-nos a sublimar-nos através de dividir, dar e curar. Ensinam-nos a desfrutar de cada momento por sua novidade e encantamento, e a manter-nos fiéis às melhores tradições do passado.

 

E ainda este trecho, muito alinhado com a idéia dos "cavalos entusiasmados", lembrando a vocês que a raiz etimológica de "entusiasmo" é "ter Deus dentro de si":

 

Também acredito que os cavalos são os mais próximos de Deus de todos os animais. Cavalos são cármicos e chegam às nossas vidas carmicamente, quando chega a hora de realmente aprendermos. Não podemos perder esta oportunidade de aprender, pois isto irá enriquecer outras áreas de nossas vidas. Quando você se sentir frustrado durante este processo de aprendizado, não fique bravo com seu cavalo. Lembre-se do velho provérbio árabe que diz, "seu cavalo é seu espelho". (Dominique Barbier)

Ndzinji Pontes, um dos colaboradores da publicação brasileira de "Adestramento para a Nova Era", lecionando com Thor Função.

 

Enfim, se vocês nunca leram um livro sobre equitação na vida, sugiro que comecem por este. Se pretendem ler um único livro sobre cavalos este ano, leiam este.

 

Abraços,

 

Claudia

24.07.08

CAVALO WESTFALEN X HORSEMANSHIP TUPINIQUIM


Na terceira parte do diário da clínica de CCE da qual participei na Alemanha em junho de 2005, saibam como decorreram minhas iniciativas de ensinar boas maneiras a Flash, o cavalo a mim designado...

Por causa do calor, Hanno recomenda que eu dê uma ducha de corpo inteiro no cavalo. Quando volto com Flash da pista para o pavilhão de cocheiras, todos os quatro corredores pululam de criancinhas da escola de equitação, não consigo encontrar nenhum cabresto. Colocar o cavalo na baia passando entre crianças e cavalos, tirar o material e colocá-lo num canto onde Flash não consiga roê-lo, depois tirar as caneleiras sem ser mordida nem atropelada, por causa da refeição de feno que aguarda o cavalo impaciente; remover o material da baia sem esquecer o aviso na porta de “cavalo fugitivo”; tudo isso já são movimentos que precisam ser estrategicamente planejados. Acho um cabresto abandonado na entrada do andador mecânico e roubo um cabo de um outro cavalo que acabou de ser montado por uma inocente criança da escolinha. Tirar o pobre Flash do feno para o banho são quarenta metros plenos de empacamentos e de criancinhas; a presença destas impede a correção drástica daqueles, como eu gostaria de fazer.


Peço licença a uma senhora que está preparando seu cavalo para passar por ela e colocar Flash na ducha. Ele se recusa; eu puxo; ele puxa. Ele ganha. A senhora oferece ajuda, eu aceito, o cavalo entra na ducha e eu o faço virar para colocá-lo entre as duas argolas, olhando para o corredor, como é praxe por aqui. Assim que o viro, Flash sai da ducha sem ligar a mínima para a minha presença. Ele se recusa a entrar de novo. A senhora me ajuda novamente, e passo o cabo do cabresto pela argola dos fundos da ducha, sem amarrar, pois o cavalo ameaça estirar. Começo a dar o banho de corpo inteiro, logo me entusiasmo e aumento a pressão da água. Flash estira, me arranca o cabo da mão e escapa para o corredor. Depois de me ajudar novamente, a senhora me oferece seu chicote, de modo que com uma mão seguro o cabo do cabresto e levanto o chicote, com a outra dou banho com a mangueira de pressão reduzida. (Enquanto isso, o cavalo da senhora, um alazão bonito e gordo, fica placidamente parado ali na frente da ducha, sem se mexer, nem usar cabresto. A mim só resta sorrir amarelo, elogiá-lo e dizer que o meu, em casa, também é assim. Ela comenta que deu muuuuito trabalho até o cavalo dela chegar àquele ponto.)

Barbara e sua potra durante a aula de cross


Terminada a ducha, o cavalo me arrasta para fora do cubículo e quer tomar o rumo da cocheira. Quando tento controlá-lo, ele me empurra, de verdade, para dentro da parede, avançando calmamente de frente, como um desses elefantes indianos que trabalham puxando madeira. O tempo todo, não esqueça, criancinhas olhando, de modo que de tudo que ele merece, só ganha o cabo do cabresto na cara. A muito custo, consigo deixá-lo de cara para uma parede, e a expressão dele me diz que ele sabe estar “de castigo”. Não vejo nenhum rodinho, e o cavalo está pingando. Depois de alguns minutos, o movimento baixa e consigo pedir a outra moça, munida de chicote de guia, que me ajude a colocá-lo na ducha mais uma vez. É uma ação temerária, pois Flash parece que vai explodir a qualquer instante. Ele entra, ele sai, ele vai pra cocheira pingando mesmo. Chega de Flash por hoje. O adestramento amanhã vai ser uma delícia. Sem esporas.


Após tomar um litro de água e estimar em trinta por cento a chance de ter adquirido uma queimadura de sol, com filtro e tudo, vou assistir um pouco a aula da segunda turma. Dificuldades semelhantes às nossas, os cavalos trabalham bem no “longo e baixo”, mas o pessoal não tem muita noção de distância, deixando os cavalos correrem no final ou mesmo tocando-os para dentro. É engraçado que em clínicas com alunos de nível comparável, no Brasil, sou melhor que a média no adestramento e mediana pra menos no salto. Aqui, pelo menos por enquanto, parece se delinear o contrário.

Flash e eu num (raro) momento de dinâmica harmonia!!

Ainda segunda 20.06
Fim de tarde

“Stalldienst”, stable duty, para todos às 17.30. Para nós alunos temporários, isto significa varrer. Já faz tempo que um vassourão parecia tão parte de mim quanto minhas mãos e meus braços (e muito mais que as rédeas), e creio que terei ganho bolhas e calos até o fim da semana. Com luvas e tudo, Flash também contribuiu seu quinhão para tanto. Depois das 18 hs, dou uma enroladinha, começo a tirar fotos, lá pelas tantas agachando-me no corredor externo ao picadeiro coberto, para pegar um melhor ângulo da “máquina de condução do sistema Achenbach”, essencial para a formação de condutores de atrelagem esportiva. Infelizmente, me levanto justo quando um cavalo de um aluno passa ali do lado, e nem preciso me virar para ver – o barulho descreveu a passarinhada e o tombo. Por sorte é um senhor, não uma menininha. Mas esta talvez não teria caído. Fico tão sem graça, que além de “putz, acho que a culpa foi minha” nem sei o que dizer. Não que ele se digne a me responder, ou a olhar para mim. O status dele como iniciante fica confirmado pela montada enérgica que ele tenta dar, querendo se alçar à sela que prontamente termina de virar. Como ainda quero terminar de fotografar a máquina de condução, e nem quero dar a impressão de estar fugindo, fico enrolando por ali durante os longos minutos que o cavalheiro leva para soltar a barrigueira, ajustar a sela, montar novamente.


Depois, são 18.25, e descubro consternada que a cantina para alunos e aprendizes fica aberta para jantar até 18.30. Não tomei banho, estou morrendo de calor, e de qualquer modo o dia começa a escurecer por volta das 22.30. Jantar!?? Mas se paguei pensão integral, o negócio é encarar. Almôndegas excelentes, pãezinhos semi-novos e três tipos de salada de que não gosto, variantes de “maionese”: de macarrão, de batata e de ovos. Verdura que é bom, nadinha. A solução é comer uma almôndega e contrabandear outra, num pãozinho envolto em guardanapos, para o quarto para consumo posterior.


O longo fim de tarde que me aguarda parece algo deprimente, mas é um dos beneficios adicionais de estar aqui. Sem carro, sem celular, sem amigos por perto. Nem descobri ainda se, nestes tempos modernos, ainda existem orelhões nas proximidades. Há quanto tempo eu não ficava assim, eu e minha máquina de escrever sem nada mais para fazer nem outro compromisso senão botar os escritos e as leituras em dia? Pois é, há tanto tempo que ainda era uma máquina de escrever. Deus abencoe meu laptop e dê a ele tanto uma longa vida quanto um sucessor digno.


A cidadezinha está perto, esqueci de comprar sabonete, também nada me impediria de tomar um trem ou um ônibus e ir passear alhures, nas longas noites do verão local. Mas hoje preferi ficar aqui, dar início a este texto. E se nos dias seguintes também for assim, e eu conseguir produzir um texto contínuo, tanto melhor. Por enquanto, só o silêncio, o sol se pondo lentamente, passarinhos ao longe, à frente da minha janela, sem saber que os observo, pedestres com cachorros, casais ciclistas de meia-idade, a garotada do cavalo andando de bicicleta com botas e chicotes longos na mão. Ainda agorinha, duas aprendizes retornando de um exterior, os cascos dos cavalos quase em uníssono nos paralelepípedos, já identifiquei ambas de vista: uma de cabelo vermelho sempre coberto por um lenço, a outra, de boné, trabalha muitíssimo. Deve ter montado uns seis ou oito cavalos hoje – na hora do almoço, entre aulas que ela mesma ministrava, agora no fim da tarde. E ela também estava varrendo com a gente.

Meus aposentos em Langenfeld. Na tela do computador de então, a versão original do mesmo texto aqui reproduzido...

Pois é, eis-me aqui, o clássico escritor no exílio. Não fossem as mãos vermelhas (vassoura) e os ombros vermelhos (sol), até eu acreditaria. Mas talvez daqui a pouco eu vá procurar um telefone público.

/./././././././

21.07.08

FLASH A GALOPE! (Verão alemão de 2005, parte II)

Oi amigos,

confiram abaixo mais uma parte das minhas aventuras e desventuras durante uma clínica de CCE da qual participei na Alemanha, em junho de 2005...

Abraços, boa semana,

Claudia

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Aquecimento com Flash, enquanto Hanno está de olho no aluno seguinte...


Meu cavalo. Um capítulo à parte. Flash, um westfalen alazão, com  uns 1,75 m de altura. Não tive tempo (ou paciência?) de olhar-lhe a boca, mas deve ter entre 10 e 14 anos. Grande, forte, bem proporcionado, cabeça bonita. Na listagem dos cavalos do pavilhão 4, onde estamos, constam as particularidades de cada animal, tais como “colocar a sela bem para frente” ou “usar protetor de barrigueira”. Para Flash, está escrito “não permitir que coma couro”. Na cocheira dele, no quadrinho reservado para a genealogia do cavalo, vem o alerta em letras garrafais: “MANTENHA A PORTA SEMPRE FECHADA, TAMBÉM ESTANDO DENTRO. O CAVALO FOGE.” Olho em volta – mas não, só Flash tem a auspiciosa mensagem.


É um cavalo de escola com vinte anos de praia, por assim dizer. No corredor, ele empaca e me olha com desdém. Na área de escovação, fica me empurrando ou me arrastando em busca do feno próximo. Quando vou levantar os cascos de trás para limpeza, ele finge dar um coice. Quando tento escová-lo amarrado, para ter mais controle, ele fica quieto por uns minutos, depois estira sem razão aparente, mas de maneira estranhamente controlada, meio me olhando, como avaliando a minha reação. Quando solto da parede o cabo de cabresto, ele continua tão quieto como antes. No encilhamento, as reações dele se limitam a tentar me morder e a levantar a cabeça para escapar da cabeçada. Depois, ele empaca no caminho do pavilhão até a pista. Nisso tudo há mais premeditação do que maldade em si (medo com certeza não é!) como se ele quisesse me classificar em seu sistema particular de separar o joio do trigo, vale dizer, os aluninhos de escola das pessoas mais experientes. Ele também tem um caso avançado de podridão em todos os quatro sulcos de ranilha, coisa comum em cavalos de escola por aqui: a lei de limpeza de cascos existe, mas é apenas superficialmente fiscalizada e executada. Além disso, o piso é geralmente úmido.


Fora estes detalhes, as condições de vida dos cavalos, mesmo sendo de escola, são excelentes. Nem sei porque Flash é tão mal-humorado. Não apenas cabeçadas, porém selas individuais por cavalo, Flash tem até duas, uma de salto e uma de adestramento. Pilhas imensas de feno, complementadas pela palha da cama. Todas as cocheiras do estabelecimento, sem exceção, têm solários individuais, que nesta época ficam abertos permanentemente, permitindo aos cavalos entrar e sair da cocheira a seu bel-prazer. É verdade que não tem muito espaço, mas  é o dobro do que seria antigamente. Sempre conseguem tomar sol e ficar em companhia uns dos outros. É bem fácil de observar que as cocheiras ainda foram construídas no sistema tradicional, e a adaptação dos piquetes-solário individuais é recente, bem em consoância com os princípios de manejo correto e ético tão divulgados nesta cultura eqüestre, e que chegam a ser exigência do consumidor. Além disso, é claro que esta escola precisa funcionar como modelo, neste estado da federação alemã que tem o maior número de cavalos, de cavaleiros e de competições.

Cocheiras com solário, um tipo de instalação que na Alemanha está em vias de se tornar obrigatório, como forma de aumentar o bem-estar dos cavalos.


Uma vez na pista, Flash está bem mais animado do que eu esperava, especialmente após os conselhos recebidos, de montá-lo com chicote e espora. Aproveito o aquecimento a passo, enquanto o instrutor não vem, para me apersentar a meus quatro colegas. Karin trabalha no escritório da Federação e conseguiu uma semi-dispensa para participar da clínica, estando porém comprometida a tocar normalmente seus trabalhos administrativos; ela também monta um cavalo de escola. Barbara trouxe sua potra de cinco anos, ainda bem crua. Phillip é um garoto de uns 17 anos, que tem um cavalinho leve, estilo meio inglês, enquanto o rapaz tem pinta de cavaleirinho de salto. Mike  é um amador de trinta e tantos anos, que trouxe um belo castanho escuro. No geral, estou contente pelo fato do grupo não cair nos dois extremos que eu estava temendo – nem adolescentes apenas nem uma turma de cavaleiros profissionais ou semi, afiadíssimos.


Enquanto isso, Flash se assusta, ou finge que, com todos os banners ainda colocados nas cercas, por causa das provas do fim-de-semana. O contato de frente dele é até bom, mas estranha minha mão alta. E claro, o comentário do Hanno não tarda. Aliás, passo logo toda a lista de observações e correçoes que ele fez a meu respeito, ao longo da aula.


- Mãos altas demais, rédeas tendendo a longas
- Movimento e uso excessivo das mãos
- Falta de ação da perna interna / perna interna muito para trás
- Posição em lordose – coluna muito arquada para frente
- Saindo demais na sela durante a posição de equilíbrio
- Falta de tranquilidade (no geral)


Alguns destes são meus vícios e problemas de sempre; outros, resultantes da minha mudança recente de estilo (mãos altas), iniciada pelo Riccilucca e confirmada pelo Duto. Aqui, eles dão muitíssimo valor à distensão do cavalo longo e baixo, e de alguma maneira ainda não captei quando acontece a transição para aquilo que o Riccilucca chama de “média escola”. Talvez precisasse ficar mais tempo por aqui.


Hanno resolve que as esporas da Cornelia são demasiado afiadas, e me deixa sem as mesmas. O entusiasmo de Flash diminui um pouco, a não ser quando nos aproximamos dos temíveis banners publicitários. Logo, no trabalho de galope, que Hanno quer ver em posição de equilíbrio porém solicitando frente longa e baixa (ou seja, rédea longa), Flash resolve dar uma disparadinha, que consigo controlar sem chamar a atenção do professor (espero). O cavalão tem a manha de entortar a cabeça para o lado, desgovernar a frente e encolher o círculo, e logo o Hanno começa a berrar que está faltando perna de dentro.



No salto, os pontos críticos são tanto meus velhos conhecidos quanto novos:


- Me jogando da sela / subindo demais
- Falta de retidão na abordagem
- Falta de uso da perna externa saindo da curva, e que logo em seguida vira a nova perna interna, para indicar a mão de recepção do salto
- Seguindo pouco a boca do cavalo no salto / na recepção.



No lado positivo, estou sempre olhando para a frente e para cima, nunca para baixo, e consigo (ou tento) incorporar logo as alterações que Hanno pede. O ritmo do Flash sobre o círculo com cavaletes – o mesmo exercício que no Brasil usamos com freqüência - é constante, e erramos poucas distâncias, ainda que (claro) por uma ou duas vezes Hanno comente que estou segurando demais. Encerramos com uma linhazinha, cinco normais, um quique, cinco mais curtos. Tudo isso a 0,50 ou 0,60 , bem entendido, acho que a armação de percurso cheia de coisas a 1,10 só foi pra nos impressionar, mesmo. Pelo menos no dia de hoje. O salto final é diretamente “para dentro”, opticamente falando, de um banner, vermelho!, da Caixa Econômica local. Flash vira uma minhoca nestes últimos lances, mas consigo controlá-lo. Karin, que divide a aula comigo, não tem tanta sorte com seu cavalo mais novo, e precisa repetir a linha mais vezes.

Barbara, Mike e Philip recebendo instruções de Hanno.


No geral, fiz as pazes com Flash ao fim da aula, achando que poderia ter sido muito pior. De fato, o pior me espera na figura do banho.

././././././.

(Continuem blogados para saber como foi o banho do Flash...)