CAVALOS ENTUSIASMADOS

Textos, fotos e filosofanças de Claudia e amigos sobre o mundo dos cavalos, e os mundos aos quais o cavalo nos leva.

16 16UTC jun 16UTC PM

CORRENDO ATRÁS DO SONHO

 

Tenho uma longa relação com o Clube Hípico de Santo Amaro (São Paulo – SP). Lá trabalhei entre 1993 e 1994, e os contatos que firmei, o aprendizado que tive durante este período, consolideram a maior parte de meu futuro – não apenas profissional, mas também pessoal, pois para mim (e creio que para muita gente do ramo…) as duas áreas tendem a se sobrepor.

 

 O novo picadeiro coberto do CHSA: Primeiro Mundo!

Levei alunos ao “Clube” para provas de salto, lá fiquei com a equipe do CCE às vésperas da viagem para Atlanta (1996) e lá também me reuni à equipe que estava de partida para Hong Kong, 12 anos depois. Em Santo Amaro assisti a cursos e campeonatos, trabalhei como juíza e até coordenei as apresentações da raça Campolina durante uma feira equestre - creio que foi uma das raríssimas vezes desde a fundação do Clube em 1935 em que a magnífica e sacrossanta pista de grama foi liberada para passeios a cavalo por visitantes! Apenas, curiosamente, nunca competi eu mesma nas pistas do CHSA.

 

No Clube, tempo e espaço têm significado diferente

do resto de Sampa… 

 

 

Em meados de maio agora tive o prazer de levar a turma dos alunos de gestão em equinocultura para uma visita de campo ao Clube. Saímos de Sorocaba bem cedinho numa manhã de sábado, que já havia começado em alto astral porque, por coincidência, era também meu aniversário. A turma compareceu em peso apesar de ser “ponto facultativo”, e apenas um carro se perdeu no caminho. (Este grupo aprendeu que, em São Paulo, dizer “Hípica” se refere à Sociedade Hípica Paulista, enquanto que Santo Amaro é conhecido por “Clube”.)

 

Alunos da UNISO / UC em visita de campo: olhares atentos!

 

Visitamos as cocheiras, os picadeiros cobertos novo e velho, a vila hípica, a veterinária, a ferradoria, os escritórios da administração… tudo enfim. Mesmo para quem conhece, é sempre uma infra-estrutura impressionante, abrigando quatrocentos cavalos no que há setenta anos foi  uma fazenda, mas hoje é coração de Sampa. Fiquei especialmente contente de ver que já existem piquetes individuais para soltura, tornando a vida dos cavalos estabulados em Santo Amaro um tanto mais divertida do ponto de vista equino. Há quinze ou mesmo dez anos, estes piquetes seriam, talvez, impensáveis.

 

 

 

 Quero aproveitar para alguns agradecimentos:

 

  • à turma de alunos pelo comparecimento, pelo interesse e pelas boas maneiras durante a visita. Vocês são o meu orgulho! J
  • à Diretoria do CHSA e demais tomadores de decisão que possibilitaram a  nossa visita, concordando com a proposta de maneira instantânea e sem nenhum requisito burocrático.
  • ao colega Eduardo, atual Gerente Geral do Clube, que nos dedicou uma manhã inteira em pleno sábado de Campeonato Paulista, ciceroneando o grupo e respondendo a perguntas, sempre paciente e didático.
  • à coordenadoria do curso de gestão, especialmente aos colegas Aluísio e Décio, que encorajam toda iniciativa de “ampliar o horizonte profissional” de nossos futuros gestores.

 

O título do post foi inspirado nesta imagem que um dos rapazes do curso nos enviou. Quem é, de fato,  do cavalo já sabe – sonhar é bom, mas bom mesmo é correr atrás do sonho.

 

 

No balanço geral, desde o bolo de chocolate no café da manhã (cortesia dos alunos…), foi um aniversário divertido e diferente. Enquanto “nossos” jovens profissionais do cavalo continuarem a exercitar tais níveis de entusiasmo, o futuro da equinocultura brasileira está assegurado.

 

Abraços,

 

Claudia

 

P.S.: Algumas semanas depois, a galera novamente brilhou no      concurso de fantasias para cavalos  com que encerramos o semestre letivo. De novo, cheguei a me comover com o grau de aceitação que a proposta teve, e creio que todos sentimos que foi um dos pontos altos do semestre – e juro que os cavalos entraram no espírito da coisa, como as fotos podem atestar. “Hora de brincar, brincar; hora de trabalhar, trabalhar” poderia bem ser o lema desta turma.

 

O grande chefe Alex No Socks, a valente Mona Lisa e sua comitiva…

 

 Zacarias sentindo-se “no centro do palco” em seu

dia de Pequeno Pônei!

 Alguns dos finalistas: gaúchos, índios e tropeiros…

…pois como sabemos, a diferença está nos pequenos detalhes!

 

criado por leschonski    18:05 — Arquivado em: Sem categoria

01 01UTC jun 01UTC PM

URGENTE – CAVALOS DESAPARECIDOS – URGENTE!!!!

 

 

URGENTE – CAVALOS DESAPARECIDOS – URGENTE!!!!

 

Caros amigos,

 

Este post é para pedir sua ajuda para localizarmos dois cavalos que desapareceram da propriedade de nossa amiga Jackie Fonseca, no distrito de Parelheiros (São Paulo – SP), na madrugada entre 28 e 29 de maio, semana passada (de quinta para sexta-feira).

 

Depois de vários dias de busca nas redondezas, agora a Jackie está ampliando o raio de busca. Temos que pensar em venda para frigorífico, comerciantes intermediários, etc. Os cavalos tanto podem estar muito perto como a centenas de quilômetros de distância da origem.

 

O Rusty nasceu e foi criado sob minha responsabilidade, ainda no Centro Hípico Person. Tem 13 anos, é castrado, aprox. 1,56 de altura, e é rosilho. Sendo filho de anglo-árabe com égua mestiça crioula, se caracteriza pela cabeça bonita e corpo muito forte. Crina raspada.

 

 

RUSTY - DESAPARECEU DO SÍTIO EM PARELHEIROS, NOITE DE 28.05.09

 

O Zanon é um BH registrado, castanho de frente aberta irregular, castrado, 13 anos, aprox. 1,65 de altura. É filho de Landritter e tem a “cara típica” desta linhagem. Marca a ferro do BH.

 

 

ZANON - DESAPARECEU DO SÍTIO EM PARELHEIROS, NOITE DE 28.05.09

 

 

Ambos são mansos e amistosos com pessoas.

 

Quem me deu o alarme foi a Susanne Wittmann, grande amiga nossa. A Jackie e sua família (em especial os filhos Pedro, Paulo e Eva) estão entre os membros mais antigos da ABHIR, e são muito queridos de toda a comunidade equestre de nossa região.

 

Estou mencionando tudo isso para vocês verem que tenho envolvimento emocional com estes cavalos e suas pessoas, e também para enfatizar que não se trata de spam nem lenda urbana. Em nome da Susi, da Jackie, das famílias e dos cavalos, solicito que façam o que estiver ao seu alcance para nos ajudar a encontrar estes cavalos ou mandar dicas que nos levem até eles.

 

Tomo a liberdade de enviar aos amigos de outros estados, para que por sua vez possam encaminhar este e-mail à sua lista de contatos. Caso alguém tenha contato com os abatedouros de cavalos, ou os transportadores dos mesmos, e possa transmitir fotos ou descrição dos animais, também agradecemos.

 

Obrigada, Deus lhes pague,


Claudia

 

Claudia: 11 9934 6554

               15 8139 3715

 

Susi: 11 9575 2307

         11 4661 3740

 

Jackie: 11 5978 6182

             11 9994 1569

 

                

 

ZANON                                                                   

RUSTY

 

 

 

 

 

criado por leschonski    12:59 — Arquivado em: Sem categoria

08 08UTC mai 08UTC PM

Diário de Colina - Parte III

 

6a, 11.07.03

 

Manhã – chuva! Não muita, mas o bastante para originar um tantinho de preocupação sobre amanhã, o dia do cross. Por enquanto, estamos formais e arrumadinhos, para a fase de adestramento. Os cavalos, brilhantes, trançados e (mais ou menos) comportados; os cavaleiros, cartola e fraque (ou capacete e casaca), culotes branquinhos e estribando longo – depois de todos estes anos, continua difícil para mim imaginar que são os mesmos que amanhã estarão galopando campo a fora a 550 metros por minuto, espirrando barro e espuma, encarapitados acima das selas de salto.

 

Hoje coube a mim uma posição privilegiada, ser secretária de uma das duas juízas internacionais, cuja presença é mandatória num evento como este, chancelado pela FEI. Escrevendo as notas atribuídas por M. Janine, suíça radicada na Argentina, aos meus amigos e colegas, tenho oportunidade de aprender mais um pouco, e de observar os velhos e novos conhecidos. Sidney continua o mesmo, Álvaro cresceu em tamanho e como cavaleiro, Renato fica nas cabeças com um de seus cavalos e (quase) em último com o outro. E os cavalos, potros promissores bem como os bem madurinhos, mas que estão cheios de gás como sempre.

 

Últimas instruções antes da entrada em pista...

Últimas instruções antes da entrada em pista...

 

O evento é protegido da excessiva formalidade pelas pequenas interrupções que nos trazem de volta à realidade: garotos que passam de bicicleta entre a cerca da pista e a cabine do júri, o catador de papeis surgindo ao nosso lado bem  no meio da reprise, o motorista da ambulância conversando aos gritos com seus amigos.

 

Neste ano de 2003, o CCE   brasileiro acontece em duas frentes principais: São Paulo e Brasília. E por alguma  coincidência,  a maioria das garotas dos níveis mais avançados está em Minas. De qualquer maneira, dos quarenta competidores de hoje, uma única representa o sexo feminino. Ou melhor, entre os cavaleiros, pois entre os cavalos, a denominação “entre as éguas” seria melhor. Especialmente no “uma estrela” , a predominância de éguas é absoluta.

 

Paciência também faz parte do esporte... aqui, a égua Desert Queen, montaria de Guto de Faria, com seu tratador

Paciência também faz parte do esporte... aqui, a égua Desert Queen, montaria de Guto de Faria, com seu tratador

 

Desde a “reinvenção” do CCE brasileiro no fim da década de 80, o adestramento tem sido nosso ponto mais fraco. Hoje está evidente que a nova geração, de cavalos e especialmente de cavaleiros,tem uma base muito mais sólida de equitação de plano e trabalho e adestramento. As juízas distribuem notas boas e aceitáveis com certa prodigalidade, até mais do que seus pares brasileiros. Mas ainda há os cavalos tensos, os cavaleiros distraídos – como no resto do mundo, aliás. Um de nossos amigos sofre especialmente com seu cavalo nervoso, que rodopia, corcoveia, trolopa ao invés de andar a passo. Talvez seja porque a pista de cross esteja logo ali adiante, e o cavalinho parece perguntar o que eles estão fazendo ali, quando a parte divertida está tão perto. Ou talvez seja a barulheira do palco de shows, que está sendo aprontado para o show de uma das duplas sertanejas do primeiro time, bem ao lado da pista de adestramento. Concursos hípicos internacionais da Festa do Cavalo em Colina sempre foram mesmo um show à parte. Admirável também é a atitude de nosso amigo cavaleiro, que mesmo sabendo que aquele pequeno rodeio forçosamente o deixará entre os últimos colocados, termina a apresentação sorrindo, conversando com o cavalo, mantendo as mãos suaves e o assento quieto, e recebe uma ovação unânime dos colegas ao término da apresentação.  A “guerra de egos” que permeia tantas modalidades hípicas também existe no CCE, mas em menor escala. Talvez seja porque a dificuldade e a adrenalina dos percursos de cross uma as pessoas, tal como combatentes de uma batalha. Contra os obstáculos? Creio que principalmente contra as próprias limitações, contra os seus medos mais íntimos.

 

À tarde, nós comissários mais uma vez percorremos o cross, distribuímos os postos de cada auxiliar, escolhemos os pontos ideais para termos uma visão clara dos obstáculos sem atrapalhar os cavaleiros. Esse trabalho de fiscal é comparável com o de piloto de avião – tudo é rotina durante 99% do tempo, mas é preciso ser infalível e absolutamente seguro de si no 1% de ocorrências especiais. Qualquer detalhe poderá ser decisivo para a definição de nossa equipe nos Jogos Panamericanos.

 

././././././.

 

Naqueles tempos, os cavalos ainda eram mais rápidos que as máquinas digitais...

Naqueles tempos, os cavalos ainda eram mais rápidos que as máquinas digitais...

criado por leschonski    23:37 — Arquivado em: Sem categoria

03 03UTC mai 03UTC PM

Diário de Colina 2003 - Parte II

Meus caros,

 

Vejam os problemas que estou tendo com o blog Terra:

 

  • Dentro do blog, não posso formatar tipo de fonte nem tamanho do texto – é por isso que a primeira parte deste Diário de Colina saiu quase ilegível apesar de muitas tentativas; (tenho que fazer em Word, recortar, colar, etc, etc… L

 

  • O tamanho do texto permitido é mínimo, por isso tenho que soltar este post em capítulos;

 

  • Fotos demoram a carregar e não saem do tamanho que quero, e nem sempre as legendas aparecem;

 

  • Depois da atualização do post, a página demora a carregar, dá mensagem de erro, etc, etc… Neste post anterior, “Diário de Colina parte I”, reparem que não é possível enviar comentários…

 

  • Absurdo dos absurdos, este “novo” blog Terra não tem contador de acessos. Pensei que eu não soubesse localizá-lo, mas o SAC me informou que não havia mais contador, mesmo.

 

 

A razão pela qual estou escrevendo tudo isto aqui é porque, claro, escrevi tudo isso num mail ao SAC Terra, ao qual não recebi absolutamente nenhuma resposta. Talvez colocando aqui em público eles se sensibilizem. Neste ponto, apesar de ser fiel assinante Terra há seis anos, estou pensando em migrar para o blogspot ou similar. Não aconselho ninguém que esteja pensando em iniciar seu blog a fazê-lo no Terra. Caros amigos do Terra, se vocês estiverem lendo isto aqui, aconselho-os a fazerem um blog Terra vocês mesmos, e verifiquem seus níveis de irritação e frustração.

 

Na verdade, estou pensando em migrar os Cavalos Entusiasmados para outro lugar, mas por enquanto não tenho tempo para tanto. Por isso, peço aos leitores que tenham mais um pouco de paciência, inclusive quanto à legibilidade.

 

Enquanto isso, encontrem abaixo mais capítulos do Diário de Colina 2003. Provavelmente vou demorar menos a inserir os capítulos seguintes.

Abraços, boa semana a todos,

Claudia

 

………………….

 

 

 

Flanel e Claudia competindo em Colina no ano anterior (2002), com o incentivo de Alusio ao fundo

Flanel e Claudia competindo em Colina no ano anterior (2002), com o incentivo de Aluísio ao fundo

 

5a, 10.07.03

 

Quanto trabalho é investido numa pista de cross-country?  Quantas horas gastas em sua construção, na atenção aos menores detalhes, em todas as revisões, medições e numerações, na correção de todos os erros?

 

Não importa quão breve seja o espetáculo, que há provas e categorias em que apenas três ou seis cavaleiros desbravam os obstáculos construídos com tanta perícia e amor ao detalhe. O course-designer cria saltos novos, reforma os existentes, aproveita a natureza do terreno e os materiais disponíveis. Depois é preciso supervisionar a equipe que constrói os obstáculos, atentando a cada detalhe que represente um problema em potencial – altura irregular, piso perigoso, quinas, pontas, pregos, arames. Cavaleiros são designados para testar os novos obstáculos, verificando se as dimensões são as corretas, se as linhas e curva são saltáveis.

 

Agora, está na hora de embandeirar os obstáculos e medir a extensão final do percurso. De novo, é certo que haverá discussões e argumentos entre os concorrentes, erros do pessoal de manutenção, dúvidas sobre a regularidade e a adequaçao técnica de alguns obstáculos. Com toda a pompa e circunstância, o júri de campo (ground jury) será convidado a percorrer o trajeto, inspecionando “de lupa” e fita métrica cada um dos obstáculos. Enquanto isso, o chefe dos comissários e sua equipe (que somos nós) precisa se virar para distribuir a turma de fiscais ao longo das três pistas que serão disputadas – as provas de uma, duas e três estrelas, com respectivamente 18, 22 e 26 obstáculos. Por enquanto, temos apenas três fiscais confirmados – e este é um trabalho para o qual voluntários são difíceis de conseguir, pois ele se resume a ficar parado num lugar distante do resto do mundo, observando os cavaleiros passando por um ou dois obstáculos (em média um a cada seis ou oito minutos), sem ser possível ver o resto da prova. É um posto solitário, tomando sol e chuva ou o que mais São Pedro mandar, às vezes por quatro ou cinco horas a fio, recebendo um refrigerante quente e um sanduíche frio na hora do almoço.

 

 

Companheiros - a estrada ainda é longa…

 

A prova estadual, que está acontecendo hoje, serve como balão de ensaio para o internacional de sábado. O adestramento é seguido pelo  salto de picadeiro, e depois pelo cross. Nas categorias de base que hoje disputam, os obstáculos são uma versão miniaturizada das “casas” que aguardarão os concorrentes do sábado. Mesmo assim, a própria falta de experiência de alguns concorrentes e de outros tantos cavalos (pois também há a categoria cavalos novos, em que cavaleiros experientes estréiam suas novas montadas) rende momentos de emoção. Refugos na água e desvios em obstáculos técnicos são comuns, alguns cavalos são rápidos demais, muitos um pouco lentos. Os erros de percurso também acontecem, bem como uma única queda.

 

E nós, Aluísio e eu e todos os outros que estávamos montando aqui na Festa do ano passado, seguimos com os sentimentos divididos: que inveja dos cavaleiros! Que alívio por não termos que saltar aquele obstáculo cabeludo! Para mim, só há uma coisa pior que saltar um percurso de cross: não saltar o mesmo percurso de cross.

 

././././././.

 

No CCE do mundo todo, técnica e talismãs andam juntos

No CCE do mundo todo, técnica e talismãs andam juntos

 

 

 

 

 

criado por leschonski    19:35 — Arquivado em: Sem categoria

17 17UTC abr 17UTC PM

DIÁRIO DE COLINA - 2003 - 1a. parte

Meus caros,

Julho ainda está meio longe enquanto escrevo, mas não custa desde já lhes dar um gostinho sobre a famosa e muito amada FESTA DO CAVALO, que a todo mês de julho se realiza naquela pequena cidade do norte do estado de SP. Faz alguns anos que não vou para lá, mas encontrei um texto meu a respeito do nosso trabalho na organização, no CCE de 2003. O texto nunca chegou a ser publicado, por isso resolvi compartilhá-lo com vocês. Curtam!!

Abraços,

Claudia

P.S. O chatíssismo blog Terra está dando trabalho - aliás, esta versão supostamente “com mais recursos” ficou muito pior do que era antes. Imaginem os colegas que usam Blogspot que este aqui nem contador de acessos tem!!! Claro que já reclamei a eles e não adiantou. Enquanto resolvo o que fazer, tive que cortar o post ao meio. O restante segue logo mais.

 

Secretariando em Colina, CCE 2003

Secretariando em Colina, CCE 2003

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4a – 09.07.03

 

Hoje, depois de quase exatamente um ano, voltei à casa da tia Mônica. Havia ficado lá uma única vez, durante três noites, mas bastaram para que ela me recebesse com abraços e beijos efusivos.

 

-          Claudia, que bom que voltou, como vai?? – e logo a observação orgulhosa – Sabe que sua revista é a mais roubada, que menos pára por aqui?

 

Fico feliz em saber que a Horse tem aceitação boa por ali, e também o fato de todos os quartos estarem lotados deixa de ser um problema:

 

-          Tem um pessoal que só vai chegar na sexta, por enquanto você fica no quarto deles – afirma Mônica, enquanto seu marido Chico providencia toalha, uma cadeira, um colchão melhor. – Se faltar lugar, você fica no quarto daquela outra moça, que está sozinha.

 

A pousada de Mônica e Chico não é bem um hotel – é menos e também bem mais que isso. Estamos na semana mais agitada do ano em Colina, cidadezinha de 20 ou 30 mil habitantes no norte paulista, que só registra agito turístico no mês de julho, durante a tradicionalíssima Festa do Cavalo, e em agosto, quando acontece a Festa do Peão na vizinha Barretos. Nestas ocasiões, hotéis, pensões e afins ficam lotados nas duas cidades, e é preciso recorrer aos amigos para conseguir algum lugar para dormir.

 

O bacana desta região é justamente que é tão fácil fazer amigos. Mônica e Chico me tratam como se fóssemos amigos próximos, invado a cozinha para comer bolo e tomar cafezinho, ficamos batendo papo sobre amigos em comum: e o Guega, o Remo, o André está melhor, teve notícias do Cacá?

 

A Festa do Cavalo em Colina tem dinâmica e carisma próprios. Suas provas hípicas são tão disputadas quanto suas festas, cavaleiros olimpicos competem ao lado de alunos de escolinhas, um mesmo cavalo (e seu cavaleiro) pode fazer parte de modalidades tão diversas quanto laço e salto. A pequena cidade ferve no agito das festas e dos bares, mas rapazes e garotas que vararam a noite nos bailes estarão competindo no dia seguinte, compenetrados e pontuais – se bem que muitas vezes usando óculos escuros!

 

Em Colina, os diversos mundos brasileiros do cavalo andam lado a lado...

Em Colina, os diversos mundos brasileiros do cavalo andam lado a lado...

 

Enquanto no ano passado viemos para competir, desta vez Aluísio e eu estamos a pé – e com previsão de gastarmos muita sola de sapato, pois a maior função de um chief stewart (ele) e sua assistente (eu) é estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Numa prova de concurso completo de equitação, o  “chefe dos comissários” distribui fiscais e auxiliares em todos os pontos estratégicos, coordenando a entrada dos cavaleiros em pista e principalmente fiscalizando os obstáculos do cross-country. Como a prova deste ano é classificatória para o Pan-Americano de outubro, nossa responsabilidade  é ainda maior:  a equipe brasileira começará a se delinear ali, todos os trabalhos precisam correr à perfeição.

 

Hoje, quarta-feira, é apenas dia de chegar, acomodar-se, rever velhos amigos, informarmo-nos de cronogramas e horários. Damos um primeiro passeio pela pista de cross, que na categoria máxima ( *** ou três estrelas) terá quase 4 mil metros de extensão e perto de vinte obstáculos, alguns bem calibrosos – tanto em termos de tamanho quanto de dificuldade técnica. A pista de cross de Colina é uma das mais tradicionais do Brasil, e mesmo assim está sempre sendo renovada, obstáculos refeitos e transformados; o percurso de um ano nunca é igual àquele do ano anterior. Desde  as categorias de base até aquelas que definem as equipes brasileiras que representam nosso país nas competições internacionais, cada conjunto pode esperar novidades, obstáculos diferentes que mesmo que testem a habilidade, a técnica e a auto-confiança de cavalo e cavaleiro, são sempre saltáveis, de medidas corretas, muitas vezes inspirados nas grandes provas do esporte que acontecem na Europa, na Oceania e nos Estados Unidos.

 

A noção de “caipirice”, de provincianismo, é um ledo engano. Em qualquer grupo de cavaleiros discutindo animadamente – seja ao redor de um obstáculo ou em torno de uma mesa da miríade de bares e restaurantes que compõem a festa – há pelo menos dois ou três representantes do primeiríssimo time nacional.  As Olimpíadas de Barcelona, Atlanta e Sydney, todos os  Jogos Equestres Mundiais desde seu início em 1990, em Suécia, Holanda, Itália e Espanha, os Pan-Americanos - algum destes rapazes e moças esteve lá, conquistando o direito de usar as cores nacionais em seu equipamento. O que não os impede de serem tratados com total naturalidade pelos seus aluninhos, e muito menos de brincarem entre si como se as crianças fossem eles. Em todo o mundo, é sabido que em nenhuma outra modalidade há tanto companheirismo entre os concorrentes, e também que ninguém tem tanta disposição para festas e brincadeiras de todo tipo, como entre os cavaleiros de CCE. Festejar e brincar é preciso, em face das agruras e das demandas extremas que os aguardam.

 

Guto de Faria na prova 3* - Colina 2003

 

 (fim da 1a. parte)

 

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criado por leschonski    23:31 — Arquivado em: Sem categoria

26 26UTC mar 26UTC AM

Falando sobre cavalos lusitanos

OI turma,

este é um post bem curtinho só para compartilhar com vocês um blog muito interessante que conheci esta semana, o

http://pitamarissa.wordpress.com/

mantido pelo Rodrigo Almeida,  lá de Portugal, titular da Coudelaria Pitamarissa, dedicada aos cavalos lusitanos.

Com todas as raízes históricas e culturais que nos unem à terrinha lusa, não é difícil entender que boa parte da realidade equestre de lá se aplica ao nosso mundo brasileiro do cavalo.

Achei excelente, por exemplo, uma entrevista com o Sr. Bento Castelhano, da qual pincei, meio ao acaso, as seguintes citações:

Recentemente surgiram criadores que não utilizam os seus produtos, e que de uma forma pouco sustentada e distante, multiplicam famílias ou linhas baseados em “cassetes” de propaganda, bem arquitectada, mas vazia de conteúdo funcional.

O mercado exige um criador esclarecido e informado, com lucidez para seleccionar cada vez melhor, tentando produzir para o mercado da utilização, em alternativa à infrutífera tirania da estética.

 Parece-me mais um caso tipicamente português em que discutimos apaixonadamente o estéril e ignoramos o produtivo…

 A Raça carece da definição urgente de objectivos de selecção. A selecção para o cavalo polivalente é um absurdo zootécnico!

Como vêem, os temas não são lusitanos, e sim universais…! No mesmo contexto, não deixem de acessar e ler a igualmente fascinante entrevista do Sr. Francisco Cancella Abreu.

Acessem, divulguem, prestigiem mais esta  fascinante prova de vida inteligente no universo dos cavalos.

Abraços,

Claudia

P.S.: Alunos do gestão em equinocultura que estiverem na escuta - a leitura do blog Pitamarissa é quase que obrigatória, praticamente matéria de prova…!! ;-)

Ndzinji Pontes e Thor Função (PSL) em Grand Prix, CHSA, março 2009.

Ndzinji Pontes e Thor Função (PSL) em Grand Prix, CHSA, março 2009.

criado por leschonski    10:28 — Arquivado em: Sem categoria

13 13UTC mar 13UTC PM

Gestor em equinocultura - sim, esta profissão existe!

Olá amigos,

 

Esta semana, tive a honra de ser a paraninfa  da turma de formandos do curso de Gestão em Equinocultura da UNISO (Universidade de Sorocaba), no qual sou uma dos docentes. Foi uma cerimônia emocionante; os profissionais do cavalo que naquela noite iniciaram uma nova etapa de vida certamente terão muito a contribuir para que cavalos e pessoas do cavalo tenham vidas mais felizes e mais produtivas.

 

Na ocasião, fui convidada a proferir um pequeno discurso, o qual foi recebido com aplausos generosos. Gostaria de compartilhá-lo com vocês, na esperança de que ajude a servir de inspiração para tantos outros amantes do cavalo que dão duro para que sua paixão se torne modo de vida.

 

Para saberem mais sobre a profissão de gestor em equinocultura, consultem o site www.equinocultura.com.br. O site ainda está em construção, mas já tem muitas informações interessantes. Aliás, ele também está a caminho de se tornar ”bolsa de empregos” para profissionais em geral da indústria brasileira do cavalo.

Abraços,

 

Claudia

 

P.S.: Como meus amigos sabem, o “namasté” já vem sendo usado por mim há anos, antes dos fenômenos globais recentes… J

 

"Horizonte" - (c) da imagem: PAULA DA SILVA

 

 

  

 

Queridos formandos,

 

É com muita honra que me dirijo a vocês nesta noite. Talvez seja um alívio para vocês o fato de que esta seja a última vez (quem sabe?) que me dirijo a vocês como professora. Mas podem ficar tranquilos, pois foram-me concedidos apenas cinco minutos.

 

Creio que vocês estão recebendo a oportunidade rara e maravilhosa de conduzirem uma vida plena, realizada e entusiasmada. Ao se tornarem profissionais do cavalo, vocês têm a chance de ganhar a vida fazendo aquilo que mais gostam. Quantas pessoas que vocês conhecem têm semelhante privilégio? Vocês irão acordar de madrugada com o cheiro doce do feno recém-cortado, a luz nascente recortando os obstáculos do picadeiro, as éguas chamando seus potrinhos. Pensarão com um sorrisinho talvez de compaixão, talvez de superioridade, nas pessoas que naquela mesma hora estão presos nos engarrafamentos e nas filas.

 

Procurem nunca esquecer daquilo que os conduziu ao curso de gestão em equinocultura: seu amor pelos cavalos, o amor que, em cada um de vocês, nasceu quando eram crianças. Nunca deixem esta criança apaixonada por cavalos envelhecer e morrer. Não permitam que esta criança se torne mais um adulto medíocre, desmotivado e acachapado pela mesmice da vida diária. Vivam cada dia com os seus cavalos como se ele fosse ao mesmo tempo o primeiro e o último.

 

Por que trabalhar com e para os cavalos é tão importante? Porque os cavalos fazem de nós  pessoas melhores. Apenas aquele que traz à tona o seu melhor, o dia todo, todos os dias, persistirá e sucederá no mundo dos cavalos.

 

Ronald Duncan certa vez escreveu:

 

Onde no mundo o homem pode achar

Nobreza sem orgulho,

Amizade sem inveja,

Ou beleza sem vaidade?

 

Aqui, onde graça é por músculos temperada

E a força, por gentileza confinada.

 

Ele serve sem subserviência,

Ele lutou sem inimizade.

Não há nada mais poderoso,

Nada menos violento;

Nada tão rápido,

Nada mais paciente.

 

O passado do mundo foi carregado em seu dorso.
Nós somos seus herdeiros; ele é nossa herança.

 

O cavalo.

 

 

 ”Ready to work” - bico-de-pena

 

Graças à sua ética pessoal e sua formação profssional, vocês serão líderes, instrutores, conselheiros das pessoas à sua volta. Refletindo em si a pureza, a doação incondicional e a integridade absoluta dos seus cavalos, vocês  despertarão características similares nas pessoas à sua volta. E serão lembrados, e quiçá um dia amados, por isto. Daqui a trinta ou quarenta anos, olhem para os espelhos à sua volta – sua família, sua casa, sua empresa, seus cavalos – e vejam se o mundo se tornou um lugar melhor graças ao seu amor e à sua dedicação. Se assim for, mandem-me um e-mail contando. J

 

O mundo seria um lugar pequeno e triste se o Equus caballus, há milhares de anos, não tivesse se doado a nós. Cuidar dele em retribuição é o mínimo que podemos fazer, e estar com ele encerra sua própria recompensa.

 

Haverá, por certo, momentos de dificuldade e de desânimo. Nestes instantes, experimentem fazer isto: procurem o cavalo mais próximo e olhem para ele como se nunca o tivessem visto antes, com a maravilha e o encantamento dos olhos de uma criança. Lembrem-se que aquela criatura, desde que vocês se conhecem por gente, representa o ápice dos seus sonhos e ambições.

 

Sorriam para este cavalo, admirem a disposição de seus pêlos, a luz de seus olhos, o calor de seus músculos e a firmeza de suas pernas. Vocês fizeram por merecer a companhia dele. Peçam-lhe permissão para que ele compartilhe com vocês sua doçura e sua força, e ele o fará.

Que assim seja, ao longo de suas vidas. Sejam felizes.

Namasté!

 

Entardecer no Haras Água Boa (RN) - Foto (C) by PAULA DA SILVA

 

criado por leschonski    14:48 — Arquivado em: Sem categoria

10 10UTC mar 10UTC PM

NOVOS LIVROS SOBRE CAVALOS

 

Caros amigos,

 

Pois é, fevereiro já vai longe e os compromissos se acumulam, graças a Deus. Há muitas novidades para compartilhar com vocês – o início do campeonato brasileiro de Equitação de Trabalho, onde trabalhei no último fim-de-semana; minhas visitas a Ubatuba (SP) e Cachoeiras de Macacu (RJ), trabalhando com e para amigos cavaleiros (devo ser a única pessoa que consegue passar por Ubatuba e RJ na semana do carnaval, e não ver nada de carnaval nem de praia…); o acompanhamento dos amigos alunos da UNISO, tanto os formandos que procuram emprego quanto os estudantes em busca de estágios; planos de viagens, cursos e livros… e por aí vai.

 

Já devem ter percebido que por estes dias os cavalinhos andaram meio em segundo plano para mim – infelizmente. Todos sendo trabalhados pelos valentes estagiários, mas  por mim acompanhados apenas à meia-distância. Não bastasse tudo isso, Zacarias está meio claudicante desde semana passada – e olha que nem tenho trabalhado ele! Enquanto o Santo Dr. Marco Antônio não chega para examinar (é ele que preserva a funcionalidade dos meus cavalos desde 1996), Zaca está só na base dos passeios a passo. E vai engordandinho…

 

Eu mesma dei uma paradinha nos treinos de corrida a pé (sim, faço isso, embora em muito baixa velocidade e intensidade), mas agora estou retomando. E há tempos planejo o post correlacionando as experiências da corrida a pé com o treinamento e condicionamento de nossos cavalos.

 

Enquanto este novo texto não sai, gostaria de divulgar alguns dos livros escritos pelo meu amigo, o hipólogo Paulo Guilhon. São excelentes iniciativas neste nosso Brasil ainda carente de cultura e erudição equestres, atributos que o  caballero Guilhon tem de sobra. J Leiam e confiram!

 

Abraços, até a próxima,

 

Claudia

 

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O hipólogo Paulo Guilhon, autor do livro “Doma Racional Interativa”, publicou recentemente mais duas obras: “Ndzinji - A Escola Chamada Cavalo” e “Educação Profissional de Cavalariços”.

 

 

Ndzinji - A Escola Chamada Cavalo

SINOPSE

A obra é um romance cavaleiresco fictício de caráter filosófico; uma metáfora da busca do homem pelo encontro consigo mesmo. É também um acervo de conhecimentos relativos ao universo das ciências e artes eqüestres, reunidos ao longo de quarenta anos de vivências com cavalos e entregues num contexto de ficção com sabor de aventura romântica.

O enredo narra a história de um jovem que sofre acidente durante competição esportiva e entra em estado de coma profundo. Nessa condição, o personagem passsa por crises existenciais, e sua consciência pede socorro. Ao fazer esse pedido, é transportado para outro plano dimensional e se vê diante de um Conselho formado por treze membros. Ali ele é convidado a ingressar numa escola onde o instrumento utilizado para transmissão das lições é o universo eqüestre. Os membros do conselho são mestres que, ao longo da obra, orientam o aprendiz.

A relação homem/cavalo é o pano de fundo para a projeção do processo de autoconhecimento vivenciado pelo personagem no decorrer do livro. Nessa relação o cavalo é o espelho utilizado para o aprendiz enxergar a si mesmo. A autotransformação fica sugerida como conseqüência do trabalho interno proposto pela Escola.

 

Educação Profissional de Cavalariços

SINOPSE

“Educação Profissional de Cavalariços” sintetiza a experiência e reflexões do autor sobre o tema. O livro, apesar de suas apenas 56 páginas, contém acervo de considerações colhido em duas décadas de trabalhos realizados no campo da formação e qualificação profissional de mão de obra destinada à equideocultura. A obra descortina aos leitores, realidades vivenciadas ao longo do seu envolvimento com essa atividade e convida criadores e adeptos do cavalo a análises dirigidas para as questões fundamentais que dão respaldo aos processos de criação, manejo e treinamento desses animais.

 

Os livros podem ser solicitados pelo e-mail pguilhoncavalos@yahoo.com.br .

 

Paulo Guilhon executando piaffe com Tobold Função, Puro-sangue Lusitano

 

criado por leschonski    14:16 — Arquivado em: Sem categoria

07 07UTC fev 07UTC PM

VENUS E ZACARIAS: PEQUENOS RETRATOS

 

Hoje gostaria de falar um pouco mais sobre os dois cavalos que na atualidade são meus companheiros mais constantes e importantes em passeios, treinos e competições: Venus e Zacarias. Eles sempre são mencionados por aqui, mas talvez vocês queiram conhecer melhor estes que são “cavalos entusiasmados” por excelência.

 

Venus tem boa família e boa criação (born and bred, como dizem os ingleses), o que se reflete em sua personalidade equilibrada e seu caráter impecável. Ela não apenas gosta de “suas” pessoas, mas faz questão de protegê-las. Ela não tem dúvidas de que seja a égua alfa de seu grupo – grupo que inclui não apenas os cavalos e as pessoas, mas até as vacas e os bezerros do sítio onde ela mora. Certa ocasião, dois cachorrões da vizinhança acuaram um dos bezerros recém-nascidos, que a mãe havia escondido numa touceira de mato. O bezerro tentava fugir e a vaca mugia sem saber o que fazer, e os cães, quem sabe, teriam encurralado e mordido o bichinho até matá-lo. Eis que Venus veio a galope, orelhas para trás, cascos pelos ares e pescoço no chão, e botou os cães para correr. O interessante é que apesar de soltos no mesmo pasto, nossos cavalos e a vacada costumam se ignorar cordialmente uns aos outros. Mas na hora H, Venus ficou do lado de quem precisava de socorro. Ela também é o único dos cavalos que (quase sempre) vem ao nosso encontro no pasto quase com alegria. Sua curiosidade e inteligência e apetite a fazem abrir porteiras, desatar nós de cabresto, soltar os outros cavalos, abrir o curral dos bezerros e invadir a cocheira do Flanel para roubar-lhe a papinha geriátrica. Se está atada no cabresto e entediada, costuma tomar nos dentes e jogar no chão tudo que está ao seu alcance, como uma criança que aperta todos os botões do elevador para ver se algo interessante vai acontecer.

Vênus 2005: estreando no enduro em alto estilo (Riviera Paulista)

 

Zacarias é um cavalo diferente, ao qual quase todos que o conhecem – independente de gostarem dele ou não – atribuem uma personalidade especial. Enquanto a maioria dos cavalos mostra indiferença aparente aos seres humanos – seja por apatia, reserva, medo ou noções da própria superioridade – Zacarias é muito claro em expressar sentimentos e opiniões. Ele ouve minha voz de longe, levanta a cabeça e às vezes vem ao meu encontro, ou até me segue no piquete. Às vezes oferece a cabeça para um abraço, e pressiona a testa contra o meu esterno, ficando imóvel e de olhos fechados. Quando acho que já está bom e tento me desvencilhar, ele continua procurando minha proximidade, como se não quisesse me deixar ir. Aprendeu meio por iniciativa própria a me seguir na pista e sobre pequenos obstáculos, e também a ficar parado no lugar em que se encontra, quando solicitado. (Claro que tudo isso não funciona em 100% das vezes, mas aí também não teria graça…) Ao mesmo tempo, ele é antipático, mesmo perigoso, com pessoas que não conhece ou das quais ele esteja desconfiado: empina, escoiceia e morde, mesmo que a pessoa esteja tranquila. Se for alguém inseguro então, é caso perdido.

 

Venus gosta de mostrar o que sabe fazer, mesmo que não tenha ninguém olhando. Seja o ritmo longo e constante dos galopinhos de enduro, uma pista de cross ou trabalho em duas pistas, ela se doa sem reservas; parece que a expressão “vai e se joga” foi feita para ela, o que não significa que ela desperdice energia. Ela é até mais calma do que a maioria dos cavalos de esporte. Às vezes chego a achar que ela está cansada, mas ela sabe reservar energia para os momentos mais importantes – o monitoramento com o Polar (medidor de frequência cardíaca) confirma isso.

 

Zacarias gosta de saltar. Provavelmente a sensação de “para o alto e avante” deve lhe proporcionar algum prazer supremo. Ele salta sozinho no cabo de guia, trotando solto atrás de mim, comigo largando as rédeas no pescoço e tapando os olhos com ambas as mãos… tudo isso sempre sobre alturas modestas, é claro, se bem que acho que o receio de subir a madeira nestas experiências seja mais meu do que dele. Quando tem um cavaleiro um tanto melhor em cima dele então (ou até eu mesma num dia inspirado), ele começa a saltar até BEM.

 

Zacarias 2005: sem pescoço, sem mecânica, sem musculatura, mas com vontade de sobra…

 

No seu começo de vida adulta, Venus era meio patricinha, achando que algumas regras de relacionamento pessoas & cavalos devessem ser reescritas para ela. (Por que eu tenho que ficar presa aqui? Por que devo me misturar com estes cavalos desconhecidos? Por que tenho me flexionar pra direita, se já sei fazer tão bem pra esquerda?) Creio que ela é um destes cavalos privilegiados que nunca conheceram pessoas que não fossem gentis com cavalos (e que Deus a proteja para que continue assim por todos os seus dias), o que a torna tão protetora e companheira da gente. Na cocheira, fica ofendida se não vou abraçá-la a cada visita, e nos enduros define um círculo em torno de si, cuja guardiã auto-nomeada ela se torna e que estranhos, pessoas ou cavalos, não podem invadir. É por isso que ela tem que usar uma IMENSA fita vermelha na cauda (que nos enduros sinaliza os cavalos coiceiros).

 

Zacarias veio para mim magro, com um pescoço quase inexistente, com aprumos corretos mas uma enorme cicatriz no carpo direito. Além disso, nunca havia aprendido a  galopar na mão esquerda. Fiquei com ele assim mesmo (por um preço pequeno e bem parcelado), pois no salto-teste que armamos na rua, com dois caixotes de tomate e uma ripa, ele quase me jogou da sela, passando a uma altura umas três vezes superior à do obstáculo improvisado. Durante todo este test-ride ele estava bem resfolegante, o que atribuí a nervosismo (dele) e falta de trabalho. Foi apenas depois que ele já estava comigo que me dei conta de que ele era roncador, e que se as hemiplegias de laringe costumam ser classificadas de grau um a cinco (a mais severa), a dele provavelmente era grau sete. A história da cirurgia da hemiplegia é assunto para outro post, e embora a respiração de Zacarias ainda não seja perfeita, ele melhorou o bastante para ser dublê de cavalo de enduro (regularidade, bem entendido… pelo menos até agora J).

Venus 2008: treino de salto com Fernando Bastos

 

O que Zacarias e Venus mais têm em comum, além de gostarem do que fazem, é terem curiosidade pelo mundo à sua volta, e de serem muito mais comunicativos do que a maioria dos cavalos por aí. Observando-os (e também a tantos outros, bem entendido) é que comecei a cristalizar novas idéias sobre a importância do enriquecimento ambiental para cavalos. Tudo isso é bem recente e será abordado em posts futuros. Num dia típico, Zack (que mora na Universidade do Cavalo) é solto no coast-cross pela manhã, junto com alguns companheiros, e passa o resto do tempo observando o ir-e-vir em seu piquetinho particular, próximo às cocheiras. Quando estou por lá, costumo soltá-lo para pastar no cabresto, o que significa que ele fica solto arrastando um cabo de cabresto no qual pisa de vez em quando.  Ele vai explorando diversos tipos de grama, come mangas ou goiabas, e às vezes também é picado por vespas que lhe rivalizam as frutas. Ele vê crianças, tratores, cachorros, cavalos conhecidos e desconhecidos, todos passando bem perto dele. Quando começa a chover, ele acha um telhado para se abrigar. O trabalho dele inclui sessões de guia em pasto meio irregular, exteriores com trechos de trânsito, salto sobre obstáculos improvisados. Brincamos em obstáculos de equitação de trabalho, já taqueei bolinhas de pólo campo afora, e às vezes ajudamos a fechar o gado. Às vezes ele fica irritado e eu também, e nem sempre as coisas correm como gostaríamos, mas o mantra geral é “faz parte”.

 

Zacarias 2007: saltar é divertido…

A vida de Venus, em geral lá no Manege Capela, é bem similar. Ela passa as horas diurnas solta com a tropa, explorando os banhados e o pequeno bosque, e convivendo com as vacas. Quando queremos montar, às vezes os cavalos vêm para nós num instante, às vezes eles nos dão um corridão de meia hora, morro acima e morro abaixo. Às vezes,  os cavalos brigam entre si e até se machucam; a própria Venus por estes dias está com um hematoma na perna, e adora lhe lhe façamos compressas de gelo, sentindo-se muito importante – desde que fiquemos por perto ao invés de deixá-la sozinha durante as aplicações, bem entendido. Que eu saiba, Venus é o único cavalo no estado de São Paulo que em 2008 competiu em provas abertas de enduro, de concurso completo e de salto. Mas ela também adora passear aos domingos nas estradinhas entre Capela, Araçoiaba e Salto, tanto para ver a paisagem quanto para comer paçoquinha na nossa curta, porém quase obrigatória, paradinha no boteco.

 

Em suma, acho que de modo geral Venus, Zacarias e seus companheiros consideram a vida deles bem interessante.  Mantê-la assim é uma de nossas metas permanentes.

 

 

criado por leschonski    20:52 — Arquivado em: Sem categoria

22 22UTC jan 22UTC AM

“Comendo na minha mão…”

 

 Os adeptos mais ortodoxos do horsemanship natural (*) afirmam que jamais se deve dar comida como recompensa para um cavalo, e em especial, que não devemos oferecer estes agrados em nossa mão. Vem aí minha pergunta favorita: sim, mas por que?

 

A resposta que eu costumava dar aos meus alunos é que gramíneas e outras plantas, alimento natural dos cavalos, não precisam de estratégia e ação integrada entre os membros da manada para serem ingeridos. Basta ir até a pastagem, baixar a cabeça e comer: a manada tem função protetora de seus integrantes contra predadores, mas não facilita nem possibilita, por si só, a busca de alimento. Já os caçadores de matilha dependem da colaboração estrita entre si para conseguirem comer, e esta interação pressupõe hierarquia: o líder comanda, os liderados obedecem, todos conseguem capturar a presa. “Obedecer”, para um carnívoro de manada, não é apenas essencial à própria sobrevivência, mas também fonte da alegria da barriga cheia. Por isso os profissionais da cinofilia, por exemplo, trabalham com recompensas à base de queijo e fígado, sem que isso prejudique a relação de dominância entre cão e handler. Por conta do instinto de “caçar em bando”, os cães têm uma necessidade muito mais imperiosa de serem submissos a alguém do que os cavalos: vocês conseguem imaginar um cavalo tomar um pontapé na barriga e voltar todo subserviente àquele que o chutou?

 

Primeiras lições

Primeiras lições

 

 Desde a primeira infância, a vida em manada pauta o comportamento hierárquico que possibilita a futura utilização do cavalo pelo ser humano.

 FOTO: PAULA DA SILVA

 

 Até aí tudo bem, mas por que os gurus do horsemanship ensinam que a eventual recompensa ou agrado em comida deve ser dado no cocho ou num balde, mas não  da mão humana? Qual a razão desta diferença, ou melhor, por que as duas maneiras são percebidas como diferentes entre si pelos cavalos?

 

Estes dias apenas (após uns doze anos pensando no tema, para vocês verem como eu consigo ser lerda…) consegui sintetizar minha resposta numa frase: o cavalo acha que está tomando a comida que era minha, interpretando minha resposta como submissiva. Ou um cavalo dominante permitiria que o dominado lhe tomasse a cenoura da boca?

 

Claro: colocar o agrado num balde ou no chão e ir embora, do ponto de vista equino, significa que não tenho interesse por aquilo e estou passando a vez ao próximo. Tal como nas manadas, onde os superiores detêm para si o privilégio de escolherem as melhores áreas de pastejo, antes de darem lugar aos demais. Procedendo assim, estou permitindo ao meu cavalo que ele coma o que gosta sem abrir mão de minha dominância – bem similar ao que seria feito pelos animais alfa (= líderes) do grupo.

 

E agora, isto significará que Venus, Zaca e os outros não mais receberão petiscos direto de minha mão?

 

Zack no pasto consorciado (grama e trevo) após o trabalho

Zack no pasto consorciado (grama e trevo) após o trabalho

  Nesta foto, é possível ver como as horas de pastejo fortalecem a musculatura cervical e dorso-lombar da maneira desejada para a boa equitação. Vide o post “Cavalos Maleáveis”…

 

Bem… nem tanto né.  :-)  Para mim o agrado com frutas, doces, etc, nunca foi um hábito constante, pois o mais perigoso desta história, na minha opinião, se dá quando o cavalo começa a entender o que deveria ser uma “ocasional surpresa agradável” como “obrigação do ser humano”, tal como a criança mimada que esperneia quando o pai não lhe traz um presentinho a cada noite. Às vezes trago paçocas, maçãs, balas ou outros agrados – mas em geral recompenso meus cavalos  colocando-os para pastar após o trabalho, de preferência num local de grama bem suculenta. Com cavalos de correção, tal como o Flanel nos bons e velhos tempos, chego a soltá-los na pista mesmo, para espojarem e pastarem a graminha das beiradas. Para máxima eficiência, pulo da sela e removo o material no instante seguinte à execução daquele exercício que causava dificuldade e resistência, e que o cavalo começou a me oferecer com mais desenvoltura. A idéia é que ocorra uma associação mental positiva que ao longo de futuras repetições vá estendendo o limite de tolerância do animal. Como dizemos no horsemanship natural, “o cavalo busca conforto”, ou ainda “a recompensa é o alívio imediato da pressão”.

 

Em resumo, eu diria que cavalos de temperamento forte, garanhões, aqueles que gostam de morder, aqueles com problema de dominância (às vezes tudo isto é um único cavalo…) não devem receber alimento ou petiscos da mão, de preferência “nunca”. Para os outros, não há problema na infração ocasional – desde que a dominância humana esteja bem estabelecida na cabeça destes cavalos, e que a oferta não se torne uma rotina obrigatória.  Do mesmo modo que às vezes trago o “agrado na mão”, não me importo de comer alguma fruta ou um doce ao lado de meus cavalos sem compartilhá-los – claro, ficando atenta e agindo como um cavalo dominante faria caso eles insistam em pedir um pedacinho…

 

São detalhes e observações pequenos, que uma vez formulados, parecem tão óbvios que tenho quase vergonha de escrever sobre eles aqui. Mas o fato é que eu nunca tinha lido ou ouvido esta explicação da maneira como está colocada aqui. Fica o convite a vocês, amigos leitores, para criarem suas próprias inferências, chegarem a suas próprias conclusões, neste “laboratório” infinito que é a convivência com nossos cavalos. Claro, enriquecido ainda mais por leituras, conversas com quem entende, troca de idéias. Ainda que não existam, no Brasil, muitas obras escritas ou traduzidas sobre etologia equina, a internet pode ser uma boa fonte, especialmente com um dicionário de inglês do seu lado. J Experimentem também ler textos de outros segmentos e aplicá-los à sua vida com cavalos. Um dos mais interessantes neste contexto é “As Sete Leis do Sucesso Espiritual”, por Deepak Chopra.

 

Ainda na série “pensando como um cavalo”, há outro insight interessante que tive há pouco tempo, sobre o qual quero escrever numa próxima ocasião. Mas já posso deixá-los pensando no assunto: qual a diferença entre se montar um cavalo castrado e uma égua? Durante anos, pensei que não existia diferença significativa, ainda que vários de meus amigos declarassem preferência por um gênero ou outro, porém também sem que soubessem verbalizar a razão para tal. (Geralmente o que diziam era algo do tipo: “a égua é maaaisss… assim, sabe…”)  Mas de um tempo para cá, cheguei a uma conclusão tão interessante quanto simples. Me aguardem…

 

Abraços,


Claudia

  

(*) Horsemanship natural = uma definição em poucas palavras é difícil, mas podemos explicar o processo como “educação e treinamento do cavalo através da comunicação baseada no comportamento natural dos equinos, visando um relacionamento entre pessoa e cavalo com compreensão e confiança mútuos”.

 

Quem, eu me preocupar?

Quem, eu me preocupar?

 

 P.S.:  Aproveitem para ler meu novo PTP (= pequeno texto poético), estrelado pela Venus, no blog da Paula, http://horseandphotos.wordpress.com/.

 

criado por leschonski    9:17 — Arquivado em: Sem categoria
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