Aquele dia começou como qualquer outro. Escrevi um pouco, montei um cavalo, montei outro cavalo, e me alegrei com a força deles, com as asas que me conferem, com a disposição e entusiasmo que comigo compartilham.
Mas ao longo do dia, recebi duas notícias. A primeira veio, de início, por mensagem no celular: “Relâmpago do Retiro morre num acidente de trânsito na Alemanha”. Fiquei aturdida – como assim, Relâmpago? Acidente de trânsito? Um garanhão lusitano maravilhoso, que tive a honra de ver em ação na Olimpíada de 2008, com certeza um dos mais privilegiados e cuidados cavalos vivos no mundo hoje, cercado de sua equipe globalizada e multidisciplinar – residindo na Alemanha, amazona australiana, proprietário brasileiro. Se havia um cavalo no mundo destinado a ter uma vida longa e feliz, encerrada por honrosa aposentadoria lá pelos 30 e tantos anos (face a notória longevidade da raça Lusitana), este era Relâmpago.

Relâmpago do Retiro e Hayley Beresford. FOTO: Ney Messi
Pouco a pouco, fuçando na net, fui sabendo mais detalhes sobre o acidente (reproduzidos e resumidos em box abaixo).
E no fim do dia, uma amiga chamou minha atenção para uma notícia da internet, a de um carroceiro que havia perdido a sua égua de trabalho, atropelada numa rodovia paulista. Dos depoimentos, ficou claro que a égua não era apenas a ferramenta de trabalho para a família, que vive de coleta e reciclagem de materiais, mas também um animal de estimação, especialmente das meninas jovens. A foto do rapaz abraçado à égua agonizante circulou intensamente pelo cyberespaço.
Vejam como estas histórias poderiam ser escritas – assim?
Numa fatalidade, morre na Alemanha Relâmpago do Retiro, montaria olímpica de Hayley e propriedade do Haras Villa do Retiro. O valor do garanhão Lusitano foi recentemente avaliado em dois milhões de Euros.
e….
Uma carroça foi atingida por um carro na região de Serrana. O condutor sofreu ferimentos, a carroça ficou destruída, e a égua que a puxava teve que ser sacrificada. O animal, usado pelo proprietário para buscar lavagem, havia sido comprado por mil e trezentos reais.
Ou assim?
Numa mesma semana, dois cavalos brasileiros sofreram acidentes de trânsito, tendo que ser eutanasiados em razão da gravidade de seus ferimentos. Esta avaliação foi feita por veterinários chamados ao local dos acidentes. Eram os cavalos mais valiosos de seus respectivos proprietários e sua perda foi muitíssimo sentida. Tanto o garanhão Relâmpago quanto a égua Estrela são considerados muito difíceis de substituir.

Sim, um novo cavalo de carroça é mais fácil de encontrar e de treinar do que um cavalo olímpico (e esta, acima de tudo, é a justificativa dos valores monetários tão distintos). Mas o sentimento das pessoas, e o sofrimento dos animais (e me desculpem o bordão)… este, não tem preço. Mesmo porque os cavalos não sabem o que é dinheiro, nem sabem quanto valem no mundo dos homens. Sabem apenas se têm fome e sede, que se esforçam ao máximo para realizar o que deles é esperado. Todos os cavalos sabem distinguir as pessoas que gostam deles das demais, aprendem a desenvolver medo, confiança, sensação de segurança, raiva, amizade ou indiferença.
Em vez de focar nas diferenças entre estas criaturas que morreram vítimas, de um jeito ou de outro, da imprudência humana, sugiro que reflitamos sobre suas semelhanças. O companheirismo entre eles e seus humanos. As lágrimas da família de Serrana e a declaração da amazona olímpica de que este tem sido o pior mês da vida dela – já que há poucas semanas, ela voltou a se tratar de um câncer do qual sofria há anos atrás. A sensação de vazio quando um cavalo que povoava nossa imaginação e simbolizava nossos sonhos desaparece sem deixar vestígio. Como se sentirá a jovem motorista do trailer, e os outros dois motoristas, que num segundo de distração (que poderia acontecer com qualquer um de nós, e certamente já aconteceu comigo) causaram os acidentes. Como às vezes parece que o ser humano se beneficiaria de um pouco mais de humildade.

Hayley e Relâmpago nos Jogos Olímpicos de Hong Kong / Pequim, 2008
Por mais que se queira, não é fácil identificar “culpados” únicos e individuais em cada acidente. Na Alemanha, a amazona isentou de responsabilidade a motorista do trailer, face à experiência da mesma neste trabalho. Ao que consta, numa saída de curva um outro carro, vindo na direção contrária, invadiu a pista oposta, causando o descontrole do trailer. A respeito da égua Estrela, podemos responsabilizar tanto o motorista do carro quanto o carroceiro, que conduzia o veículo mal sinalizado ao entardecer às margens da rodovia.
Mas não importa – mais importante para todos é, exercitar tolerância, paciência e prudência. A vida de pessoas e animais é curta e frágil, e caminhar pelo mundo respeitosamente é mais importante do que bater na tecla do “estou no meu direito”. Uma vida perdida não tem volta. Uma campanha pela generosidade e por um estado de espírito mais pacífico – seja no trânsito, seja nos esportes equestres, seja na vida – para ser eficiente não pode começar nas páginas de uma revista, nem nas leis: tem que começar no coração humano. Também isso nossos cavalos, nossos Trovões e Ventanias, Brisas e Tornados, Relâmpagos e Estrelas, nos ensinam: eles se doam a nós de maneira incondicional, colocando seus corpos, sua beleza e sua força à nossa mercê: à frente de carroças, debaixo de selas, dentro de trailers e caminhões. Fazemos deles nossos escravos, e por isso deveríamos ser seus servos – no sentido de pensar mais no bem-estar deles. Vamos respeitar mais nossos animais, e assim saberemos respeitar, e amar, melhor as pessoas e todo o mundo que nos cerca.

Acidente em Telgte, Alemanha, 28/06/11
(BOX) –
ÉGUA ESTRELA
(Fonte: UOL Notícias)
Um homem demonstrou grande tristeza no interior de São Paulo nesta terça-feira (21/06) ao se despedir de uma égua de 13 anos de idade que precisou ser sacrificada após um acidente ocorrido entre Serrana e Altinópolis, na região de Ribeirão Preto (313 km de São Paulo).
A égua, chamada Estrela, puxava uma carroça conduzida por Sebastião Verola, 58, e seu filho, Cristiano Verola, 28, quando foi atingida por trás por uma Eco Sport na manhã de ontem (21). O animal tombou no chão, com várias fraturas nas patas traseiras, e ali ficou até morrer.
A morte de Estrela foi o fim de uma amizade iniciada quando Cristiano tinha apenas 15 anos. “Estou muito triste, mas não tem outro jeito. É o animal de estimação lá de casa”, afirmou ele, que, minutos antes de Estrela ser sacrificada, colocou a cabeça do animal sobre as pernas e a beijou.
A técnica de zoonoses Márcia Romancini Cavalheiro, 35, afirmou que não havia como manter a égua Estrela viva. “Ela ficou muito ferida. Devia estar sofrendo muito. Uma das patas estava praticamente pendurada à perna só pela pele.”
A égua foi anestesiada e depois sacrificada com uma injeção de cloreto de potássio na veia. “Ela morreu sem sentir nenhuma dor.”
Márcia disse que agora o Centro de Controle de Zoonoses de Serrana vai tentar encontrar um outro animal para a família Verola. “Eles são muito humildes e precisam de outro cavalo para trabalhar e tocar a vida.”
Verola mora em Serrana e, há 20 dias, perdeu a mãe. O pai dele, Sebastião Verola, 58, está internado no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto em decorrência dos ferimentos no acidente. Segundo a assessoria do hospital, não corre risco de morte.
Como foi o acidente
Sebastião conduzia a carroça por volta das 6h30 na estrada Mário Titoto, no sentido Altinópolis-Serrana, quando foi atingido na traseira pelo Eco Sport.
Segundo o motorista do veículo, Flavio Westin, 43, de São Sebastião do Paraíso (MG), foi impossível evitar a batida porque estava escuro, e a carroça não tinha sinalização refletora. Carro e carroça ficaram destruídos com a colisão.
A família
O acidente deixou ferido Sebastião Verola, 58, pai de Cristiano, que perdeu a orelha direita e recebeu vários pontos na cabeça. A égua, embora pertencesse a Cristiano, era usada pelo pai. Sebastião transportava, com a ajuda de Estrela, restos de comida que recolhia na cidade para alimentar os porcos que cria no quintal de casa. Agora, diz, vai ser preciso usar a bicicleta para buscar a lavagem.
“O Cristiano deixava eu usar a égua só duas vezes por semana. Outra condição que ele impunha era não deixar ela se esforçar muito. Quando eu desrespeitava esse acordo, ele brigava comigo”, afirmou o pai no último domingo ao UOL Notícias, com a cabeça ainda enfaixada devido aos ferimentos do acidente.
Estrela era o xodó não só de Cristiano, mas de toda a família, principalmente das três irmãs mais novas, que choraram muito ao saber do sacrifício. “A Estrela era muito mansinha. A gente brincava muito com ela. Está fazendo uma falta muito grande”, disse Juliana, 12. Já Cristiano, segundo os irmãos, dava banhos constantemente em Estrela. A égua foi adquirida pelo faxineiro por R$ 1.400, de forma parcelada.
(BOX)
RELÂMPAGO DO RETIRO
Fonte: ABPSL – Ass.Brasileira de Criadores do Puro-Sangue Lusitano
Na manhã desta terça-feira, 28/06, o hipismo internacional e os amantes do Cavalo Lusitano perderam um grande representante brasileiro da raça nas pistas de Adestramento. O garanhão castanho Relâmpago do Retiro (Luar x Atinada), criação e propriedade do Haras Villa do Retiro, morreu após um terrível acidente com o caminhão que o transportava, na cidade alemã de Soest-Lippetal, base da amazona australiana Hayley Beresford.
Relâmpago foi um dos mais destacados Lusitanos no Adestramento, contribuindo de maneira fundamental para colocar a raça no topo da modalidade em nível internacional. Com Hayley Beresford, o cavalo criado em Boituva (SP) pelo publicitário Eduardo Fischer brilhou no circuito europeu e competiu com elevada categoria nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008.
A Associação Brasileira de Criadores do Cavalo Puro-Sangue Lusitano (ABPSL), na pessoa do presidente, José Francisco Brito Eusébio, lamenta profundamente o ocorrido, desejando força e muita coragem ao criador, associado e grande desenvolvedor da raça, Eduardo Fischer, pela inestimável perda.
“A raça perdeu um de seus maiores ícones neste importante momento de avanço nos esportes. Em nome de toda comunidade do Puro-Sangue Lusitano, externo as mais profundas condolências à equipe do Villa do Retiro pela passagem do animal que foi orgulho da criação brasileira da raça”, disse o presidente da ABPSL.
Fonte: www.eurodressage.com
Hayley Beresford afirma: “Eduardo Fischer perdeu tanto quanto eu. Este cavalo era o bebê dele – ele o criou, desenvolveu e continuava seu proprietário. Eduardo tem sido como um pai para mim. Tem sido o pior mês de minha vida.” A amazona de 33 anos apenas dois dias antes havia recebido o diagnóstico do retorno de um câncer de mama, o segundo retorno após sete anos convivendo com a doença.
“Eu pensei que já estava enfrentando muito, mas agora aprendi que sempre pode haver mais.” Agora a amazona se vê forçada a cancelar diversos compromissos, tais como clínicas de equitação na Austrália. “Está tudo muito complicado no momento. Os médicos querem que eu continue montando; tenho vários cavalos de competição, mas Relâmpago, claro, estava no topo. Acho que terei que dar um passo depois do outro. Vou lutar, o que mais posso fazer.”
FOTO: Ney Messi
Este texto, e muito mais, faz parte do conteúdo da Revista Horse’s Life, edição 11. Conheça e assine: www.revistahorseslife.com.br