Oi turma,
hoje vou postar um texto que alguns de vocês já conhecem, mas achei que valia a reprise pois é um dos meus favoritos de todos (e olha que foram centenas…) de minha autoria que foram publicados na revista Horse.
Beijos, boa semana,
Claudia
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CANTE COM O SEU CAVALO
Claudia Leschonski
Quando estão bem contentes, os cavalos cantam. Não com a voz, ainda que seja possível ouvir seu canto. Eles cantam com as pernas, com a respiração, e principalmente com todo o seu corpo, produzindo uma vibração que, se tivermos sensibilidade e paciência, aprenderemos a perceber, e mesmo a vibrar em sintonia: estaremos cantando junto com o cavalo. Leva um pouco de tempo, mas vale a pena aprender.
Como os cavalos não primam pela inteligência criativa, letras e melodia de suas canções não costumam ser muito originais, nem diversos; são como um tipo de cancioneiro folclórico eqüino, repetido por gerações de cavalos, com as adaptações de cada época. Alguns exemplos de canções que você talvez já tenha ouvido, mesmo que não se desse conta: “A grama é verde, tão verde”; “Sei trotar rápido, rápido sei trotar”; “Adoro alfafa e amo aveia”, entre tantas.
Ainda que as éguas cantem mais que os cavalos machos, e tenham um repertório mais variado, foi a canção de um cavalo castrado a primeira que ouvi; Flanel era um cavalo muito próximo de mim, por isso perceber a canção ficou mais fácil. (Os cavalos não fazem segredo de suas canções, mas nós em geral estamos ocupados ou distraídos demais para ouví-las.) Este cavalo vinha de um passado complicado, andara doente, e após longos meses havíamos conseguido que ele atingisse um bom estado. Foi emocionante a primeira vez em que, ao ser solto no piquete, ao invés de logo começar a pastar, como costumava fazer, ele correu algumas voltas a todo galope. Naquela tarde fui visitá-lo nas cocheiras, onde os animais jantavam sua alfafa, e Flanel parou de comer por alguns instantes, para investigar-me com o focinho. Foi então que me dei da canção que ele cantava, ao mastigar: “Sinto-me bem, sinto-me bem, sinto-me tão bem!” Só isso, mas entendi, e a gratidão dele refluiu para mim como uma onda, que me trouxe lágrimas aos olhos.
Como nós, os cavalos preferem cantar sobre aquilo que mais gostam, e é por isso que as éguas têm um número maior de canções, com as cantigas de potros, tal como “Como é bonitinho meu potrinho” ocupando lugar de destaque. Se lembrarmos que na natureza a vida dos cavalos gira em torno de alimento, movimento, segurança do grupo e procriação, fica evidente que estes são os grandes temas de suas canções.
Alguns dos títulos favoritos dos garanhões não são mencionáveis em público, enquanto outros se referem ao grande ego destes magníficos animais, por exemplo, “Quem manda aqui sou eu”. Já os castrados são mais poéticos, gostando de cantar as belezas da natureza e a força do próprio corpo, mas também se inspirando na hora da refeição!
É um elogio especial ao cavaleiro quando um cavalo canta durante o trabalho montado. Como toda verdadeira música, o canto eqüino não pode ser forçado, mas tem que vir do coração para ser real. Quando ouvimos uma destas canções, é porque o cavalo gosta do que faz – canções tal como “Vamos lá saltar mais e mais”, “Boiada, cheguei!” e “Corro mais do que o vento”.
Não é difícil ouvir as canções dos cavalos, e vai ficando mais fácil depois que você pega prática. Basta escutar – com o corpo tanto quanto com o ouvido de sua alma. Não se trata de “técnica” nem de concentração, apenas de ficar em silêncio, se abrir, entrar em sintonia. Aquela cavalgada de domingo de manhã é excelente – você e seu cavalo trotando estrada afora, o céu azul, a brisa fresca, o piso agradável. Convide o cavalo a um bom ritmo, feche um pouco os olhos, sinta seus corpos vibrando em uníssono, os cascos marcando passo, a respiração no mesmo ritmo – aí está, você ouviu? “Estou trotando, trote-trote, estou trotando, trote-trote…” Não hesite em cantar junto, com ou sem voz, depende da pessoa. Lá pelas tantas, pode ser que seu cavalo mostre que entendeu a harmonia: quando ele esticar um pouco o pescoço, baixando o focinho e soltar o ar vibrando as narinas. Não se envergonhe em imitar o som - é comum que cavalos trabalhando em grupo respirem desta maneira, um após o outro, com várias repetições, como se estivessem dialogando. Se o cavalo lhe responder, vocês estarão começando a cantar em dueto, ou até em coro, se houver mais gente na cavalgada.
Se, ao ler isto, sua reação for do tipo – ah, mas é só isso? Eu já havia percebido isso há muito tempo, só que eu não chamava de cantar – parabéns, você já está bem adiantado em seu caminho de se tornar um cavaleiro de fato. Continue aprimorando sua capacidade, e quem sabe convidando seu cavalo a ampliar o repertório, de modo que a duas vozes vocês cantem mais e melhor. Algumas canções deste tipo são “Minhas pernas são suas pernas” e “Seu peso me faz mais leve”.
Se, ao contrário, toda essa história lhe parecer um tanto descabida, não se preocupe. Talvez um dia seu cavalo o convença do contrário. Apenas, da próxima vez em que você se flagrar cantarolando ou assobiando enquanto monta um cavalo, ouça com o coração – de onde vem a melodia? Ou na hora da bóia, na cocheira, com todos os cavalos mastigando em conjunto, você percebe a onda de contentamento emanando deles, quase uma coisa palpável? E no calor do meio-dia, observe aquela égua parada sobre o seu potrinho, velando-lhe o sono enquanto a cauda espanta as moscas – não lhe vem aos lábios uma velha cantiga de ninar?
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(esta foto: Jack in the Box, garanhão de propriedade de Fabrizio Fasano. Autoria e copyright de Paula da Silva.)