Oi pessoal,
há um tempinho atrás tive oportunidade, por razões profissionais, de conhecer mais de perto a raça Campolina. Minha impressão inicial foi a mesma de todos os neófitos - que grandes! que cabeçorras! que estranhos!. Mas lá pelo terceiro dia, sem querer querendo comecei a olhar para qualquer outro cavalo - mangalargas, árabes, ingleses - e pensava de soslaio "ah, mas os nossos são maiores! Os nossos marcham melhor! Como aqueles ali são pequeninos e delicados, não como os nossos!"
Pela primeira vez eu conseguia entender de fato a reverência especial, exclusiva quase, que o campolinista sente pelos animais da raça que cria. Acredito que seja uma das raças mais exóticas do mundo inteiro - mesmo aqui no Brasil.
O texto que se segue é fruto desta minha temporada campolinista. Ainda ouço a toada, acolchoada na bruma matinal. Claro que há outras montanhas, e outros marchadores, e outros ginetes galanteadores, que se identificarão com partes do texto, se não com o todo. Também para isto serve um blog.

A foto foi tirada por Paula da Silva durante a Expo Eqüi de 2005. Para mais fotos de Campolinas, acessem
www.pauladasilva.com/slide
e lembrem que o livro, "A Alma Campolina", continua à venda em
http://www.blurb.com/bookstore/invited/123559/de41453dde8f60f3dd9e8048e3334970
Abraços,
Claudia
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MONTANHAS DA ALMA
Pelo mundo afora, as montanhas geram um tipo diferente de homem. Deixam-no perseverante, pois sabe que descidas e subidas se alternam. Não fala à toa, preferindo economizar o fôlego para as ingremes jornadas. Se é homem da terra, cultiva com cuidadoso respeito as férteis encostas onde crescem as vinhas ou onde pasta o gado: aqueles morros não convidam a maquinaria agrícola, porém toleram apenas o cultivador que trabalha à maneira de seus ancestrais.
Também os cavalos das montanhas são diferentes dos seus irmãos das planícies. Os potros das encostas se criam galgando cumes e escorregando por barrancos, e se lhes faltam os campos para galopar a toda brida, lhes sobra exercício para desenvolverem músculos rijos, pulmões generosos, pernas de aço. Sua passada busca uma maneira de desenvolver velocidade de maneira segura, pelo menos um dos pés sempre fincado no chão.
Desde sempre, as montanhas têm gerado cavalos de marcha, e também o tipo de homem seu melhor mentor e guardião, aquele que labuta em obstinado silêncio para só mostrar ao mundo os frutos de seu trabalho quando já tem certeza de que o resultado atingiu ou suplantou seus ideais. Foi assim na Sicília e nos Pirineus, nas Montanhas Rochosas e nos sopés do Himalaia: não poderia ser diferente nas montanhas do Brasil Central.
Consideremos mais a geografia natural dos que as fronteiras traçadas por homens, naquele conjunto de promontórios que se destaca quase no centro de nosso país: sul de Minas, serras fluminense e capixaba, quase um espinhaço das serras paulistas ao sul da Bahia. Por relevo e por clima tanto quanto por plantas, animais e homens que ali fazem seu lar, é como se fosse um estado brasileiro de fato se não de direito: o Estado da Serra.
Não por coincidência, este é o berço do Cavalo Campolina e é neste Estado que existem alguns de seus mais importantes criatórios. É um cavalo que mantém os olhos no horizonte, as orelhas em riste, pois sabe que a jornada do dia vai ser longa. É privilegiado por um temperamento que desde jovem não o deixa gastar energia à toa, e por um ritmo inato que desta faria uma estirpe de músicos, se músicos existissem nas linhagens eqüinas.
Ou talvez os haja: ouçamos. A névoa matinal ainda mal foi tocada pelos primeiros raios de luz, siriemas e sabiás saúdam o novo dia. De repente, comandos latidos silenciam o povo miúdo da mata: os cães dos homens, batedores da comitiva, mandando os serelepes aos galhos mais altos e os preás de volta à toca. Vozes humanas poucas, talvez uma palavra de conforto a um potro que se assuta com um galho que quebra, ou uma modinha assoviada. Um e outro relincho, do garanhão que hoje veio conquistar o mundo. Mas o tempo todo, primeiro como harmonia de fundo, depois num crescendo pervasivo, a sinfonia dos cascos enfileirados na vereda da mata.
São cavalos de bronze e de ouro, de longas crinas negras, luzindo sob o sol da manhã. São os mais altos e mais fortes já criados por ali, e têm a tranqüila auto-confiança de quem não precisa esbravatear as próprias qualidades: elas estão ali, à plena vista de quem quiser – o tamanho, a força, as régias proporções, a constância da marcha.
Onde e quando desfilam estes cavaleiros? Ontem, hoje e amanhã. Onde quer que haja cavalos da estirpe de Cassiano Campolina, e os homens e mulheres dedicados a preservá-los e aprimorá-los. Alguns de nós já estamos entre eles, outros ainda estaremos – a partir do momento em que sentirmos o desejo ou a simples curiosidade de galgarmos à sela de um Campolina, sensação de que nunca mais esqueceremos. Mesmo que não moremos na montanha, dali em diante sempre sonharemos com ela.
Algumas pessoas têm orgulho em serem diferentes, e quem sabe este orgulho se transmita aos animais que criam. Têm suas próprias regras, seus próprios padrões de beleza, ideais de vida que não fazem questão alguma em se alinhavarem - ou não – com os ditames da moda. Tendências vêm e vão, as montanhas permanecem: e alguns de nós as temos em nosso íntimo, como habitáculo de nossa alma, mesmo que tenhamos nascido em praia ou descampado. São estas montanhas interiores que norteiam nosso porvir, e talvez – apenas talvez – elas também determinem nossos gostos e nossas paixões, tal como por alguns cavalos mais do que por outros. Quem sabe, pelo Cavalo Campolina.
(Texto de Claudia Sophia Leschonski, outubro de 2005)