CAVALOS ENTUSIASMADOS

Textos, fotos e filosofanças de Claudia e amigos sobre o mundo dos cavalos, e os mundos aos quais o cavalo nos leva.

27 27UTC mai 27UTC PM

CAVALOS ELEMENTAIS

Oi  turma,

voltei do Rio (oi galera Desempenho! oi Martin!) e estou na última semana corrida de aulas. Ainda bem que é a última, pois os textos para "replay" estão acabando. Este foi publicado na Horse Ilimitada ed. 94, e também está entre meus favoritos.

Aguardem novos projetos e idéias para junho!

Abraços,

Claudia

 

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Há cavalos que são como sinos, ressoando e vibrando de energia a cada passo. Há outros – éguas, muitas vezes – que parecem ondas, pulsando num ir e vir obediente a algum antiqüíssimo ciclo lunar.

Alguns cavalos são afilhados dos ares, e seus nomes o demonstram – em quantos Trovões, Tufões, Tornados montamos pela vida afora? E existem aqueles que parecem gerados numa tempestade elétrica, trespassados pela corrente de mil raios, fascinantes como tantas criaturas perigosas.
Há os cavalos que são brasas, fogo em repouso sob uma aparência plácida, pronto a avivar-se ao menor sopro de ar. E muitos apenas existem, nutrindo-se da terra onde pisam, quase como as árvores centenárias sob cujas sombras passam seus dias.

Nos potros, espelham-se as estações em mutação: peludinhos no inverno, crescendo como bambus nas chuvas de primavera, indolentes na adolescência do verão, refulgentes à luz dourada do outono.

Há cavalos suaves como a brisa dos bosques, remetendo-nos em seu dorso a um chão macio de folhas secas, luz entrecortada de galhos, aroma de eucaliptos. Há os que nos lançam num mergulho em água gelada ao fim de um longo dia de um verão quente e seco, e outros que nos fazem soltar o grito primordial dos nômades varando a planície.

Noites estreladas apaixonantes, madrugadas multicoloridas em que tudo renasce, o sol a pino que almeja nos fundir à terra, o horizonte nostálgico dos fins de tarde. Cavalos não precisam de pessoas para serem tudo isso e muito mais – mas generosamente se tornam o ingresso ao universo dos elementos e da natureza daqueles cavaleiros que sabem como, ao mesmo tempo, pedir e permitir que o sejam.

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(Foto de Dani Naschold: Flanel e Lasar. Somando, têm juntos uns 42 anos, mas ainda são os "cavalos de fogo" que sempre foram.)

criado por leschonski    14:25 — Arquivado em: Sem categoria

20 20UTC mai 20UTC PM

MONTANHAS DA ALMA

Oi pessoal,

há um tempinho atrás tive oportunidade, por razões profissionais, de conhecer mais de perto a raça Campolina. Minha impressão inicial foi a mesma de todos os neófitos - que grandes! que cabeçorras! que estranhos!. Mas lá pelo terceiro dia, sem querer querendo comecei a olhar para qualquer outro cavalo - mangalargas, árabes, ingleses - e pensava de soslaio "ah, mas os nossos são maiores! Os nossos marcham melhor! Como aqueles ali são pequeninos e delicados, não como os nossos!"

Pela primeira vez eu conseguia entender de fato a reverência especial, exclusiva quase, que o campolinista sente pelos animais da raça que cria. Acredito que seja uma das raças mais exóticas do mundo inteiro - mesmo aqui no Brasil.

O texto que se segue é fruto desta minha temporada campolinista. Ainda ouço a toada, acolchoada na bruma matinal. Claro que há outras montanhas, e outros marchadores, e outros ginetes galanteadores, que se identificarão com partes do texto, se não com o todo. Também para isto serve um blog. :-)

 

A foto foi tirada por Paula da Silva durante a Expo Eqüi de 2005. Para mais fotos de Campolinas, acessem

www.pauladasilva.com/slide

e lembrem que o livro, "A Alma Campolina", continua à venda em

http://www.blurb.com/bookstore/invited/123559/de41453dde8f60f3dd9e8048e3334970

Abraços,

Claudia

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MONTANHAS DA ALMA

Pelo mundo afora, as montanhas geram um tipo diferente de homem. Deixam-no perseverante, pois sabe que descidas e subidas se alternam. Não fala à toa, preferindo economizar o fôlego para as ingremes jornadas. Se é homem da terra, cultiva com cuidadoso respeito as férteis encostas onde crescem as vinhas ou onde pasta o gado: aqueles morros não convidam a maquinaria agrícola, porém toleram apenas o cultivador que trabalha à maneira de seus ancestrais.

Também os cavalos das montanhas são diferentes dos seus irmãos das planícies. Os potros das encostas se criam galgando cumes e escorregando por barrancos, e se lhes faltam os campos para galopar a toda brida, lhes sobra exercício para desenvolverem músculos rijos, pulmões generosos, pernas de aço. Sua passada busca uma maneira de desenvolver velocidade de maneira segura, pelo menos um dos pés sempre fincado no chão.

Desde sempre, as montanhas têm gerado cavalos de marcha, e também o tipo de homem seu melhor mentor e guardião, aquele que labuta em obstinado silêncio para só mostrar ao mundo os frutos de seu trabalho quando já tem certeza de que o resultado atingiu ou suplantou seus ideais. Foi assim na Sicília e nos Pirineus, nas Montanhas Rochosas e nos sopés do Himalaia: não poderia ser diferente nas montanhas do Brasil Central.

Consideremos mais a geografia natural dos que as fronteiras traçadas por homens, naquele conjunto de promontórios que se destaca quase no centro de nosso país: sul de Minas, serras fluminense e capixaba, quase um espinhaço das serras paulistas ao sul da Bahia. Por relevo e por clima tanto quanto por plantas, animais e homens que ali fazem seu lar, é como se fosse um estado brasileiro de fato se não de direito: o Estado da Serra.

Não por coincidência, este é o berço do Cavalo Campolina e é neste Estado que existem alguns de seus mais importantes criatórios. É um cavalo que mantém os olhos no horizonte, as orelhas em riste, pois sabe que a jornada do dia vai ser longa. É privilegiado por um temperamento que desde jovem não o deixa gastar energia à toa, e por um ritmo inato que desta faria uma estirpe de músicos, se músicos existissem nas linhagens eqüinas.

Ou talvez os haja: ouçamos. A névoa matinal ainda mal foi tocada pelos primeiros raios de luz, siriemas e sabiás saúdam o novo dia. De repente, comandos latidos silenciam o povo miúdo da mata: os cães dos homens, batedores da comitiva, mandando os serelepes aos galhos mais altos e os preás de volta à toca. Vozes humanas poucas, talvez uma palavra de conforto a um potro que se assuta com um galho que quebra, ou uma modinha assoviada. Um e outro relincho, do garanhão que hoje veio conquistar o mundo. Mas o tempo todo, primeiro como harmonia de fundo, depois num crescendo pervasivo, a sinfonia dos cascos enfileirados na vereda da mata.

São cavalos de bronze e de ouro, de longas crinas negras, luzindo sob o sol da manhã. São os mais altos e mais fortes já criados por ali, e têm a tranqüila auto-confiança de quem não precisa esbravatear as próprias qualidades: elas estão ali, à plena vista de quem quiser – o tamanho, a força, as régias proporções, a constância da marcha.

Onde e quando desfilam estes cavaleiros? Ontem, hoje e amanhã. Onde quer que haja cavalos da estirpe de Cassiano Campolina, e os homens e mulheres dedicados a preservá-los e aprimorá-los. Alguns de nós já estamos entre eles, outros ainda estaremos – a partir do momento em que sentirmos o desejo ou a simples curiosidade de galgarmos à sela de um Campolina, sensação de que nunca mais esqueceremos. Mesmo que não moremos na montanha, dali em diante sempre sonharemos com ela.

Algumas pessoas têm orgulho em serem diferentes, e quem sabe este orgulho se transmita aos animais que criam. Têm suas próprias regras, seus próprios padrões de beleza, ideais de vida que não fazem questão alguma em se alinhavarem - ou não – com os ditames da moda. Tendências vêm e vão, as montanhas permanecem: e alguns de nós as temos em nosso íntimo, como habitáculo de nossa alma, mesmo que tenhamos nascido em praia ou descampado. São estas montanhas interiores que norteiam nosso porvir, e talvez – apenas talvez – elas também determinem nossos gostos e nossas paixões, tal como por alguns cavalos mais do que por outros. Quem sabe, pelo Cavalo Campolina.
(Texto de Claudia Sophia Leschonski, outubro de 2005)

criado por leschonski    16:35 — Arquivado em: Sem categoria

13 13UTC mai 13UTC PM

O VALOR DA EXPERIÊNCIA

Oi amigos,

hoje de fato fui cobrada por um leitor - que honra!!! O nosso blog dos cavalos entusiasmados continua com bastante acessos, já tivemos mais de cem este mês, mas ainda podemos melhorar!! Por favor divulgem o blog a seus amigos e conhecidos, aos apaixonados por cavalos em especial!

O texto a seguir foi escrito como editorial da revista Horse, mas nunca foi publicado. Vai como homenagem a todos os nossos velhos e amados cavalos, tal como o meu Flanel, que agora está com 23 anos, e continua ensinando os alunos.

Nas fotos incluídas, ele está com 21 e 10 meses, e já estava aposentado das provas há mais de três anos . Neste dia, acompanhou um treino da "turma nova" só pra matar saudades dos galopes e dos obstáculos…

Beijos, continuem em contato, 

Claudia

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O VALOR DA EXPERIÊNCIA

Quem já teve o privilégio de montar um cavalo experiente, nascido e moldado para a função que desempenha, acaba por dar um novo significado ao termo “autoconfiança”. Para o cavalo competidor confirmado, não há obstáculos assustadores nem ambiente estranho. A égua de enduro com boa “quilometragem” avança, tranqüila e parcimoniosa de seus próprios recursos, por longas trilhas de qualquer clima e topografia. O cavalo de trabalho conhece a rês mais do que ela a si mesma, prevendo o comando do cavaleiro e impedindo a fuga do gado.

Neste patamar, pode parecer impossível que também este animal tão altivo e seguro já tenha sido um potro xucro, uma potranca assustada enxergando tigres em cada curva do caminho, ainda tendo que ser habituados à miríade de novas experiências de seu cotiadano, tudo de que cavalos e cavaleiros experientes nem se dão mais conta: o transporte em caminhões, os ruídos e cheiros dos grandes eventos hípicos, a variedade dos desafios das trilhas, do trabalho, das cavalgadas tanto quanto das competições.

Alguns vendedores oferecem o “potencial” dos seus animais como se o mesmo já fosse uma coisa confirmada, como se bastasse um cavalo nascer dentro de uma linhagem famosa para automaticamente tornar-se um campeão. Nem todo mundo se dá conta de que nada há de automático no surgimento de um bom cavalo de montaria ou de esporte. Pelo contrário, a distância entre o potencial e a realidade confirmada está pavimentada por horas de trabalho de muitos profissionais qualificados – treinadores, veterinários, tratadores, ferreiros, entre tantos – e recheada pelos investimentos feitos na remuneração destes profissionais e em todos os custos de manutenção e treinamento dos animais.

Engana-se o comprador que acha “um absurdo” pagar muito mais por um cavalo confirmado e experiente do que por um animal mais jovem, de fenótipo e genótipo semelhantes porém muito menos experiente. Engana-se também o vendedor que quer ganhar dinheiro rápido à custa destes potros, misturando o conceito daquilo que eles podem vir a ser com aquilo do que eles são de fato, aqui e agora. Profissionais éticos e conhecedores do assunto saberão trilhar o delicado caminho entre os extremos, e agir como intermediários de maneira equânime para ambos os partidos.

O preço de aquisição de um cavalo tem diversos valores agregados. Destes, o menos considerado porém o maior diferencial são as horas de sela e serviço dos profissionais– as horas de sol e chuva, vento, poeira, calor e frio, da repetição infinita de exercícios, de movimentos, dos muitos jogos de ferradura. Da pelagem mil vezes escovada, dos acertos e tentativas, dos sustos, das recompensas e das alegrias bem como das frustrações e das recaídas. E em algum ponto desta vereda, o potro se tornou cavalo, pronto para o que der e vier. O mérito é do potencial, mas também de todos que trabalharam para que este potencial pudesse se tornar realidade.

A experiência não tem preço; um bom cavalo para o serviço ou esporte que almejamos não tem preço, apenas valor.

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criado por leschonski    18:54 — Arquivado em: Sem categoria

09 09UTC mai 09UTC AM

Estamos no BEPA - sobre cavalos, claro!!!

Oi amigos,

há alguns meses, fomos convidados pelo Programa de Vigilância de Zoonoses e Manejo de Eqüídeos do Estado de São Paulo a colaborar no trabalho de melhorar as técnicas de recolhimento e manejo dos cavalos de rua, incluindo desde o treinamento dos funcionários até as condições de vida destes cavalos, durante suas estadas nos núcleos de zoonoses.

"Nòs" aqui somos Cláudia Serra e Cristiano Menandro,  meus colegas pesquisadores da Universidade Federal Rural do RJ e titulares do Projeto Potro, além de mim.

O texto que está no link a seguir está destinado a ser o capítulo inicial de uma publicação-guia, uma espécie de manual, para nortear os procedimentos operacionais dos CCZs, esperamos que ajudando um pouco ao menos a melhorar a vida destes cavalos desvalidos - que afinal também merecem estar entre os "cavalos entusiasmados".

O texto é bem interessante - para todos os cavalos e seus donos, não apenas para a saúde pública. Contém informações gerais sobre a biologia dos cavalos, dados sobre a etologia e comportamento em especial dos potros jovens, e fala também sobre as causas dos diversos vícios de comportamento.

Acessem em

http://www.cve.saude.sp.gov.br/agencia/bepa52_equideos.htm

e deixem seus comentários por aqui!

Obrigada,

Claudia

P.S.: Hoje não tem foto porque estou num computador público, em viagem, porém sem querer deixar meus fiéis leitores por muito tempo sem notícias… :-)

criado por leschonski    11:16 — Arquivado em: Sem categoria

04 04UTC mai 04UTC PM

SÓ MAIS UM DIA

                   São Paulo no horário de pico, avenidas e marginais paradas, e eu pensando no velho slogan de adesivo: “I’d rather be riding” – preferiria estar montando. No rádio, começa a agridoce canção:
                 “Meu amor, o que você faria
                  se só lhe restasse esse dia?”

                 Olhando luzes de retrovisor, pedestres apressados, céu de entardecer numa cidade que nunca dorme, fiquei ponderando as opções oferecidas pelo cantor – passear no shopping center, esperar o telefone tocar? Mas eu já sabia que, confirmado o armagedon iminente, para mim só haveria uma coisa a fazer.
                  Chamar os amigos, encilhar os cavalos, e sair estrada afora num passeio sem pressa. Olhar paisagens conhecidas como se fosse pela primeira vez, descobrir trilhas e atalhos novos sem nos preocuparmos se eles levam ou não a algum lugar. Deixar os cavalos escolherem seu próprio ritmo, um galopinho retranqueado na areia, passo cauteloso em descidas enlameadas, permitindo que belisquem aquele capim à beira do caminho. Desafiarmo-nos uns aos outros para entrar num curso d’água, rir dos respingos e do eventual banho forçado.
                      Lá pelo meio da manhã, fazer rodar o frasquinho conhecido por “estojo 12 anos de primeiros socorros”, apenas um dedal para cada um, só para fazer tipo e esquentar o sangue. Não nos irritarmos com o potro assustado nem com o cavalo fora de forma, prosseguindo neste passeio de maneira descompromissada com as expectativas cotidianas de “trabalhar o cavalo”.
                   Usar o telefone celular para provocar os amigos ocupados e estressados alhures (nos escritórios? No carro? No advogado? Na igreja? O que cada um faria neste último dia?), dizendo coisas do tipo “adivinha onde estamos? Você está fazendo falta, devia ter vindo com a gente”.
Parar nos barzinhos mais improváveis, onde os lanches disponíveis são tubaína e doce de amendoim, ou bolinho de frango com caldo de cana, respondendo perguntas curiosas de crianças e velhos sobre os cavalos, sobre as tralhas que usamos. Admirar éguas e potros, boiadas e lavouras, nas fazendas por onde passamos, cumprimentar carroceiros, ciclistas e velhos tropeiros que passam por nós. 
                     No caminho de casa, relembrar histórias de cavalgadas passadas, de tombos memoráveis e cavalos inesquecíveis, de companheiros que partiram para outros países ou outros mundos, daquele primeiro cavalo da infância que vive eterno em nossos corações, e como quem nunca haverá igual. E ao fim da tarde, uns assam uma carninha que ficará maravilhosa nem que preta por fora e crua por dentro, outros temperam caipirinhas e saladas. O violeiro toca ao vivo ou no CD, os cavalos descansam pastando e espojando-se no piquete ao lado, e, por apenas alguns minutos, o amanhã não importa.

                  Enquanto o trânsito melhorava aos poucos, e a música que tinha desencadeado minha cavalgada imaginária entrava nos últimos acordes, dei-me conta de um detalhe surpreendente: não era preciso que o mundo, de fato, acabasse amanhã para que tudo aquilo pudesse acontecer. Bastava chamar a turma, arrear os cavalos, e ir. Todos os dias não, pois vai que o mundo não acabe, afinal precisamos trabalhar, sustentar a família de gente e bichos, cavalos inclusive. Mas uma vez por mês, simplesmente assim, sem grandes preparativos, sem justificativa salvo o prazer que nos trazem os amigos, gente e cavalos, enquanto ainda nos temos uns aos outros.

                     

         Pois talvez – apenas talvez – amanhã poderia ser tarde demais.

 

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Foto: autoria e copyright de Paula da Silva. Foi tirada em maio de 2006, no Rio do Rastro, SC (sim´, é no Brasil). Para mais imagens da Paula, vejam  em www.pauladasilva.com (Link também aqui do lado). 

criado por leschonski    18:40 — Arquivado em: Sem categoria
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