CAVALOS ENTUSIASMADOS

Textos, fotos e filosofanças de Claudia e amigos sobre o mundo dos cavalos, e os mundos aos quais o cavalo nos leva.

11 11UTC jun 11UTC PM

ALTOS E BAIXOS NO ENDURO DA SERRA - PARTE 04 (Fim)

      Velocidade livre: quais anéis mesmo??
      Ronnan e eu, ajudados apenas por Geraldo, nos preparávamos para a largada na quase-madrugada de domingo. A turma aproveitava o merecido descanso, e havíamos combinado que eles viriam nos apoiar a partir do primeiro intervalo. Por isso, mal reconheci Alexandre, nosso cavaleiro novo, que surgiu todo encapuzado no nevoeiro:
      - Como posso ajudar?
       Daí para frente, Alexandre foi tocando nosso apoio, e ainda bem, pois eu estava operando num nível de eficiência abaixo do mínimo. Para começar, esqueci de que havia ajustado meu relógio, normalmente adiantado cinco minutos, para coincidir com o horário oficial da prova. Por isso, nos aprensentamos na largada achando que eram 6:59 quando eram 7:04… Isso pelo menos resolvia o meu dilema estratégico de como abordar o longa subida inicial em trilha estreita de mata fechada – se disputássemos a frente, Vênus largaria coice em todo mundo, e se ficássemos atrás, Lasar provocaria engavetamentos. Assim iniciamos o primeiro anel, quase 27 quilômetros na maior parte em subidas e descidas. Corríamos a pé e puxando os cavalos em quase todas as descidas longas (o triatleta Ronnan estava cada vez mais entusiasmado com o enduro eqüestre), e aos poucos fomos alcançando os demais cavaleiros. Havia apenas seis concorrentes na categoria adultos, e a fato da trilha ser mais de trote do que galope também favorecia meu cavalo. No primeiro vet-check, o Dr. Cláudio me cantaria a bola: “todos os cavalos estão sentindo a trilha, tem que ir fazendo para chegar”.
      Com tudo isso, foi culpada de esquecer da idéia original de fazer uma prova lenta, ao invés disso permitindo que o Lasar entrasse no ritmo da Vênus, que vinha trotando solta e leve, como quem diz “agora sim estamos conversando!”. Não saberei se Lasar teria deixado calmamente que Vênus se distanciasse dele, e nem o que teria acontecido se eu tivesse competido sozinha, conforme o previsto. O resumo da ópera é que o Lasar fez dois primeiros anéis excelentes, num ritmo bom, sem brigar e jamais precisando ser tocado, mas acabaríamos não largando para o terceiro.
Chegamos bem do primeiro anel, andando a pé e a passo o último quilômetro, e ambos os cavalos ficaram aptos à apresentação em menos de cinco minutos. Desta vez conseguimos largar com uns trinta segundos de atraso apenas, e na correria esqueci de olhar a placa para confirmar a cor do segundo anel. Laranja ou vermelho? Decidi que era laranja, e estávamos correndo a pé numa longa descida de asfalto enquanto eu telefonava com Alexandre, “só por desencargo de consciência”. O fim da descida havia chegado até que Alexandre conseguisse me convencer de que minha decisão estava… errada, e lá se foram os pobres cavalos voltando a trote morro acima. Ainda assim conseguíamos manter um ritmo constante, Vênus tranquila e Lasar quase tão bom quanto em casa, e pela segunda vez naquele dia começamos a ultrapassar os outros grupinhos de cavaleiros. No fim do anel vermelho, de 21 km, aquela mesma subida de asfalto, pela primeira vez naquele dia o Lasar pediu passo, coisa nele raríssima. Apeei na hora e gritei:
      - Vai Ronnan!

Deveríamos inventar um triatlo deste tipo!! – Ronnan e Vênus
Foto Cidinha Franzão

      Imaginei que Ronnan largaria uns dez ou quinze minutos na minha frente, e eu terminaria tranqüila os últimos quinze quilômetros. Em cinco minutos, a FC do Lasar baixou para 52, mas quando o apresentei, a Dra. Martha olhou para mim:
      - Está em 68…
      Esperamos mais alguns minutos, e na reapresentação o padrão se manteve: baixava para 52, voltava a subir até sessenta e tantos. Enquanto isso, o pequeno e valente Lasar estava pastando, bebendo, de olho na Vênus, que a esta altura já estava se preparando para largar novamente. Estava claro que eu tinha um cavalo cansado, mas (ainda) saudável. Sorri pra Doutora Martha e juntas resolvemos deixar de insistir.

      Ronnan partiu para os quinze quilômetros derradeiros, e não demorou muito para que ouvíssimos Vênus chamando seus amigos, uns dez minutos atrás do primeiro colocado, e dez à frente do terceiro, segundo posto logo confirmado após um excelente vet-check final. Agora, era só agüentar Ronnan, Martin e Geraldo perguntando o que seria dos paulistas do Manège Capela se não fosse a existência de mineiros, cariocas e baianos…
      Naquela tarde mesmo, devido a compromissos familiares, Ronnan pegou o ônibus de volta a Lavras, acrescentando na bagagem um troféu e um colete numerado. Passará à história do Manège como o estagiário que correu do primeiro ao último minuto de sua estada com a gente, e talvez siga contando em Minas que os paulistas estão sempre com pressa mesmo.

      Meu prêmio de consolação era admirar a Vênus, que após correr mais de 20 km num dia, e sessenta e tantos no outro, largando atrasada em dois anéis e fazendo uns dois quilômetros a mais no segundo, não parecia ter perdido nem meio quilo de peso e não tinha outras preocupações senão as habituais – comer e ficar na companhia de seus amigos. Vários colegas opinaram:
      - Parece que ela tá pronta pros oitenta…
Possivelmente, mas acho que vou esperar mais um pouco. Neste fim-de-semana, aprendi que experiência, previdência e pontualidade nunca são demais.

      Irritada comigo mesmo só me senti dias depois, quando os resultados foram para o ar, e descobri que se eu tivesse seguido o plano original de “só terminar devagar” com o Lasar… eu estaria na quarta colocação do campeonato! Sem falar na frustração de não ter visto nem enfrentado a famigerada “descida laranja”! Cadão, pode incluí-la de novo ano que vem, por favor?
      Outro detalhe irônico é que nossos dois segundos lugares acabaram não resultando em pontuação de equipe para o Manege Capela. Existindo o limite de quatro cavaleiros por equipe, na controlada eu havia optado por excluir o Martin… e na livre, na correria da inscrição de última hora esquecemos de declarar a equipe pela qual o Ronnan corria.
      No geral, saímos no lucro. Dois troféus, quatro novos adeptos (Alexandre, Rolando e Cornelia se declararam fisgados, e Ronnan pensa em organizar enduros em Lavras), amizades consolidadas e iniciadas, lindas trilhas, e muitas novas experiências para pessoas e cavalos. Acima de tudo, mais uma vez a certeza de que o nosso preparo de cavalos e cavaleiros é correto – mas precisa ser levado a sério. Basta olhar Vênus e Fayad, os mais jovens de toda a tropa (seis e cinco anos), que estão há mais tempo no programa, e também que largaram e chegaram em melhores condições. Sempre haverá o próximo enduro, e estaremos lá, se Deus quiser!

/./././././././.

Fim de jornada… Luiza, Claudia, Ronnan, Cornelia :-)

Foto: Hans Sturm

criado por leschonski    23:15 — Arquivado em: Sem categoria

1 Comentário »

  1. Comentário por Anderson — 12 12UTC jun 12UTC AM @ 11:49

    Claudia… Parabéns pelo seu profissionalismo!!!
    Os cavalos do Brasil devem muito a você…..rs

    Um forte abraço

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