CAVALOS ENTUSIASMADOS

Textos, fotos e filosofanças de Claudia e amigos sobre o mundo dos cavalos, e os mundos aos quais o cavalo nos leva.

18 18UTC jun 18UTC AM

COM OLHOS DE CRIANÇA

Oi turma,

o post de hoje é especial para um amigo que anda meio desanimado com os cavalos, ou melhor, com as dificuldades inerentes ao nosso dia-a-dia-eqüestre. Trocando confissões entre uma água de coco e outra, chegamos à conclusão de que… na verdade conclusão nenhuma, mas sabemos que a vida não teria a metade da graça sem os nossos cavalinhos!
Se servir pra mais algum dos leitores, fico contente!

Beijos, boa semana,
Claudia

…………………………

    O dia difícil fora apenas o ápice de uma semana frustrante. O tratador, excelente até então, havia se mostrado alcoólico em recuperação e sofrido uma recaída. O ferreiro cancelara a vinda pela terceira vez consecutiva, assim inviabilizando a apresentação de uma égua a um comprador em potencial. O feno havia subido de preço pela segunda vez no mês, não que isso fosse muito importante, pois não existia para pronta entrega em parte alguma. Ambos os problemas se deviam à chuva, que também fizera que metade das aulas da semana - e portanto das entradas do caixa - fossem canceladas. E ontem, meu cavalo mancara após uma recepção infeliz, saltando na pista irregular (que estava irregular porque o trator havia quebrado). Nossa participação na prova daqui a dez dias parecia incerta na melhor das hipóteses.

      À noite, eu me perguntava pela enésima vez: por que, para que tudo isso? Seis ou sete dias por semana, bater-me com empregados pouco confiáveis, fornecedores recalcitrantes, clima caprichoso, cavalos ingratos, saúde financeira precária… era nestes momentos que os atrativos de um emprego convencional, oito horas cinco dias por semana, ambiente climatizado e contra-cheque no final do mês, pareciam crescer sedutoramente.

      Mesmo assim, o dia seguinte amanheceu com a luz gloriosa e o ar inebriante de início de primavera, e o sol me encontrou na pista, onde um grupo de cavaleiros já começara o treinamento. Neste momento, uma pequena voz sussurrou em meu ouvido: “Feche os olhos”. Nossa, há quanto tempo não ouvira essa voz - dez, quinze anos? Mesmo assim, obedeci, e me concentrei nas palavras seguintes da vozinha - “Você agora tem dez anos de idade. O que você sente? Quais são seus sonhos, seus desejos? O que você mais ama no mundo?” Depois de segundos, voltei a abrir os olhos, justamente quando o grupo de quatro cavaleiros passava à minha frente, recortados contra a luz matinal. Vibrante, a voz prosseguiu: “Olha só estes cavalos, com que decisão e equilíbrio tocam o chão, como são amplas suas passadas, e como olham para a frente, sequiosos por avançar! Olha os cavaleiros, que firmes na sela, a fácil naturalidade com que se unem a seus animais! Há algo melhor e mais belo no mundo? Qualquer outro lugar onde você deseje estar? Algum outro mister a que você queira - e possa - se dedicar de todo o coração?” 

      Sim, eu sabia. De repente, o aroma ficara mais forte - da manhã fresca, do capim, dos cavalos suados, e a cena tão corriqueira e familiar me trouxe lágrimas aos olhos. Eu estava ali, realizara o sonho de minha infância, os cavalos eram parte de minha vida. E de tanto perseguir a meta, quase esquecera que a recompensa era esta mesma: estar ali.
A pequena voz ficava mais tênue, mas ainda a escutei claramente enquanto dizia: “Lembre-se - permaneça fiel a si mesma.”

      A voz interior, sendo minha mesma e não de alguma fada-madrinha, não conseguiu fazer com que os problemas cotidianos de nossa - e de outras - hípicas se resolvessem magicamente. Mas ela os reduziu à sua devida proporção - ridiculamente pequenos, frente à beleza e alegria da vida diária com o cavalo, minha grande paixão. E quiçá a sua também, amigo leitor.

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criado por leschonski    8:22 — Arquivado em: Sem categoria

2 Comentários »

  1. Comentário por tiago holtz guerreiro — 25 25UTC jun 25UTC AM @ 9:22

    Muito legal Claudia!
    adorei ler esse post!
    bejaoooo

  2. Comentário por Alexandre Archanjo — 30 30UTC jun 30UTC PM @ 21:13

    As dificuldades, na verdade, fazem com que as conquistam tenham mais graça. Os caminhos que a gente escolhe tem seus altos e baixos, mas são o que fazem a gente ser o que é e vão determinar o que a gente será. Cada um é feliz do jeito que sabe. Nós, com os cavalos…
    Abraços.

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