Oi amigos,
confiram abaixo mais uma parte das minhas aventuras e desventuras durante uma clínica de CCE da qual participei na Alemanha, em junho de 2005…
Abraços, boa semana,
Claudia
———-

Aquecimento com Flash, enquanto Hanno está de olho no aluno seguinte…
Meu cavalo. Um capítulo à parte. Flash, um westfalen alazão, com uns 1,75 m de altura. Não tive tempo (ou paciência?) de olhar-lhe a boca, mas deve ter entre 10 e 14 anos. Grande, forte, bem proporcionado, cabeça bonita. Na listagem dos cavalos do pavilhão 4, onde estamos, constam as particularidades de cada animal, tais como “colocar a sela bem para frente” ou “usar protetor de barrigueira”. Para Flash, está escrito “não permitir que coma couro”. Na cocheira dele, no quadrinho reservado para a genealogia do cavalo, vem o alerta em letras garrafais: “MANTENHA A PORTA SEMPRE FECHADA, TAMBÉM ESTANDO DENTRO. O CAVALO FOGE.” Olho em volta – mas não, só Flash tem a auspiciosa mensagem.
É um cavalo de escola com vinte anos de praia, por assim dizer. No corredor, ele empaca e me olha com desdém. Na área de escovação, fica me empurrando ou me arrastando em busca do feno próximo. Quando vou levantar os cascos de trás para limpeza, ele finge dar um coice. Quando tento escová-lo amarrado, para ter mais controle, ele fica quieto por uns minutos, depois estira sem razão aparente, mas de maneira estranhamente controlada, meio me olhando, como avaliando a minha reação. Quando solto da parede o cabo de cabresto, ele continua tão quieto como antes. No encilhamento, as reações dele se limitam a tentar me morder e a levantar a cabeça para escapar da cabeçada. Depois, ele empaca no caminho do pavilhão até a pista. Nisso tudo há mais premeditação do que maldade em si (medo com certeza não é!) como se ele quisesse me classificar em seu sistema particular de separar o joio do trigo, vale dizer, os aluninhos de escola das pessoas mais experientes. Ele também tem um caso avançado de podridão em todos os quatro sulcos de ranilha, coisa comum em cavalos de escola por aqui: a lei de limpeza de cascos existe, mas é apenas superficialmente fiscalizada e executada. Além disso, o piso é geralmente úmido.
Fora estes detalhes, as condições de vida dos cavalos, mesmo sendo de escola, são excelentes. Nem sei porque Flash é tão mal-humorado. Não apenas cabeçadas, porém selas individuais por cavalo, Flash tem até duas, uma de salto e uma de adestramento. Pilhas imensas de feno, complementadas pela palha da cama. Todas as cocheiras do estabelecimento, sem exceção, têm solários individuais, que nesta época ficam abertos permanentemente, permitindo aos cavalos entrar e sair da cocheira a seu bel-prazer. É verdade que não tem muito espaço, mas é o dobro do que seria antigamente. Sempre conseguem tomar sol e ficar em companhia uns dos outros. É bem fácil de observar que as cocheiras ainda foram construídas no sistema tradicional, e a adaptação dos piquetes-solário individuais é recente, bem em consoância com os princípios de manejo correto e ético tão divulgados nesta cultura eqüestre, e que chegam a ser exigência do consumidor. Além disso, é claro que esta escola precisa funcionar como modelo, neste estado da federação alemã que tem o maior número de cavalos, de cavaleiros e de competições.

Cocheiras com solário, um tipo de instalação que na Alemanha está em vias de se tornar obrigatório, como forma de aumentar o bem-estar dos cavalos.
Uma vez na pista, Flash está bem mais animado do que eu esperava, especialmente após os conselhos recebidos, de montá-lo com chicote e espora. Aproveito o aquecimento a passo, enquanto o instrutor não vem, para me apersentar a meus quatro colegas. Karin trabalha no escritório da Federação e conseguiu uma semi-dispensa para participar da clínica, estando porém comprometida a tocar normalmente seus trabalhos administrativos; ela também monta um cavalo de escola. Barbara trouxe sua potra de cinco anos, ainda bem crua. Phillip é um garoto de uns 17 anos, que tem um cavalinho leve, estilo meio inglês, enquanto o rapaz tem pinta de cavaleirinho de salto. Mike é um amador de trinta e tantos anos, que trouxe um belo castanho escuro. No geral, estou contente pelo fato do grupo não cair nos dois extremos que eu estava temendo – nem adolescentes apenas nem uma turma de cavaleiros profissionais ou semi, afiadíssimos.
Enquanto isso, Flash se assusta, ou finge que, com todos os banners ainda colocados nas cercas, por causa das provas do fim-de-semana. O contato de frente dele é até bom, mas estranha minha mão alta. E claro, o comentário do Hanno não tarda. Aliás, passo logo toda a lista de observações e correçoes que ele fez a meu respeito, ao longo da aula.
- Mãos altas demais, rédeas tendendo a longas
- Movimento e uso excessivo das mãos
- Falta de ação da perna interna / perna interna muito para trás
- Posição em lordose – coluna muito arquada para frente
- Saindo demais na sela durante a posição de equilíbrio
- Falta de tranquilidade (no geral)
Alguns destes são meus vícios e problemas de sempre; outros, resultantes da minha mudança recente de estilo (mãos altas), iniciada pelo Riccilucca e confirmada pelo Duto. Aqui, eles dão muitíssimo valor à distensão do cavalo longo e baixo, e de alguma maneira ainda não captei quando acontece a transição para aquilo que o Riccilucca chama de “média escola”. Talvez precisasse ficar mais tempo por aqui.
Hanno resolve que as esporas da Cornelia são demasiado afiadas, e me deixa sem as mesmas. O entusiasmo de Flash diminui um pouco, a não ser quando nos aproximamos dos temíveis banners publicitários. Logo, no trabalho de galope, que Hanno quer ver em posição de equilíbrio porém solicitando frente longa e baixa (ou seja, rédea longa), Flash resolve dar uma disparadinha, que consigo controlar sem chamar a atenção do professor (espero). O cavalão tem a manha de entortar a cabeça para o lado, desgovernar a frente e encolher o círculo, e logo o Hanno começa a berrar que está faltando perna de dentro.
No salto, os pontos críticos são tanto meus velhos conhecidos quanto novos:
- Me jogando da sela / subindo demais
- Falta de retidão na abordagem
- Falta de uso da perna externa saindo da curva, e que logo em seguida vira a nova perna interna, para indicar a mão de recepção do salto
- Seguindo pouco a boca do cavalo no salto / na recepção.
No lado positivo, estou sempre olhando para a frente e para cima, nunca para baixo, e consigo (ou tento) incorporar logo as alterações que Hanno pede. O ritmo do Flash sobre o círculo com cavaletes – o mesmo exercício que no Brasil usamos com freqüência - é constante, e erramos poucas distâncias, ainda que (claro) por uma ou duas vezes Hanno comente que estou segurando demais. Encerramos com uma linhazinha, cinco normais, um quique, cinco mais curtos. Tudo isso a 0,50 ou 0,60 , bem entendido, acho que a armação de percurso cheia de coisas a 1,10 só foi pra nos impressionar, mesmo. Pelo menos no dia de hoje. O salto final é diretamente “para dentro”, opticamente falando, de um banner, vermelho!, da Caixa Econômica local. Flash vira uma minhoca nestes últimos lances, mas consigo controlá-lo. Karin, que divide a aula comigo, não tem tanta sorte com seu cavalo mais novo, e precisa repetir a linha mais vezes.

Barbara, Mike e Philip recebendo instruções de Hanno.
No geral, fiz as pazes com Flash ao fim da aula, achando que poderia ter sido muito pior. De fato, o pior me espera na figura do banho.
././././././.
(Continuem blogados para saber como foi o banho do Flash…)