CAVALOS ENTUSIASMADOS

Textos, fotos e filosofanças de Claudia e amigos sobre o mundo dos cavalos, e os mundos aos quais o cavalo nos leva.

01 01UTC jul 01UTC PM

A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR…

 

Qual a pergunta que faço  há dez anos em cursos, rodas de conversa e em debates via internet, e cujas três respostas mais freqüentes são:

a) “não tenho idéia”

b) silêncio…

c) “um saco de cenouras”

???

Já vou  avisando que a resposta dela costuma ser difícil, e às vezes é desconfortável.

Qual é a misteriosa pergunta? Simplesmente:

“O que você representa para o seu cavalo?”

A origem desta pergunta é o seu complemento, formulado com mais freqüência e, por causar alegria, para a maioria das pessoas é bem mais fácil de responder: 

“O que o seu cavalo representa para você?”

A peculiariedade inerente aos animais da espécie Equus caballus é que eles são  um arquétipo para a maioria das pessoas, ou seja, um

personagem que se assume como modelo mítico do imaginário de um povo, que está acima de um modelo real.

(A definição não é minha, mas veio do “Glossário de Teatro a partir de André G. Bourassa”, em http://profs.ccems.pt/drama/glossariobourassa.htm.  O conceito de arquétipo é bem mais amplo e complexo, mas teríamos que entrar na psicologia junguiana, entre outros, e creio que este não é o local nem o momento, nem tenho eu competência para tanto. Para nossa reflexão imediata, a definição acima já ajuda bastante.)

Os cavalos, claro, não sabem disso e nem têm como saber, e não há problema nisso. O problema é que muitas pessoas tampouco sabem, e vêem no seu cavalo-criatura um cavalo-símbolo, ou seja, elas projetam num inocente herbívoro de planície, que queria mesmo é estar andando e pastando na companhia de outros cavalos, seus sonhos, ambições, ansiedades, medos, e por aí vai.

É por isso que quando perguntadas sobre o significado que seus cavalos têm para elas, as respostas da maioria das pessoas gravitam em torno de termos como “liberdade, movimento, natureza, vida, paixão, confiança, competição, prazer, amizade, velocidade, poder, desafio”… E se o receptáculo de tantos ideais for uma pobre criatura confinada numa baia de concreto 24 horas por dia, seis dias por semana?

Ao mesmo tempo, praticamente todo mundo que tem cavalos gosta de cavalos, e o reverso da pergunta pode causar desconforto na própria consciência. Afinal, sabemos o que os nossos cavalos gostariam de estar fazendo se tivessem escolha, do mesmo modo que sabemos o tamanho do abismo que separa a nossa habilidade como cavaleiros do cavaleiro que gostaríamos de ser.

Fico me perguntando quantos cavaleiros modernos convivem com esta dicotomia fundamental: amar cavalos e por isso se perguntar até que ponto vão nossos direitos sobre eles – e ao mesmo tempo não querer abrir mão do prazer de sua companhia, de sua beleza, força e velocidade.

Talvez por isto a primeira pergunta seja tão difícil de responder, ou tantas pessoas, literalmente, “se disfarcem de cenouras”, numa tentativa de aplacar a própria consciência suja: Submeto meu cavalo a xyz, mas em compensação trago comida para ele. Será exagero equivaler esta atitude àquela de tantos pais que procuram compensar com presentes e mimos o tempo e dedicação que não podem dar aos filhos?

Será que um saco de cenouras é o apogeu do que posso significar para o meu cavalo?

Então, a pergunta realmente importante é:

“O que eu gostaria de ser para o meu cavalo?”

Isto para mim significa “como o meu cavalo me vê”. Mas tenho percebido que alguns entendem a resposta como sendo “aquilo que eles proporcionariam a seus cavalos, se dependesse só da vontade / intenção de cada um”. (Por exemplo: “Gostaria de dar a ele uma cocheira ampla, soltura em piquete junto com outros cavalos todos os dias, segurança, proteção contra doenças…”)

Mas na verdade o que estou perguntando é:

“Como eu gostaria de ser percebido pelo meu cavalo?”

Refiro-me em especial ao “trabalho do conjunto”, ao treinamento, seja montado, seja de chão, na guia, etc, ou seja, “Que tipo de cavaleiro eu gostaria de ser para o meu cavalo?”

Alguns de vocês talvez prefiram inserir  “horseman” em vez de cavaleiro, já que aquele é um termo mais completo, abrangendo todos os momentos em que nos relacionamos diretamente com nosso cavalo.

Em futuros posts vamos falar mais disso, pois aqui está a essência do conceito dos “cavalos entusiasmados”. Por enquanto, sugiro-lhes que façam o exercício das três perguntas:

- o que meu cavalo é para mim?
- o que eu sou para o meu cavalo?
- como eu gostaria de ser percebido pelo meu cavalo?

Uma sugestão para lidar com dificuldades nesta última: comecem pensando naquilo que vocês não querem que o cavalo ache de vocês de jeito nenhum.

Lembrem-se de que o cavalo é um espelho. Um espelho não adula. Há dias em que é preciso ter coragem para se olhar no espelho.

Abraços,

Claudia

P.S.: Sim, eu tenho uma resposta pessoal para a terceira pergunta. De certa maneira, ela é a razão de ser deste blog, e oportunamente será inserida aqui.

 

 

P.S.: Por diversas razões, dei uma pequena modificada no skin do blog, ou seja, na aparência. Seus comentários a respeito são bemvindos! :-)

criado por leschonski    14:45 — Arquivado em: Sem categoria

3 Comentários »

  1. Comentário por Alexandre — 02 02UTC jul 02UTC AM @ 11:25

    Claúdia , gosto muito dos seus textos, já li quase todos os seus posts no site da Desempenho, please don´t stop!!!

    A respeito do blog, está legal, mais da outra maneira parecia mais vivo.

    Um gande abraço

  2. Comentário por Claudia — 02 02UTC jul 02UTC PM @ 21:53

    ‘Oi Alexandre -
    a outra maneira a que você se refere é a aparência, digo o skin (layout, cores) do blog?
    Eu também gosto do outro, mas estou lançando um blog para a Vetnil, e “verde” é a cor oficial deles. Achei melhor deixar este diferente. A Terra não tem muitas opções de personalização dos blogs.

    Enfim, se houver muita reclamação, eu repenso. Enquanto isso, fico contente que você esteja gostando dos textos.

    Claudia

    p.S: Quantos são os posts na Desempenho? Acho que mais de mil, com certeza…
    P.S2: Com qual Alexandre tenho o prazer de falar, Archanjo? :-D

  3. Comentário por Emerson — 04 04UTC jul 04UTC PM @ 13:15

    - o que meu cavalo é para mim?
    O reflexo daquilo que penso e sou, a tradução dos meus sentimentos, um amigo … um grande amigo!

    - o que eu sou para o meu cavalo?
    Talvez ele pensa ¨Esse cara precisa me conhecer mais … vamos, me desafie! …¨

    - como eu gostaria de ser percebido pelo meu cavalo?
    Alguém acessivel e que pode ser útil de alguma forma!

    Beijos, Claudia e Flanel!

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