CAVALOS ENTUSIASMADOS

Textos, fotos e filosofanças de Claudia e amigos sobre o mundo dos cavalos, e os mundos aos quais o cavalo nos leva.

24 24UTC jul 24UTC PM

CAVALO WESTFALEN X HORSEMANSHIP TUPINIQUIM


Na terceira parte do diário da clínica de CCE da qual participei na Alemanha em junho de 2005, saibam como decorreram minhas iniciativas de ensinar boas maneiras a Flash, o cavalo a mim designado…

Por causa do calor, Hanno recomenda que eu dê uma ducha de corpo inteiro no cavalo. Quando volto com Flash da pista para o pavilhão de cocheiras, todos os quatro corredores pululam de criancinhas da escola de equitação, não consigo encontrar nenhum cabresto. Colocar o cavalo na baia passando entre crianças e cavalos, tirar o material e colocá-lo num canto onde Flash não consiga roê-lo, depois tirar as caneleiras sem ser mordida nem atropelada, por causa da refeição de feno que aguarda o cavalo impaciente; remover o material da baia sem esquecer o aviso na porta de “cavalo fugitivo”; tudo isso já são movimentos que precisam ser estrategicamente planejados. Acho um cabresto abandonado na entrada do andador mecânico e roubo um cabo de um outro cavalo que acabou de ser montado por uma inocente criança da escolinha. Tirar o pobre Flash do feno para o banho são quarenta metros plenos de empacamentos e de criancinhas; a presença destas impede a correção drástica daqueles, como eu gostaria de fazer.

Peço licença a uma senhora que está preparando seu cavalo para passar por ela e colocar Flash na ducha. Ele se recusa; eu puxo; ele puxa. Ele ganha. A senhora oferece ajuda, eu aceito, o cavalo entra na ducha e eu o faço virar para colocá-lo entre as duas argolas, olhando para o corredor, como é praxe por aqui. Assim que o viro, Flash sai da ducha sem ligar a mínima para a minha presença. Ele se recusa a entrar de novo. A senhora me ajuda novamente, e passo o cabo do cabresto pela argola dos fundos da ducha, sem amarrar, pois o cavalo ameaça estirar. Começo a dar o banho de corpo inteiro, logo me entusiasmo e aumento a pressão da água. Flash estira, me arranca o cabo da mão e escapa para o corredor. Depois de me ajudar novamente, a senhora me oferece seu chicote, de modo que com uma mão seguro o cabo do cabresto e levanto o chicote, com a outra dou banho com a mangueira de pressão reduzida. (Enquanto isso, o cavalo da senhora, um alazão bonito e gordo, fica placidamente parado ali na frente da ducha, sem se mexer, nem usar cabresto. A mim só resta sorrir amarelo, elogiá-lo e dizer que o meu, em casa, também é assim. Ela comenta que deu muuuuito trabalho até o cavalo dela chegar àquele ponto.)

Barbara e sua potra durante a aula de cross


Terminada a ducha, o cavalo me arrasta para fora do cubículo e quer tomar o rumo da cocheira. Quando tento controlá-lo, ele me empurra, de verdade, para dentro da parede, avançando calmamente de frente, como um desses elefantes indianos que trabalham puxando madeira. O tempo todo, não esqueça, criancinhas olhando, de modo que de tudo que ele merece, só ganha o cabo do cabresto na cara. A muito custo, consigo deixá-lo de cara para uma parede, e a expressão dele me diz que ele sabe estar “de castigo”. Não vejo nenhum rodinho, e o cavalo está pingando. Depois de alguns minutos, o movimento baixa e consigo pedir a outra moça, munida de chicote de guia, que me ajude a colocá-lo na ducha mais uma vez. É uma ação temerária, pois Flash parece que vai explodir a qualquer instante. Ele entra, ele sai, ele vai pra cocheira pingando mesmo. Chega de Flash por hoje. O adestramento amanhã vai ser uma delícia. Sem esporas.

Após tomar um litro de água e estimar em trinta por cento a chance de ter adquirido uma queimadura de sol, com filtro e tudo, vou assistir um pouco a aula da segunda turma. Dificuldades semelhantes às nossas, os cavalos trabalham bem no “longo e baixo”, mas o pessoal não tem muita noção de distância, deixando os cavalos correrem no final ou mesmo tocando-os para dentro. É engraçado que em clínicas com alunos de nível comparável, no Brasil, sou melhor que a média no adestramento e mediana pra menos no salto. Aqui, pelo menos por enquanto, parece se delinear o contrário.

Flash e eu num (raro) momento de dinâmica harmonia!!

Ainda segunda 20.06
Fim de tarde

“Stalldienst”, stable duty, para todos às 17.30. Para nós alunos temporários, isto significa varrer. Já faz tempo que um vassourão parecia tão parte de mim quanto minhas mãos e meus braços (e muito mais que as rédeas), e creio que terei ganho bolhas e calos até o fim da semana. Com luvas e tudo, Flash também contribuiu seu quinhão para tanto. Depois das 18 hs, dou uma enroladinha, começo a tirar fotos, lá pelas tantas agachando-me no corredor externo ao picadeiro coberto, para pegar um melhor ângulo da “máquina de condução do sistema Achenbach”, essencial para a formação de condutores de atrelagem esportiva. Infelizmente, me levanto justo quando um cavalo de um aluno passa ali do lado, e nem preciso me virar para ver – o barulho descreveu a passarinhada e o tombo. Por sorte é um senhor, não uma menininha. Mas esta talvez não teria caído. Fico tão sem graça, que além de “putz, acho que a culpa foi minha” nem sei o que dizer. Não que ele se digne a me responder, ou a olhar para mim. O status dele como iniciante fica confirmado pela montada enérgica que ele tenta dar, querendo se alçar à sela que prontamente termina de virar. Como ainda quero terminar de fotografar a máquina de condução, e nem quero dar a impressão de estar fugindo, fico enrolando por ali durante os longos minutos que o cavalheiro leva para soltar a barrigueira, ajustar a sela, montar novamente.

Depois, são 18.25, e descubro consternada que a cantina para alunos e aprendizes fica aberta para jantar até 18.30. Não tomei banho, estou morrendo de calor, e de qualquer modo o dia começa a escurecer por volta das 22.30. Jantar!?? Mas se paguei pensão integral, o negócio é encarar. Almôndegas excelentes, pãezinhos semi-novos e três tipos de salada de que não gosto, variantes de “maionese”: de macarrão, de batata e de ovos. Verdura que é bom, nadinha. A solução é comer uma almôndega e contrabandear outra, num pãozinho envolto em guardanapos, para o quarto para consumo posterior.

O longo fim de tarde que me aguarda parece algo deprimente, mas é um dos beneficios adicionais de estar aqui. Sem carro, sem celular, sem amigos por perto. Nem descobri ainda se, nestes tempos modernos, ainda existem orelhões nas proximidades. Há quanto tempo eu não ficava assim, eu e minha máquina de escrever sem nada mais para fazer nem outro compromisso senão botar os escritos e as leituras em dia? Pois é, há tanto tempo que ainda era uma máquina de escrever. Deus abencoe meu laptop e dê a ele tanto uma longa vida quanto um sucessor digno.

A cidadezinha está perto, esqueci de comprar sabonete, também nada me impediria de tomar um trem ou um ônibus e ir passear alhures, nas longas noites do verão local. Mas hoje preferi ficar aqui, dar início a este texto. E se nos dias seguintes também for assim, e eu conseguir produzir um texto contínuo, tanto melhor. Por enquanto, só o silêncio, o sol se pondo lentamente, passarinhos ao longe, à frente da minha janela, sem saber que os observo, pedestres com cachorros, casais ciclistas de meia-idade, a garotada do cavalo andando de bicicleta com botas e chicotes longos na mão. Ainda agorinha, duas aprendizes retornando de um exterior, os cascos dos cavalos quase em uníssono nos paralelepípedos, já identifiquei ambas de vista: uma de cabelo vermelho sempre coberto por um lenço, a outra, de boné, trabalha muitíssimo. Deve ter montado uns seis ou oito cavalos hoje – na hora do almoço, entre aulas que ela mesma ministrava, agora no fim da tarde. E ela também estava varrendo com a gente.

Meus aposentos em Langenfeld. Na tela do computador de então, a versão original do mesmo texto aqui reproduzido…

Pois é, eis-me aqui, o clássico escritor no exílio. Não fossem as mãos vermelhas (vassoura) e os ombros vermelhos (sol), até eu acreditaria. Mas talvez daqui a pouco eu vá procurar um telefone público.

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criado por leschonski    13:26 — Arquivado em: Sem categoria
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