31 31UTC ago 31UTC PM
HONG KONG EM TEMPOS OLÍMPICOS: PEQUENOS RETRATOS
Olá amigos,
As semanas desde a volta de Hong Kong foram tomadas pelos preparativos que culminaram na boa participação do Manège Capela no enduro de Pirassununga. Quando eu tiver em mãos algumas fotos boas, conto mais sobre como foi. Enquanto isso, falemos um pouco mais sobre os jogos olímpicos eqüestres de Hong Kong.

Penfold Park: O Jockey Club de Sha Tin, cujas instalações foram ampliadas para receber a tropa olímpica.
Claro que agora a informação pública de tudo que aconteceu lá, em termos de esporte eqüestre, já está bem divulgada. Quero falar sobre os bastidores, tanto eqüestres quanto gerais.
Salvo uma e outra ida ao centro comercial de Sha Tin (o distrito do território onde estávamos), não tivemos tempo para passeios, excluindo é claro as idas e voltas a Beas River, região onde ficava o clube de campo onde aconteceu o cross do CCE. (Região que aliás se parece lá com os lados do Clube de Campo de SP, Represa de Guarapiranga, por aí – periferia com um monte de ferros-velhos desembocando em condomínios de classe média alta construídos “em meio à natureza”. Vegetação semelhante, até as valetonas na beira das rodovias com capim crescendo dentro.

Instalações permanentes (não-olímpicas) do clube de campo de Beas River. Estão enxergando o cavalo no segundo andar??
Por isso, não tenho conseguido responder muito bem à pergunta inevitável dos amigos, “como é a China”? Tenho no máximo pequenos instantâneos dela, quase todos derivados de meu contato com os chineses. Voluntários olímpicos em sua maioria, de várias classes sociais, desde o pessoal dos serviços gerais até aqueles graduados no Canadá ou na Inglaterra. Todos acabam correspondendo a um sorriso e boas maneiras, nem que possa demorar um pouco a princípio. Aprendi duas palavrinhas fundamentais de cantonês, chow san (bom dia) e to-tzie (obrigado), e fui aprimorando a arte de fazer kow-tow (reverência ou mesura). Claro que o refinamento me escapava, mas minha boa vontade ficava evidente. No shopping (entupido de gente), na escada rolante (transbordando de gente), esbarrei numa moça, que olhou para cima aterrorizada (bárbara loira de olhos azuis e 1,80 usando um uniforme olímpico). Tentei me desculpar fazendo uma pequena mesura, à qual ela retrucou quase baixando o tronco na horizontal. Aprendi também que a forma mais cortês é acompanhar a mesura levando-se as duas mãos juntas ao peito, o punho fechado dentro da outra mão aberta - aquilo que vemos nos filmes como uma saudação militar, mas que segundo meus amigos cantoneses é polidez utilizável em qualquer situação. Causava respeito instantâneo quando usada, mas tinha que sê-lo com parcimônia para não virar lugar-comum.

Flagrante do cross olímpico: um obstáculo construído para esta única competição, uma pedra de plástico posta ali para tampar um ponto de irrigação do gramado (o local era e após o CCE voltou a ser um campo de golfe, vide o "areião" ao fundo), uma operária no traje utilizado em geral para trabalhos braçais ao ar livre.
Falou-se muito também sobre os hábitos chineses, tanto culinários quanto higiênicos, a famosa história de cuspir no chão, etc. Minha mais viva experiência de quanto o pessoal deve ter sido treinado para causar a melhor impressão possível nos visitantes no quesito “higiene alimentar” foi o episódio do frango um pouco fora do prato. Estava eu na fila do bandejão, tendo escolhido um prato com meio franguinho grelhado, e já colocava as mãos na bandeja quando a coordenadora do grupo passou a maior bronca no atendente, apontando para a ponta do osso da coxa, que ultrapassava em uns 2 cm a beira do prato. Eu sorri e tentei explicar que não tinha problema; o atendente (enluvado e de máscara) tomou do pegador de salada para ajeitar o frango; a chefa deu mais bronca e mandou o prato completo (o frango, as verduras, o arroz indefectível) para o lixo, pediu-me muitas desculpas, e montou um novo prato. Fiquei meio boquiaberta, mas entendi que a mensagem era “higiene absoluta na manipulação de alimentos”.
Falemos um pouco de cavalos. Para os cavalos olímpicos em geral, nossos e demais (com a possível exceção daqueles pertencentes aos sheikes árabes??), a maior novidade talvez tenha sido a vida com ar condicionado, tanto nas baias quanto no picadeiro coberto. O que mais impressionou a mim (e me causou invejinha…) foi a qualidade do piso das arenas, macio e elástico sem afundar, quase como se fosse espuma sintética densa, e drenando por aparente magia. No dia do tufão (que não houve, apenas uma série de pés de vento entremeados por chuvas torrenciais, porém breves), a pista que deveria estar encharcada secava (tipo, pegar a areia na mão e tê-la se esfarelando) em questão de meia hora. Imaginem um cavalo galopando a seu lado, aliás, dúzias de cavalos durante os treinos coletivos, com o único ruído importante sendo a música clássica ao fundo. Fiquei mal acostumada também com o piso de borracha onipresente – baias, duchas, corredores, paredes inclusive. Silêncio, tranqüilidade, conforto, para nós e para os cavalos. 
Treino coletivo noturno, iluminado tanto pela tocha quanto pelo melhor sistema de holofotes (creio eu) de todos os tempos. Esta era visão da janela de meu alojamento, onde esta foto foi tirada.
De resto, um pouco de tietagem, que ninguém é de ferro. Tiramos uma foto com Mark Todd e puxei conversa com John Whitaker, perguntando se ele viria ao Brasil este ano. Dei bom dia para Mary King, troquei pins com Clayton Fredericks. Sorri para Paul Schockemöhle, supreendi Martin Plewa ao chamá-lo pelo nome, e tive o prazer de ser reconhecida pelo Dr. Leo Jeffcott, doze anos (!!!) depois de ter conversado com ele pela última vez.

Escudeiro com a nossa gerente de pavilhão, uma das mais carrancudas jovens chinesas que conheci. Mas lá pelo fim de nossa estada, ela nos contou que era amazona de CCE, tendo com seu cavalo importado da Nova Zelândia sido o primeiro conjunto em pista no evento-teste de 2007, e que em 2009 ela estaria indo para a Inglaterra, para treinar para representar HK nos jogos de 2012.
Abraços, até a próxima,
Claudia
P.S.: Reforçando o texto de hoje, poderia dizer que um fator importantíssimo para mantermos o entusiasmo de nossos cavalos atletas, e que em geral é sub-considerado em terras brasileiras, é a qualidade do piso. O que causa problemas em cavalos não é excesso de trabalho, porém trabalho em piso ruim (em geral duro demais, às vezes irregular demais, às vezes fundo/fofo demais). Tendemos a aceitar o “piso que aí está”, sem nos preocuparmos em melhorá-lo. Nem falo em condicionar a participação numa prova à qualidade do piso do mesmo (“vou dar forfait, o piso está ruim demais, não quero arriscar a saúde do cavalo”), como já vi cavaleiros de outros países fazerem em outras ocasiões. Pensem nisso.
criado por leschonski
21:56 — Arquivado em: 






