CAVALOS ENTUSIASMADOS

Textos, fotos e filosofanças de Claudia e amigos sobre o mundo dos cavalos, e os mundos aos quais o cavalo nos leva.

20 20UTC ago 20UTC AM

Nosso CCE em Hong Kong - primeiras impressões

Queridos amigos leitores,

Após quase três semanas fora do ar (ou melhor, a meio mundo de distância), volto à minha rotina brasileira de trabalho: cavalos a montar, aulas a dar, textos a escrever.

A experiência de participar durante duas semanas dos Jogos da China, na sub-sede de Hong Kong (Jockey Club de Sha Tin), onde aconteceram / estão acontecendo as três modalidades eqüestres, foi muito rica e dará assunto para muito causo e relato aqui no blog. Por um lado muitos de vocês devem estar curiosos, já que eu tinha prometido que tentaria mandar um diário “ao vivo” de Hong Kong, coisa que fui impossibilitada de fazer pelo estatuto que rege todos os integrantes das delegações olímpicas brasileiras. Por outro lado, a cobertura na mídia (especialmente TV e internet) foi bastante boa, e lá de Hong Kong fiquei supresa em ler e-mails de muitos amigos que afirmaram ter acompanhado o adestramento do CCE pela televisão. Isto me deixa numa posição confortável de poder relatar a vocês acontecimentos e impressões dos bastidores.

Para resultados oficiais e textos, há diversos bons sites, tais como:

Resultados em geral:
http://www.fei.org/OLYMPICS/RESULTS/2008RESULTS/Pages/default.aspx

Link para resultados individuais CCE:
http://www.equestrian2008.org/pdf/result/result_main_g6_no1.pdf

Equipes:
http://www.equestrian2008.org/pdf/result/result_main_g5_no1.pdf

Comentários sobre o cross:
http://www.thehorse.com/ViewArticle.aspx?ID=12493&nID=7&src=RA

Também existem blogs de chefes de equipe e atletas, a maioria em inglês. (Aprendi que da próxima vez vou pedir com antecedência para ser a blogueira oficial da equipe brasileira de CCE!) Um bastante interessante é o site oficial da equipe inglesa, escrito por Will Connell (chefe de equipe), em http://www.equestrianteamgbr.co.uk/news-detail.php?id=157.

Ingird Klimke / Abraxxas, da equipe alemã, durante o cross olímpico.

Hoje, para voltar a engrenar o blog, vou lhes mostrar algumas fotos interessantes e começar pelo final, aquilo que todo mundo quer saber e pergunta - mas afinal, como é a China? Como foi a experiência? E como foi, de verdade, o nosso CCE?

Da China não vi muito, pois trabalhamos o tempo todo sem folga, e no final seguimos direto ao aeroporto. Vi Hong Kong principalmente através dos olhos das pessoas nativas que conheci, que me impressionaram pela dedicação, disposição para o trabalho e também cordialidade e curiosidade em relação a nós. Não me importo muito com os clichês de antigamente – bárbaros ocidentais vs. oriente misterioso. Acho que neste século XXI, todo mundo está evoluindo o bastante para se dar conta que há mais coisas nos unindo do que nos separando. Claro, estar numa Olimpíada cercado de cavalos ajuda. Para deixar os locais felizes, fossem visitantes ou funcionários, era só convidá-los a chegar mais perto, ou até posar junto com o cavalo, quando eles timidamente tentavam tirar fotos uns dos outros parados alguns metros á frente dos cavalos olímpicos.

A foto que todo mundo tirou: Juliana, Laura e eu.

O clima foi quente e úmido como se esperava, imaginem uma mistura de Rio de Janeiro com Manaus. Aliás, quando chegamos do aeroporto e seguimos de bus shuttle para o Jockey de Sha Tin, minha primeira impressão foi esta – “cara, demos a volta ao mundo e voltamos ao RJ!!”  Mar batendo em montanhas cobertas por vegetação tropical, e muitos, muitos prédios espremidos entre ambos. Pontes, viadutos e ruelas estreitas. Ar quente e úmido, às vezes uma brisa para aliviar.

A instalação dos cavalos olímpicos:  tudo que se leu e ouviu por aí e mais. Todas as cocheiras com ar condicionado, todos os pisos e paredes emborrachados. Cada pavilhão com seu redondel particular, bem como “cocheira com chão de areia e paredes circulares”, específica para os cavalos rolarem (espojarem) após o trabalho. Máquinas de gelo em cada pavilhão, produzindo cubos sem parar, inteiramente grátis, o sonho de todo endurista!!! De fato, ao fim do dia as máquinas estavam vazias, pois a demanda era gigante. Picadeiro coberto com ar condicionado, só vendo o choque térmico pra crer! Mas era um alívio para cavalos e nós.

Belíssima a pista de grama que circundava a pista principal do Jockey, e na qual levávamos os cavalos para passear e pastar. Escudeiro do Rincão, meu protegido, afetuosamente apelidado de Gordo, elegeu este como o seu local favorito da Olimpíada inteira. Ele é o tipo de indivíduo que, quando entrevistado sobre toda esta história olímpica, provavelmente diria algo como:
- Escudeiro, verdade que você foi à Olimpíada?
- Ah, fui…
- E como foi por lá?
- Olha, a comida era boa…

O temperamento calmo e equilibrado de Escudeiro, mérito também de seu cavaleiro, Jefferson Sgnaolin (que o preparou desde potro de dois anos de idade) com certeza contribuiu muito para que ele concluísse a Olimpíada como um dos dois cavalos mais jovens de todo o CCE (nascido em 1999), na melhor nota brasileira de adestramento (55, merecia mais na opinião de observadores ingleses, australianos e outros que vieram falar com a gente, encantados pelas extensões de trote e mudanças quase-perfeitas), zero nos obstáculos do cross e uma falta boba no salto numa prova de resto brilhante. Escudeiro na verdade está sendo preparado para Londres 2012, e não tenho dúvidas de que ele tem muito a crescer em seu futuro “profissional”.

Escudeiro e Sgnao ambientando-se no picadeiro principal, alguns dias antes do início das competições.

Sim, encantei-me tanto pelo Escudeiro que nem me importava com o fato dele ser tordilho. Começávamos o dia com um rápido banho de remoção de manchas, facilitado pela ducha com água de temperatura regulável (exatamente como um chuveiro de gente), e dali para frente a água era um contínuo em nossas vidas – gelo nas pernas, duchas, chuva.

Ainda há muita coisa pra contar, mas por hoje vou resumir dizendo que nunca uma equipe de CCE brasileiro foi tão forte tecnicamente, independente dos resultados comparativos às outras equipes. Tivemos três zeros (sem penalidades de salto) no cross, um percurso com uma falta e outro com zero no salto, onde uns 60% do total dos concorrentes foram pior do que isso, e tivemos um cavaleiro disputando a final individual. Melhor ainda, muita gente (australianos, alemães, americanos, a turma do Rodrigo Pessoa, etc), veio comentar de nossos cavalos e nossos cavaleiros (qualidade e técnica), e ficou bem evidente que assim que melhorarmos ainda mais no adestramento, e isto for reconhecido pela comunidade internacional de juízes (= menos preconceito), passaremos a ser uma força considerável. Vale reforçar que nesta olimpíada nosso cross e nosso salto foram melhores que os das nações intermediárias, e equiparáveis àqueles dos favoritos.

De resto, só vou passar algum tempo sem comer arroz. Comida esquisita não tinha muito não, pelo menos onde estávamos comendo, onde eles se preocuparam em dar um ar ocidental às refeições. O mais estranho foi mingau de cogumelo com bolinho de nabo no café da manhã. (Escolhi esta opção depois de enjoar das outras três que comia em rodízio - a) panquecas com Karo, b) bacon, ovo e feijões (!!! Pior que nabo com cogumelos), e c) sucrilhos com banana.

A turma do refeitório e eu: quem é mesmo quem tem os olhos puxadinhos???

É isso. Duas semanas de trampo, risadas, muita emoção e momentos inesquecíveis. Nada se compara a ver “seu” cavalo e “seu” cavaleiro chegando inteiros de um cross quatro estrelas. A não ser talvez estar montando no dito cujo, mas acho que nesta encarnação não mais tenho ambições para tanto.

A Olimpíada ocupará este blog ao longo de várias mensagens, então não fiquem tristes, ainda tem muita coisa pra contar! Aguardo seus comentários!

Abraços,

Claudia

criado por leschonski    9:47 — Arquivado em: Sem categoria
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