Era uma manhã normal do tempo em que, uma vez por semana, eu saía de Itapetininga para trabalhar em São Paulo. Era o ano de 2004, pois meu carro era o Ka branco, novinho, e eu estava indo dar aula no centro hípico do Cláudio, em Itapecerica.
Ainda antes de São Roque, bem anterior ao ponto onde são comuns os retardos nas manhãs da Castello, o trânsito começou a engarrafar, melhor, a ficar lento. Centenas de carros seguíamos a quarenta por hora, tentando entender o que se passava: as faixas da direita andavam mais rápido, como se houvésse um acidente interrompendo a esquerda, mas aquilo continuou por quilômetros, sem melhora nem piora.
Lá pelas tantas, a faixa da direita acelerava mais, os carros e caminhões faziam fila para ultrapassar, e comecei a enxergar uma van da Viaoeste, um funcionário meio pendurado fora da janela, sinalizando aos motoristas que ultrapassassem rápido, rápido. Ultrapassei, mas devagar, e em um segundo registrei e compreendi a cena, naqueles vislumbres de clareza que às vezes temos. Ainda vejo a cor alazã do pêlo do potro, clarinho mas escurecido pelo suor, com pequenos cortes e esfolados nas pernas.
Pois era um potrinho alazão, de uns cinco meses talvez, galopando na reta interminável, ritmado porém perto da exaustão: olhos arregalados, narinas dilatadas, flancos e peitos escurecidos. Os casquinhos dele firmes no galope, buscando a saída, a manada, a mãe, que tinham que estar em algum lugar. À frente dele, quilômetros vazios de asfalto: os carros que ultrapassavam desapareciam rápidos. Atrás, três pistas mais os acostamentos, e a van o empurrando para frente, não o deixando parar. Os homens da Viaoeste estavam perplexos, e é verdade que sozinhos ali, com um único veículo, não tinham muito o que fazer – separar o potrinho dos veículos era preferível a provocar um acidente. Vai ver que esperavam que ele parasse, desviasse para o largo trecho de grama do canteiro central… ninguém lhes ensinara, pelo jeito, que um cavalo em modo de fuga pode correr até morrer.
Preciso confessar que minha genética européia, aliada aos meus primeiros anos de vida passados disciplinada por governantas, jardins-de-infância e professoras primárias germânicos, costuma ser forte: não devemos transgredir leis e regulamentos. A autoridade deve ser obedecida. Mas olhei o potrinho, sinalizei aos homens da van, e fui tocando para o acostamento à direita, acelerando até parar alguns metros à frente da van, do potro, do fluxo de tráfego. Mas havia calculado errado: lento demais, perto demais, e nem havia descido do carro para já ser ultrapassada pelos outros veículos. Tentei de novo, vim pelo acostamento em maior velocidade e por um trecho maior, até parar bem à frente dos outros.
Há esses momentos definidores, em que não pensamos, apenas agimos, aqueles que no cinema às vezes passam em câmera lenta. Acho que este recurso foi criado pois reproduz o modo de funcionamento do nosso cérebro nestes instantes; como quando caímos do cavalo, e a queda parece levar um minuto. Desci do carro e entrei na pista, todos aqueles carros vindo para cima, e levantei as mãos pedindo que diminuíssem, esperassem, nos dessem uma chance. Fui andando até entrar na trajetória do potrinho, e torci para que o pessoal da Viaoeste entendesse. Abri os braços como se quisesse abraçar o mundo – não apenas um potrinho – e respirei pausadamente, colocando no arredondado dos meus ombros, na calma de meus olhos, no sussuro de minha voz, toda a proteção de uma manada imaginária. Eu teria apenas uma chance.
A exaustão do potrinho ajudou. Ele me viu, começou a trotar, não parecia ter medo de mim, pelo contrário, talvez eu lhe parecesse a única coisa familiar naquele caos. Ele chegou perto, eu avancei, falava com ele, em um instante havia abarcado-o, um braço em volta do peito, o outro na garupa e agarrando a cauda, naquela contenção que os veterinários que já fizeram residência em haras praticam tanto. Sorte do potro ser pequeno.
Em um segundo, três ou quatro dos rapazes da Viaoeste estavam juntos de nós, cada um procurando um pedaço de cavalinho para segurar: as pernas, as orelhas, o pescoço…
- Bom dia, sou veterinária – cumprimentava eu. - Assim ó, desculpe, não segura ele pela perna nem puxa a cabeça. Deixa, está firme aqui…
Logo a van estava encostada à nossa frente, na área de carga uma profusão de caixas e ferramentas, mas o potrinho caberia. Ninguém reclamou quando assumi a liderança do procedimento (talvez era porque estivesse de culote, indo que estava para as aulas da manhã?) – levantamos o anterior do potro para a van, um dos rapazes e eu entrelaçamos nossos braços para empurrar a garupa, e o bichinho estava dentro. Expliquei a eles como contê-lo – não agarrem as pernas, que ele vai ficar com mais medo. Assim, um na garupa e outro no peito… não segurem ele com força enquanto ele estiver quietinho…
Eles agradeceram, bateram as portas, a van partiu. A base da Viaoeste não era longe, existia o caminhão dos “cowboys do asfalto”, cuja função é recolher e transportar animais na rodovia, os ferimentos do potro eram superficiais, tudo indicava que ele estava salvo. Mas seria resgatado pelo dono? Teria um dono? Veria de novo a sua mãe? Tudo isso eu nunca soube.
Atravessei a pista, e enquanto voltava ao meu carro, o tráfego retornava aos cento e vinte (cento e vinte e sete, dentro do limite concedido) de toda manhã. Pêlos no meu moleton, riscos de suor e uma pequena mancha de sangue de cavalo no meu culote. Nada havia acontecido, nunca mais eu esqueceria aqueles cinco minutos.
Sempre quis escrever sobre esta manhã, nunca o fiz, talvez porque fosse a um tempo uma história simples e complicada demais. Talvez porque achasse que eu pareço querer posar de super-heroína (Claudia erguendo a mão paralisa o tráfego, o potrinho ao vê-la corre para a segurança de seus braços), mas foi assim que aconteceu. Para mim, foi a manhã em que tive a oportunidade de fazer uma diferença, pequena que fosse, para melhor, e em que consegui honrar esta chance.
Abraços,
Claudia

Lucas e alguns de seus amigos…
FOTO: Paula da Silva