CAVALOS ENTUSIASMADOS

Textos, fotos e filosofanças de Claudia e amigos sobre o mundo dos cavalos, e os mundos aos quais o cavalo nos leva.

03 03UTC nov 03UTC PM

MANHÃ DE SÁBADO


Desde sempre, o sábado é o meu dia favorito da semana. Antigamente, era o começo do fim-de-semana, quando a segunda-feira estava a uma eternidade. Era o dia de não-planejar, dormir até mais tarde, fazer ovos mexidos no café, selar o cavalo e sair sem destino, ou para passear com os amigos, depois ficar acordada até a hora que desse vontade, pois havia o domingo para reorganizar tudo, fazer o dever de casa, enfrentar a nova semana de estudo ou trabalho.

Tempos depois, continuei preferindo as provas equestres que acontecem aos sábados, justamente porque depois haveria todo o domingo para descansar, limpar o material, cuidar dos cavalos, apreciar com vagar as memórias das aventuras do sábado.

Há muitos anos que me desabituei aos fins-de-semana como dias de folga; tal como acontece com a maioria das pessoas do cavalo, sábados e domingos são os dias em que mais trabalho, para ocasional estranheza de minha família e dos amigos não-equestres, que organizam festas, churrascos, aniversários e encontros aos sábados, “quando todo mundo tem tempo”. Mas também aprendi a apreciar as preciosas gotas de tempo especial, os feriados com que o destino nos brinda num parêntese de espaço e de tempo, em paralelo aos afazeres e à faina de nossa rotina diária. O truque é mantermos os olhos abertos, todos os sentidos alertas para nos darmos conta destes pequenos presentes, das ilhas e dos oásis no rio eterno do tempo que corre.

Há dias, houve um sábado destes. A prova de salto do Festival do Cavalo aconteceria a poucos quilômetros da Universidade do Cavalo, na qual eu estaria trabalhando num curso durante todo o dia; mas três de nossos cavalos participariam da prova, montados pelo Fernando Bastos. Minha tarefa era levar os cavalos da UC até o Marco Zero. Acordei às cinco e meia para tratar os cavalos – quase toda a tropa do Manege Capela estava na UC por causa do curso de odontologia (como vocês vêem, faltam para nós fins-de-semana para acomodarmos tantos eventos, especialmente no segundo semestre). Peguei a Venus e o Sete para tratar, Lasar não gostou de ficar sozinho no piquete e estourou o pequeno arame da cerca elétrica, Anita inebriada de súbita liberdade irrompeu pelo coast-cross alto do piquete vizinho, desaparecendo no quase-escuro da madrugada.

Ricardo e Sete crescendo na linha para colocar os quatro lances!

Foto: Karin Massonetto

Mas, com vagar, alguns recapturados e todos alimentados, antes das sete Zaca e os outros dois estavam escovados e encilhados. Velen e eu seguimos com os três cavalos, Denise viria logo mais de carro para me levar de volta.

A manhã ainda estava gostosa – durante o dia faria muito calor. O sol já começava a subir, e os cavalos estavam convictos de que era o início de um enduro. Há pouco mais de um mês, este pequeno trajeto fora parte do caminho que Venus e eu tínhamos percorrido entre Capela e Sorocaba, como parte do treino para Avaré, e tenho certeza de que se dependesse dela, era teria passado na frente do Marco Zero e ido bater direto em casa.

Quase podíamos ouvir os três falando entre si, incentivando um ao outro e dando risada:
- Você é lerdo!
- Sai pra lá, o lerdo é você!
- Por que vocês dois estão com tanta preguiça?

Sete forçando o cabresto, Vênus como sempre parecia que dançava, Zacarias de rédea solta olhando cada detalhe da manhã nova, curioso sempre, narinas e olhos bem abertos, orelhas atentas.

Deixamos para trás o curto trecho de acostamento, e logo trocamos também a estrada de terra pela estradinha de servidão da grande plantação de milho da fazenda do zoológico. O galope de Zack era cadenciado e suave, e as rédeas continuavam supérfluas: ele não tinha pressa nenhuma, vivendo pelo prazer do ar fresco, do céul azul, da terra firme e elástica sob seus cascos.

Fernando e Zaca aquecendo a caminho da vitória na prova de um metro.

Levamos uns vinte e cinco minutos da UC até o Marco Zero, mas poderiam ter sido horas, ou segundos. Lá além dos portões, a pista já estava sendo armada, o som sendo testado – o cotidiano nos alcançava.

Logo apareceu Denise para me levar de volta, e no mesmo horário em que muita gente ainda acordava, eu já tinha aimpressão de que o sábado andava pela metade.

Ao longo do dia de trabalho, via-me com um pequeno sorriso secreto nos lábios, toda vez que lembrava do delicado galope equilibrado de Zacarias ao longo da trilha, um quilômetro apenas que ele percorreu  parecendo, como eu, querer que aquele instante da alvorada nunca terminasse. Naquele minuto, galopamos mais perto de Deus.

Abraços,

Claudia

P.S.: Naquele sábado, com cada conjunto competindo em duas categorias, nossos três cavalos e dois cavaleiros obtiveram três primeiros, dois segundos e um quarto lugares. Depois, Denise e Geraldo os levaram montados de volta à UC. No domingo, os cavalos descansaram e nós limpamos o material.

Na categoria um metro, Venus levou o troféu de melhor anglo-árabe.

criado por leschonski    22:25 — Arquivado em: Sem categoria
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