Olá,
ests dias, enquanto organizava o computador, deparei com um texto meu um pouco mais antigo, escrito em 1998, quando o "horsemanship natural" ainda era no Brasil quase totalmente desconhecido. A cada artigo que escrevia ou palestra que dava, eu meio achava que tinha que pedir desculpas (ou ao menos me justificar,,,) por ousar mencionar o bem-estar emocional dos cavalos.
De lá para cá, o paradigma vigente já evoluiu um pouquinho… ao menos em alguns dos círculos do cavalo. Mesmo assim, acho que este texto continua bem interessante de se ler, à medida que é quase um resumo do trabalho com cavalos baseado nos princípios da etologia equina.
Boa leitura, bom mês de dezembro para todos,
Claudia
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Athora Função, Luso-árabe, na foto com dois anos de idade.
Foto: arquivo pessoal
A primeira ponderação que eu faria é que não podemos nos valer de “argumentação racional” junto a cavalos, do mesmo modo que faríamos com seres humanos. O comportamento irracional, seja instintivo/inato ou reflexivo/adquirido, é muito prevalente nos animais, e uma vez instalado, só pode ser mascarado, ou enfraquecido por um estímulo posterior ainda mais forte, porém jamais apagado totalmente.
Todo aprendizado no animal, tanto o desejado como o indesejado, se processa através do condicionamento de recompensa e castigo, conforme a atitude do animal seja a desejada por nós ou não. Isto é adicionalmente complicado pelo fato de que muitas vezes ensinamos coisas aos cavalos involuntariamente, sem nos darmos conta disso. Por exemplo, uma pessoa tímida produzirá cavalos agressivos, sem que ela perceba estar fazendo isso, pois os cavalos são instintivamente compelidos a questionar a dominância de uma autoridade fraca.
Portanto, todo o treinamento de cavalos se baseia em erro e acerto : a atitude correta deve parecer agradável ao cavalo, enquanto todas as incorretas serão desagradáveis. Um exemplo simples : apertar as pernas contra o costado do animal montado significa que desejamos que ele se mova para a frente. O animal em início de treinamento não compreende essa ordem, então a tornamos mais intensa (= cada vez mais desagradável), até que mais ou menos por acaso ele acabe indo para a frente, o que é recompensado com agrados, e principalmente com alívio de pressão. O reforço sempre constante desta atitude acabará por desenvolver um reflexo condicionado no cavalo : apertar as pernas = ir para a frente. É fácil entender que este procedimento é demorado, ainda mais à medida que o treinamento fica mais complexo, e o cavalo demora até compreender o que estamos querendo dele.

Zacarias montado por Fernando Bastos, no Campeonato Paulista de CCE, novembro/2008
Foto: Karin Massonetto
Como seria mais fácil se pudéssemos explicar ao animal o que dele desejamos, ou melhor ainda, se pudéssemos fazê-lo sentir aquilo que dele queremos ! Por exemplo, se uma criança aprendendo balé tem dificuldade em determinado movimento, o professor pode auxiliá-la fisicamente, dirigindo seu corpo à posição desejada, dizendo : viu só, é assim. E mesmo que tenhamos força física para fazer algo semelhante com um cavalo, como fazê-lo entender que esperamos dele a repetição espontânea daquele movimento ? Ou tomemos o problema do salto : muitos cavalos derrubam obstáculos com as pernas anteriores porque não flexionam suficientemente as mesmas. Não é porque não tenham força física, flexibilidade ou vontade para fazê-lo, mas simplesmente porque não entenderam - falta-lhe discernimento racional para tanto - que bastaria que levantassem um pouco mais as pernas. Não seria maravilhoso se pudéssmos lhes explicar : veja, levante as pernas assim que você não vai mais dar caneladas nas varas ?
Pelas mesmas razões, comportamentos compulsivos são dificílimos, muitas vezes impossíveis, de eliminar nos cavalos. Em virtude de manejo pouco adequado - geralmente associado à falta de movimento ou de convívio com outros cavalos - muitos cavalos adquirem tiques nervosos, tais como aerofagia, coprofagia, “dança do urso” (balançar de uma perna para outra), os quais depois os acompanham pelo resto da vida, mesmo depois que a causa original do vício tenha sido eliminada. Num paciente humano, imagino, é possível usar argumentos verbais/racionais, do tipo : “perceba que agora você não precisa mais deste comportamento, pois sua vida mudou” - o que, obviamente, é impossível de se conseguir com cavalos através dos métodos convencionais.
Outra coisa importante de se saber a respeito de cavalos é que eles são herbívoros de fuga, cuja maior chance de sobrevivência ( na vida selvagem) consistia em correr à menor sombra de perigo real ou imaginário. Este mais básico de todos os seus instintos faz parte irremovível de todo cavalo - criaturas claustrofóbicas sempre sujeitas ao pânico. Ora, conquistar a confiança dos cavalos é essencial para termos sucesso em seu treinamento, pois como esperar que seu cérebro possa se concentrar em aprendizado se está tomado pelo medo ? Isso é relativamente fácil nos potros novos, nos quais o medo é apenas um instinto genérico, logo superável por seres humanos cordatos e confiáveis, porém se torna outro problema grave e até insuperável nos animais problemáticos que vieram de um passado com experiências negativas. De novo a deficiência de comunicação entre as espécies é um empecilho : como posso fazer o cavalo compreender que ele nada tem a temer de mim, que ele está seguro agora ?

Fernando com Vênus iniciando o cross no CCE de 22/11/08.
Foto: Paula da Silva
Por isso mesmo, se eu pudesse fazer uma única pergunta aos meus cavalos, perguntaria : do que é que você tem medo ? E inversamente, se eu pudesse lhes transmitir uma única idéia, lhes diria : nunca farei nada, deliberadamente, que coloque você em perigo. Confie em mim !
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