CAVALOS ENTUSIASMADOS

Textos, fotos e filosofanças de Claudia e amigos sobre o mundo dos cavalos, e os mundos aos quais o cavalo nos leva.

22 22UTC jan 22UTC AM

“Comendo na minha mão…”

 

 Os adeptos mais ortodoxos do horsemanship natural (*) afirmam que jamais se deve dar comida como recompensa para um cavalo, e em especial, que não devemos oferecer estes agrados em nossa mão. Vem aí minha pergunta favorita: sim, mas por que?

 

A resposta que eu costumava dar aos meus alunos é que gramíneas e outras plantas, alimento natural dos cavalos, não precisam de estratégia e ação integrada entre os membros da manada para serem ingeridos. Basta ir até a pastagem, baixar a cabeça e comer: a manada tem função protetora de seus integrantes contra predadores, mas não facilita nem possibilita, por si só, a busca de alimento. Já os caçadores de matilha dependem da colaboração estrita entre si para conseguirem comer, e esta interação pressupõe hierarquia: o líder comanda, os liderados obedecem, todos conseguem capturar a presa. “Obedecer”, para um carnívoro de manada, não é apenas essencial à própria sobrevivência, mas também fonte da alegria da barriga cheia. Por isso os profissionais da cinofilia, por exemplo, trabalham com recompensas à base de queijo e fígado, sem que isso prejudique a relação de dominância entre cão e handler. Por conta do instinto de “caçar em bando”, os cães têm uma necessidade muito mais imperiosa de serem submissos a alguém do que os cavalos: vocês conseguem imaginar um cavalo tomar um pontapé na barriga e voltar todo subserviente àquele que o chutou?

 

Primeiras lições

Primeiras lições

 

 Desde a primeira infância, a vida em manada pauta o comportamento hierárquico que possibilita a futura utilização do cavalo pelo ser humano.

 FOTO: PAULA DA SILVA

 

 Até aí tudo bem, mas por que os gurus do horsemanship ensinam que a eventual recompensa ou agrado em comida deve ser dado no cocho ou num balde, mas não  da mão humana? Qual a razão desta diferença, ou melhor, por que as duas maneiras são percebidas como diferentes entre si pelos cavalos?

 

Estes dias apenas (após uns doze anos pensando no tema, para vocês verem como eu consigo ser lerda…) consegui sintetizar minha resposta numa frase: o cavalo acha que está tomando a comida que era minha, interpretando minha resposta como submissiva. Ou um cavalo dominante permitiria que o dominado lhe tomasse a cenoura da boca?

 

Claro: colocar o agrado num balde ou no chão e ir embora, do ponto de vista equino, significa que não tenho interesse por aquilo e estou passando a vez ao próximo. Tal como nas manadas, onde os superiores detêm para si o privilégio de escolherem as melhores áreas de pastejo, antes de darem lugar aos demais. Procedendo assim, estou permitindo ao meu cavalo que ele coma o que gosta sem abrir mão de minha dominância – bem similar ao que seria feito pelos animais alfa (= líderes) do grupo.

 

E agora, isto significará que Venus, Zaca e os outros não mais receberão petiscos direto de minha mão?

 

Zack no pasto consorciado (grama e trevo) após o trabalho

Zack no pasto consorciado (grama e trevo) após o trabalho

  Nesta foto, é possível ver como as horas de pastejo fortalecem a musculatura cervical e dorso-lombar da maneira desejada para a boa equitação. Vide o post “Cavalos Maleáveis”…

 

Bem… nem tanto né.  :-)  Para mim o agrado com frutas, doces, etc, nunca foi um hábito constante, pois o mais perigoso desta história, na minha opinião, se dá quando o cavalo começa a entender o que deveria ser uma “ocasional surpresa agradável” como “obrigação do ser humano”, tal como a criança mimada que esperneia quando o pai não lhe traz um presentinho a cada noite. Às vezes trago paçocas, maçãs, balas ou outros agrados – mas em geral recompenso meus cavalos  colocando-os para pastar após o trabalho, de preferência num local de grama bem suculenta. Com cavalos de correção, tal como o Flanel nos bons e velhos tempos, chego a soltá-los na pista mesmo, para espojarem e pastarem a graminha das beiradas. Para máxima eficiência, pulo da sela e removo o material no instante seguinte à execução daquele exercício que causava dificuldade e resistência, e que o cavalo começou a me oferecer com mais desenvoltura. A idéia é que ocorra uma associação mental positiva que ao longo de futuras repetições vá estendendo o limite de tolerância do animal. Como dizemos no horsemanship natural, “o cavalo busca conforto”, ou ainda “a recompensa é o alívio imediato da pressão”.

 

Em resumo, eu diria que cavalos de temperamento forte, garanhões, aqueles que gostam de morder, aqueles com problema de dominância (às vezes tudo isto é um único cavalo…) não devem receber alimento ou petiscos da mão, de preferência “nunca”. Para os outros, não há problema na infração ocasional – desde que a dominância humana esteja bem estabelecida na cabeça destes cavalos, e que a oferta não se torne uma rotina obrigatória.  Do mesmo modo que às vezes trago o “agrado na mão”, não me importo de comer alguma fruta ou um doce ao lado de meus cavalos sem compartilhá-los – claro, ficando atenta e agindo como um cavalo dominante faria caso eles insistam em pedir um pedacinho…

 

São detalhes e observações pequenos, que uma vez formulados, parecem tão óbvios que tenho quase vergonha de escrever sobre eles aqui. Mas o fato é que eu nunca tinha lido ou ouvido esta explicação da maneira como está colocada aqui. Fica o convite a vocês, amigos leitores, para criarem suas próprias inferências, chegarem a suas próprias conclusões, neste “laboratório” infinito que é a convivência com nossos cavalos. Claro, enriquecido ainda mais por leituras, conversas com quem entende, troca de idéias. Ainda que não existam, no Brasil, muitas obras escritas ou traduzidas sobre etologia equina, a internet pode ser uma boa fonte, especialmente com um dicionário de inglês do seu lado. J Experimentem também ler textos de outros segmentos e aplicá-los à sua vida com cavalos. Um dos mais interessantes neste contexto é “As Sete Leis do Sucesso Espiritual”, por Deepak Chopra.

 

Ainda na série “pensando como um cavalo”, há outro insight interessante que tive há pouco tempo, sobre o qual quero escrever numa próxima ocasião. Mas já posso deixá-los pensando no assunto: qual a diferença entre se montar um cavalo castrado e uma égua? Durante anos, pensei que não existia diferença significativa, ainda que vários de meus amigos declarassem preferência por um gênero ou outro, porém também sem que soubessem verbalizar a razão para tal. (Geralmente o que diziam era algo do tipo: “a égua é maaaisss… assim, sabe…”)  Mas de um tempo para cá, cheguei a uma conclusão tão interessante quanto simples. Me aguardem…

 

Abraços,


Claudia

  

(*) Horsemanship natural = uma definição em poucas palavras é difícil, mas podemos explicar o processo como “educação e treinamento do cavalo através da comunicação baseada no comportamento natural dos equinos, visando um relacionamento entre pessoa e cavalo com compreensão e confiança mútuos”.

 

Quem, eu me preocupar?

Quem, eu me preocupar?

 

 P.S.:  Aproveitem para ler meu novo PTP (= pequeno texto poético), estrelado pela Venus, no blog da Paula, http://horseandphotos.wordpress.com/.

 

criado por leschonski    9:17 — Arquivado em: Sem categoria

05 05UTC jan 05UTC PM

A chama do entusiasmo – para pessoas e cavalos

 

 

Caros amigos e leitores,

 

Feliz 2009 a todos! Como sabem, escrever mais e melhor está entre minhas resoluções de ano novo, e isso inclui este blog que vos fala.

       Aembé num momento entusiasmado… (2003) 

 

Lá nos posts iniciais devo ter mencionado o significado da palavra “entusiasmo” – mas como já faz um tempinho, não custa repetir. A tradução de “ser entusiasmado” é “ter Deus dentro de si”. Em algumas línguas, também é entendido como “pleno de alma”, “cheio de espírito”.

 

Potrinhos e crianças são naturalmente “entusiasmados” – basta vê-los correndo e brincando, com qualquer coisa servindo como pretexto para alegria. É como se o dom da vida, por si próprio, fosse a maior motivação para que cada nova geração de criaturas busque a transcendência dos limites, aquilo que podemos chamar de evolução.

 

Em que ponto de nossa estrada este entusiasmo natural vai arrefecendo? Quando é que nos tornamos adolescentes entediados, adultos estressados ou deprimidos? Quando o potro pára de galopar espontaneamente para seguir a lei do mínimo esforço, como e porque um cavalo adquire aquele olhar ausente , que atravessa a pessoa à sua frente, como dizendo “eu tenho que lhe obedecer, então vamos acabar logo com isso”?

 

Dentro deste contexto, de uma maneira mais ampla, por estes dias li uma entrevista muito interessante, concedida por um pedagogo alemão, Dr. Gerald Hüther, ao Spiegel On-Line. O texto fala de educação infantil, mas a correlação com cavalos não é de todo impossível, ainda que em alguns pontos mais que em outros, é lógico. No geral, não é muito difícil enxergar potros de um “moderno” haras de manejo intensivo quando o entrevistado fala de crianças confinadas na cidade grande…

 

De qualquer maneira, cumpre lembrar que a essência do nosso amor por cavalos está na sua interação com o ser humano – ou seja, teremos atingido nosso objetivo apenas quando cavalos e cavaleiros são felizes juntos. E já que a iniciativa da doma e do treinamento do cavalo de sela parte do ser humano, um cavaleiro “entusiasmado” é fundamental na formação do cavalo idem.

 

O que quero dizer é que talvez seja necessário rever não apenas a maneira pela qual treinamos nossos cavalos, mas também a instrução recebida por cavaleiros, treinadores e demais profissionais do cavalo. Quantos instrutores de equitação vocês conheceram que conseguiram extirpar o prazer em montar de seus alunos, tornando tortura o que era para ser uma alegria? O mesmo, claro, vale para os domadores, picadores, treinadores, cavaleiros de competição…

 

Traduzi a entrevista na íntegra, para o caso de vocês quererem encaminhá-la para outros amigos que tenham filhos mas não sejam “do cavalo”. Adaptei apenas alguns trechos que se inserem na realidade européia mas não têm muito a ver com a nossa – por exemplo, o Dr. Hüther sugere que pais e filhos façam um passeio de bicicleta até um depósito de lixo…  J

 

Abraços, boa semana a a todos,

 

Claudia

 

A tropa levantando poeira… (2008)

 

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Como o sabe-tudo estraga a alegria de aprender

 

Entrevista concedida ao Der Spiegel On-line pelo neurobiólogo Gerald Hüther, sobre a motivação para os jogos.

 

Pergunta – Spiegel: Professor, sabemos que a amplitude de movimento das crianças, ou seja, seu „território de jogos”, fica cada vez menor. Que influência isto tem sobre o seu desenvolvimento?

Resposta - Hüther: Crianças sob supervisão permanente, que são permanentemente conduzidas pela mão de adultos, assemelham-se a animais domésticos que não mais conhecem a vida em liberdade. As pesquisas neurológicas nos revelam que sob estas condições o amadurecimento do cérebro deixa de ocorrer sob condições ideais. O cérebro permanece uma versão limitada daquilo que poderia ter sido.

 

P: O que está errado na interferência dos pais na atividade das crianças?

R: A participação dos aultos muitas vezes resulta na perda da iniciativa da criança em fazer suas próprias criações e descobertas. A sede por conhecimento é corrompida pela ostentação do adulto. Tome o exemplo de uma criança de um ano, que finalmente conseguiu fazer uma torrezinha de blocos de madeira, e se orgulha dela. Quando o pai vem para casa, ele diz: “Olha, você fez uma torre bacana! Mas o papai sabe fazer uma maior ainda!” Isto é mortal. O pai interfere na brincadeira, em vez de incentivar a criança, e assim estraga a diversão do brinquedo dos blocos. Um pai exemplar direciona a criança, em sua busca por respostas, para o caminho correto. As crianças precisam ser inspiradas, e não instruídas, pelos adultos. 

 

P: Como pais que moram com seus filhos numa metrópole ainda podem ser inspiradores?

R: Os pais podem ir com os filhos até um local onde haja algo a descobrir, por exemplo,  áreas rurais, bosques, parques – ainda há muitas possibilidades. Pais podem se organizar em grupos, para em sua área residencial organizarem espaços onde as crianças possam ser criativas. Pois o brincar infantil é isto: a criação coletiva de jogos e brinquedos que não sejam regulamentados pelos adultos. Também existem jardins de infância onde são feitas experiências neste sentido, onde tudo deve ser inventado pelas crianças.

 

P: Em vez de mais liberdade, muitas vezes o que se exige é mais disciplina no trato com crianças, principalmente no âmbito escolar. Qual a sua opinião a respeito?

R: Do ponto de vista neurobiológico, como todo bom pedagogo sabe, medidas disciplinatórias não resultam em mais disciplina, porém no máximo em obediência. Quem deseja disciplina, precisa dar oportunidade às crianças de sentirem as vantagens da disciplina. Elas deveriam ter a oportunidade de solucionarem uma tarefa que propuseram a si mesmas, tal como construir uma casa na árvore. Neste processos, elas se dão conta de que isto não é possível se as ferramentas não forem organizadas, e a obra não for planejada antes. Crianças precisam ser convidadas a se ocuparem como descobridores e formadores do mundo – e o modo mais fácil para tanto é nas brincadeiras, e não na escola.

 

P: Hoje a escola é considerada como uma instituição onde as crianças aprendem coisas que necessitarão em suas vidas futuras.

R: A maioria dos pais, muitas escolas e até algumas secretarias de educação ainda não perceberam que nossos mercados e nossas universidades têm graves problemas derivados do fato de que os jovens que lá chegam não têm motivação suficiente. Eles perderam a vontade de descobrir e criar, de maneira irreversível. As escolas sempre querem transmitir conhecimentos concretos às crianças. No entanto, já faz um século que pedagogos vêm apontando que não se trata apenas de retransmitir às crianças um patrimônio cultural, e sim, de ir despertando nelas aquele espírito que produz patrimônio cultural.  Ou seja, o objetivo primário das escolas não deveria ser que todos tenham conhecimentos perfeitos de matemática, português, ciências ou o que quer que seja, mas sim, que eles se tornem estudiosos e descobridores entusiasmados dos conteúdos de matemática, português e ciências. É algo totalmente diferente. Os gregos antigos já diziam: não se trata de preencher barris, e sim de acender tochas.

 

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Ndzinji Pontes conduzindo Thor Função em entusiasmo concentrado… 

N. da T.:  Já pensaram no contexto da “produção de novo patrimônio cultural” dentro do ensino da equitação e no treinamento de cavalos? Em nosso característico amálgama cultural, de que maneira as pessoas brasileiras do cavalo podem contribuir com o horsemanship internacional? Se é verdade que não temos uma grande escola brasileira de equitação, à maneira das linhas alemã ou francesa, por exemplo, isto nos dá uma grande liberdade de ação para formarmos um sincretismo eqüestre unindo os elementos que nos parecem mais valiosos e importantes para a nossa realidade. Desde que a natureza intrínseca dos animais seja sempre respeitada, é claro.

 

 

 

 

criado por leschonski    15:22 — Arquivado em: Sem categoria
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