CAVALOS ENTUSIASMADOS

Textos, fotos e filosofanças de Claudia e amigos sobre o mundo dos cavalos, e os mundos aos quais o cavalo nos leva.

05 05UTC jan 05UTC PM

A chama do entusiasmo – para pessoas e cavalos

 

 

Caros amigos e leitores,

 

Feliz 2009 a todos! Como sabem, escrever mais e melhor está entre minhas resoluções de ano novo, e isso inclui este blog que vos fala.

       Aembé num momento entusiasmado… (2003) 

 

Lá nos posts iniciais devo ter mencionado o significado da palavra “entusiasmo” – mas como já faz um tempinho, não custa repetir. A tradução de “ser entusiasmado” é “ter Deus dentro de si”. Em algumas línguas, também é entendido como “pleno de alma”, “cheio de espírito”.

 

Potrinhos e crianças são naturalmente “entusiasmados” – basta vê-los correndo e brincando, com qualquer coisa servindo como pretexto para alegria. É como se o dom da vida, por si próprio, fosse a maior motivação para que cada nova geração de criaturas busque a transcendência dos limites, aquilo que podemos chamar de evolução.

 

Em que ponto de nossa estrada este entusiasmo natural vai arrefecendo? Quando é que nos tornamos adolescentes entediados, adultos estressados ou deprimidos? Quando o potro pára de galopar espontaneamente para seguir a lei do mínimo esforço, como e porque um cavalo adquire aquele olhar ausente , que atravessa a pessoa à sua frente, como dizendo “eu tenho que lhe obedecer, então vamos acabar logo com isso”?

 

Dentro deste contexto, de uma maneira mais ampla, por estes dias li uma entrevista muito interessante, concedida por um pedagogo alemão, Dr. Gerald Hüther, ao Spiegel On-Line. O texto fala de educação infantil, mas a correlação com cavalos não é de todo impossível, ainda que em alguns pontos mais que em outros, é lógico. No geral, não é muito difícil enxergar potros de um “moderno” haras de manejo intensivo quando o entrevistado fala de crianças confinadas na cidade grande…

 

De qualquer maneira, cumpre lembrar que a essência do nosso amor por cavalos está na sua interação com o ser humano – ou seja, teremos atingido nosso objetivo apenas quando cavalos e cavaleiros são felizes juntos. E já que a iniciativa da doma e do treinamento do cavalo de sela parte do ser humano, um cavaleiro “entusiasmado” é fundamental na formação do cavalo idem.

 

O que quero dizer é que talvez seja necessário rever não apenas a maneira pela qual treinamos nossos cavalos, mas também a instrução recebida por cavaleiros, treinadores e demais profissionais do cavalo. Quantos instrutores de equitação vocês conheceram que conseguiram extirpar o prazer em montar de seus alunos, tornando tortura o que era para ser uma alegria? O mesmo, claro, vale para os domadores, picadores, treinadores, cavaleiros de competição…

 

Traduzi a entrevista na íntegra, para o caso de vocês quererem encaminhá-la para outros amigos que tenham filhos mas não sejam “do cavalo”. Adaptei apenas alguns trechos que se inserem na realidade européia mas não têm muito a ver com a nossa – por exemplo, o Dr. Hüther sugere que pais e filhos façam um passeio de bicicleta até um depósito de lixo…  J

 

Abraços, boa semana a a todos,

 

Claudia

 

A tropa levantando poeira… (2008)

 

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Como o sabe-tudo estraga a alegria de aprender

 

Entrevista concedida ao Der Spiegel On-line pelo neurobiólogo Gerald Hüther, sobre a motivação para os jogos.

 

Pergunta – Spiegel: Professor, sabemos que a amplitude de movimento das crianças, ou seja, seu „território de jogos”, fica cada vez menor. Que influência isto tem sobre o seu desenvolvimento?

Resposta - Hüther: Crianças sob supervisão permanente, que são permanentemente conduzidas pela mão de adultos, assemelham-se a animais domésticos que não mais conhecem a vida em liberdade. As pesquisas neurológicas nos revelam que sob estas condições o amadurecimento do cérebro deixa de ocorrer sob condições ideais. O cérebro permanece uma versão limitada daquilo que poderia ter sido.

 

P: O que está errado na interferência dos pais na atividade das crianças?

R: A participação dos aultos muitas vezes resulta na perda da iniciativa da criança em fazer suas próprias criações e descobertas. A sede por conhecimento é corrompida pela ostentação do adulto. Tome o exemplo de uma criança de um ano, que finalmente conseguiu fazer uma torrezinha de blocos de madeira, e se orgulha dela. Quando o pai vem para casa, ele diz: “Olha, você fez uma torre bacana! Mas o papai sabe fazer uma maior ainda!” Isto é mortal. O pai interfere na brincadeira, em vez de incentivar a criança, e assim estraga a diversão do brinquedo dos blocos. Um pai exemplar direciona a criança, em sua busca por respostas, para o caminho correto. As crianças precisam ser inspiradas, e não instruídas, pelos adultos. 

 

P: Como pais que moram com seus filhos numa metrópole ainda podem ser inspiradores?

R: Os pais podem ir com os filhos até um local onde haja algo a descobrir, por exemplo,  áreas rurais, bosques, parques – ainda há muitas possibilidades. Pais podem se organizar em grupos, para em sua área residencial organizarem espaços onde as crianças possam ser criativas. Pois o brincar infantil é isto: a criação coletiva de jogos e brinquedos que não sejam regulamentados pelos adultos. Também existem jardins de infância onde são feitas experiências neste sentido, onde tudo deve ser inventado pelas crianças.

 

P: Em vez de mais liberdade, muitas vezes o que se exige é mais disciplina no trato com crianças, principalmente no âmbito escolar. Qual a sua opinião a respeito?

R: Do ponto de vista neurobiológico, como todo bom pedagogo sabe, medidas disciplinatórias não resultam em mais disciplina, porém no máximo em obediência. Quem deseja disciplina, precisa dar oportunidade às crianças de sentirem as vantagens da disciplina. Elas deveriam ter a oportunidade de solucionarem uma tarefa que propuseram a si mesmas, tal como construir uma casa na árvore. Neste processos, elas se dão conta de que isto não é possível se as ferramentas não forem organizadas, e a obra não for planejada antes. Crianças precisam ser convidadas a se ocuparem como descobridores e formadores do mundo – e o modo mais fácil para tanto é nas brincadeiras, e não na escola.

 

P: Hoje a escola é considerada como uma instituição onde as crianças aprendem coisas que necessitarão em suas vidas futuras.

R: A maioria dos pais, muitas escolas e até algumas secretarias de educação ainda não perceberam que nossos mercados e nossas universidades têm graves problemas derivados do fato de que os jovens que lá chegam não têm motivação suficiente. Eles perderam a vontade de descobrir e criar, de maneira irreversível. As escolas sempre querem transmitir conhecimentos concretos às crianças. No entanto, já faz um século que pedagogos vêm apontando que não se trata apenas de retransmitir às crianças um patrimônio cultural, e sim, de ir despertando nelas aquele espírito que produz patrimônio cultural.  Ou seja, o objetivo primário das escolas não deveria ser que todos tenham conhecimentos perfeitos de matemática, português, ciências ou o que quer que seja, mas sim, que eles se tornem estudiosos e descobridores entusiasmados dos conteúdos de matemática, português e ciências. É algo totalmente diferente. Os gregos antigos já diziam: não se trata de preencher barris, e sim de acender tochas.

 

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Ndzinji Pontes conduzindo Thor Função em entusiasmo concentrado… 

N. da T.:  Já pensaram no contexto da “produção de novo patrimônio cultural” dentro do ensino da equitação e no treinamento de cavalos? Em nosso característico amálgama cultural, de que maneira as pessoas brasileiras do cavalo podem contribuir com o horsemanship internacional? Se é verdade que não temos uma grande escola brasileira de equitação, à maneira das linhas alemã ou francesa, por exemplo, isto nos dá uma grande liberdade de ação para formarmos um sincretismo eqüestre unindo os elementos que nos parecem mais valiosos e importantes para a nossa realidade. Desde que a natureza intrínseca dos animais seja sempre respeitada, é claro.

 

 

 

 

criado por leschonski    15:22 — Arquivado em: Sem categoria

4 Comentários »

  1. Comentário por Daniela — 05 05UTC jan 05UTC PM @ 17:54

    Amanhã mesmo pego minha bicicleta e vou ao depósito de lixo!
    Beijos,
    Dani

  2. Comentário por Claudia — 06 06UTC jan 06UTC AM @ 8:26

    Oi Dani -
    também achei engraçadíssima a história dos depósitos de lixo - os da Alemanha devem ser um luxo!!! Depois você me conta como foi seu tour ciclístico!! ;-)

    Beijão!

  3. Comentário por Cabanha Mangueira de Pedra — 11 11UTC mai 11UTC AM @ 11:54

    Parabens pelo trabalho amigos !!!
    Para nós da Cabanha Mangueira de Pedra é sempre bom poder conhecer um pouco mais sobre a origem do nosso cavalo crioulo, proviniente sim do Lusitano !!!

    Parabens mais uma vez !!!

    Cabanha Mangueira de Pedra - Bagé - RS
    No Berço do Cavalo Crioulo
    http://cabanha-mangueira-de-pedra.blogspot.com

  4. Comentário por Claudia — 15 15UTC mai 15UTC AM @ 10:13

    Olá, muito obrigada pelos elogios. Já visitei o site e gostei muito, parabéns. :-)

    Abraços,

    Claudia

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