CAVALOS ENTUSIASMADOS

Textos, fotos e filosofanças de Claudia e amigos sobre o mundo dos cavalos, e os mundos aos quais o cavalo nos leva.

07 07UTC fev 07UTC PM

VENUS E ZACARIAS: PEQUENOS RETRATOS

 

Hoje gostaria de falar um pouco mais sobre os dois cavalos que na atualidade são meus companheiros mais constantes e importantes em passeios, treinos e competições: Venus e Zacarias. Eles sempre são mencionados por aqui, mas talvez vocês queiram conhecer melhor estes que são “cavalos entusiasmados” por excelência.

 

Venus tem boa família e boa criação (born and bred, como dizem os ingleses), o que se reflete em sua personalidade equilibrada e seu caráter impecável. Ela não apenas gosta de “suas” pessoas, mas faz questão de protegê-las. Ela não tem dúvidas de que seja a égua alfa de seu grupo – grupo que inclui não apenas os cavalos e as pessoas, mas até as vacas e os bezerros do sítio onde ela mora. Certa ocasião, dois cachorrões da vizinhança acuaram um dos bezerros recém-nascidos, que a mãe havia escondido numa touceira de mato. O bezerro tentava fugir e a vaca mugia sem saber o que fazer, e os cães, quem sabe, teriam encurralado e mordido o bichinho até matá-lo. Eis que Venus veio a galope, orelhas para trás, cascos pelos ares e pescoço no chão, e botou os cães para correr. O interessante é que apesar de soltos no mesmo pasto, nossos cavalos e a vacada costumam se ignorar cordialmente uns aos outros. Mas na hora H, Venus ficou do lado de quem precisava de socorro. Ela também é o único dos cavalos que (quase sempre) vem ao nosso encontro no pasto quase com alegria. Sua curiosidade e inteligência e apetite a fazem abrir porteiras, desatar nós de cabresto, soltar os outros cavalos, abrir o curral dos bezerros e invadir a cocheira do Flanel para roubar-lhe a papinha geriátrica. Se está atada no cabresto e entediada, costuma tomar nos dentes e jogar no chão tudo que está ao seu alcance, como uma criança que aperta todos os botões do elevador para ver se algo interessante vai acontecer.

Vênus 2005: estreando no enduro em alto estilo (Riviera Paulista)

 

Zacarias é um cavalo diferente, ao qual quase todos que o conhecem – independente de gostarem dele ou não – atribuem uma personalidade especial. Enquanto a maioria dos cavalos mostra indiferença aparente aos seres humanos – seja por apatia, reserva, medo ou noções da própria superioridade – Zacarias é muito claro em expressar sentimentos e opiniões. Ele ouve minha voz de longe, levanta a cabeça e às vezes vem ao meu encontro, ou até me segue no piquete. Às vezes oferece a cabeça para um abraço, e pressiona a testa contra o meu esterno, ficando imóvel e de olhos fechados. Quando acho que já está bom e tento me desvencilhar, ele continua procurando minha proximidade, como se não quisesse me deixar ir. Aprendeu meio por iniciativa própria a me seguir na pista e sobre pequenos obstáculos, e também a ficar parado no lugar em que se encontra, quando solicitado. (Claro que tudo isso não funciona em 100% das vezes, mas aí também não teria graça…) Ao mesmo tempo, ele é antipático, mesmo perigoso, com pessoas que não conhece ou das quais ele esteja desconfiado: empina, escoiceia e morde, mesmo que a pessoa esteja tranquila. Se for alguém inseguro então, é caso perdido.

 

Venus gosta de mostrar o que sabe fazer, mesmo que não tenha ninguém olhando. Seja o ritmo longo e constante dos galopinhos de enduro, uma pista de cross ou trabalho em duas pistas, ela se doa sem reservas; parece que a expressão “vai e se joga” foi feita para ela, o que não significa que ela desperdice energia. Ela é até mais calma do que a maioria dos cavalos de esporte. Às vezes chego a achar que ela está cansada, mas ela sabe reservar energia para os momentos mais importantes – o monitoramento com o Polar (medidor de frequência cardíaca) confirma isso.

 

Zacarias gosta de saltar. Provavelmente a sensação de “para o alto e avante” deve lhe proporcionar algum prazer supremo. Ele salta sozinho no cabo de guia, trotando solto atrás de mim, comigo largando as rédeas no pescoço e tapando os olhos com ambas as mãos… tudo isso sempre sobre alturas modestas, é claro, se bem que acho que o receio de subir a madeira nestas experiências seja mais meu do que dele. Quando tem um cavaleiro um tanto melhor em cima dele então (ou até eu mesma num dia inspirado), ele começa a saltar até BEM.

 

Zacarias 2005: sem pescoço, sem mecânica, sem musculatura, mas com vontade de sobra…

 

No seu começo de vida adulta, Venus era meio patricinha, achando que algumas regras de relacionamento pessoas & cavalos devessem ser reescritas para ela. (Por que eu tenho que ficar presa aqui? Por que devo me misturar com estes cavalos desconhecidos? Por que tenho me flexionar pra direita, se já sei fazer tão bem pra esquerda?) Creio que ela é um destes cavalos privilegiados que nunca conheceram pessoas que não fossem gentis com cavalos (e que Deus a proteja para que continue assim por todos os seus dias), o que a torna tão protetora e companheira da gente. Na cocheira, fica ofendida se não vou abraçá-la a cada visita, e nos enduros define um círculo em torno de si, cuja guardiã auto-nomeada ela se torna e que estranhos, pessoas ou cavalos, não podem invadir. É por isso que ela tem que usar uma IMENSA fita vermelha na cauda (que nos enduros sinaliza os cavalos coiceiros).

 

Zacarias veio para mim magro, com um pescoço quase inexistente, com aprumos corretos mas uma enorme cicatriz no carpo direito. Além disso, nunca havia aprendido a  galopar na mão esquerda. Fiquei com ele assim mesmo (por um preço pequeno e bem parcelado), pois no salto-teste que armamos na rua, com dois caixotes de tomate e uma ripa, ele quase me jogou da sela, passando a uma altura umas três vezes superior à do obstáculo improvisado. Durante todo este test-ride ele estava bem resfolegante, o que atribuí a nervosismo (dele) e falta de trabalho. Foi apenas depois que ele já estava comigo que me dei conta de que ele era roncador, e que se as hemiplegias de laringe costumam ser classificadas de grau um a cinco (a mais severa), a dele provavelmente era grau sete. A história da cirurgia da hemiplegia é assunto para outro post, e embora a respiração de Zacarias ainda não seja perfeita, ele melhorou o bastante para ser dublê de cavalo de enduro (regularidade, bem entendido… pelo menos até agora J).

Venus 2008: treino de salto com Fernando Bastos

 

O que Zacarias e Venus mais têm em comum, além de gostarem do que fazem, é terem curiosidade pelo mundo à sua volta, e de serem muito mais comunicativos do que a maioria dos cavalos por aí. Observando-os (e também a tantos outros, bem entendido) é que comecei a cristalizar novas idéias sobre a importância do enriquecimento ambiental para cavalos. Tudo isso é bem recente e será abordado em posts futuros. Num dia típico, Zack (que mora na Universidade do Cavalo) é solto no coast-cross pela manhã, junto com alguns companheiros, e passa o resto do tempo observando o ir-e-vir em seu piquetinho particular, próximo às cocheiras. Quando estou por lá, costumo soltá-lo para pastar no cabresto, o que significa que ele fica solto arrastando um cabo de cabresto no qual pisa de vez em quando.  Ele vai explorando diversos tipos de grama, come mangas ou goiabas, e às vezes também é picado por vespas que lhe rivalizam as frutas. Ele vê crianças, tratores, cachorros, cavalos conhecidos e desconhecidos, todos passando bem perto dele. Quando começa a chover, ele acha um telhado para se abrigar. O trabalho dele inclui sessões de guia em pasto meio irregular, exteriores com trechos de trânsito, salto sobre obstáculos improvisados. Brincamos em obstáculos de equitação de trabalho, já taqueei bolinhas de pólo campo afora, e às vezes ajudamos a fechar o gado. Às vezes ele fica irritado e eu também, e nem sempre as coisas correm como gostaríamos, mas o mantra geral é “faz parte”.

 

Zacarias 2007: saltar é divertido…

A vida de Venus, em geral lá no Manege Capela, é bem similar. Ela passa as horas diurnas solta com a tropa, explorando os banhados e o pequeno bosque, e convivendo com as vacas. Quando queremos montar, às vezes os cavalos vêm para nós num instante, às vezes eles nos dão um corridão de meia hora, morro acima e morro abaixo. Às vezes,  os cavalos brigam entre si e até se machucam; a própria Venus por estes dias está com um hematoma na perna, e adora lhe lhe façamos compressas de gelo, sentindo-se muito importante – desde que fiquemos por perto ao invés de deixá-la sozinha durante as aplicações, bem entendido. Que eu saiba, Venus é o único cavalo no estado de São Paulo que em 2008 competiu em provas abertas de enduro, de concurso completo e de salto. Mas ela também adora passear aos domingos nas estradinhas entre Capela, Araçoiaba e Salto, tanto para ver a paisagem quanto para comer paçoquinha na nossa curta, porém quase obrigatória, paradinha no boteco.

 

Em suma, acho que de modo geral Venus, Zacarias e seus companheiros consideram a vida deles bem interessante.  Mantê-la assim é uma de nossas metas permanentes.

 

 

criado por leschonski    20:52 — Arquivado em: Sem categoria

6 Comentários »

  1. Comentário por Romeu-Sérgio — 16 16UTC fev 16UTC PM @ 19:24

    Nada como uma boa formação ainda quando potros(a). A Vênus empre fi corajosa, estimulada a não ter medo, mesmo porque não tinha do que ter medo: sempre em companhia dos adultos, separada com a mãe sempre por perto ( cocheiras com janelas) depois de uns 7 ou 8 meses. Sempre em turma, companhia, com outros potros, na “doma”ou iniciação como prefiro chamar, sem traumas, sem pulos, sem dores: pra frente sempre. Segue uma foto dos primeiros saltos.
    Belo texto.
    R-S

  2. Comentário por Daniela — 18 18UTC fev 18UTC AM @ 9:33

    Claudia! Ler esse texto é como voltar rapidinho pro Brasil e ver o dia a dia aconter.
    Me deu muitas saudades da Vênus e do resto da tropa.
    Beijos,
    Dani

  3. Comentário por Constança — 26 26UTC fev 26UTC AM @ 10:38

    Oi Cláudia,

    meu nome é Constança, sou portuguesa, e pertenço a uma família ciradora de cavalos há muitos anos. Fico contente de encontrar uma pessoa que gosta tanto de cavalos, e que publica artigos tão interessantes. Muitos parabéns.
    Nós criamos maioritariamente cavalos lusitanos, conhece?
    E também temos cavalos Sorraia, que é uma espécie quase em via de extinção, que se pensa ser o cavalo pré-histórico ancestral ibérico, pai de muitas outras raças, como o lusitano, o andaluz, foi o cavalo que colonizou o continente americano há 500 anos atrás, muito robusto, pequeno, nervoso e com pelagem xuriosa (zebruras, cor, etc)

    Convido-vos a todos a visitar o site da nossa coudelaria: http://www.coudelariaSA.com
    Lá explica toda a história deste cavalo, bem como dos lusitanos Andrade.
    Gostaria muito que nos fizessem uma visita =)

    Um abraço

  4. Comentário por Claudia — 26 26UTC fev 26UTC PM @ 15:08

    Olá Constança,

    obrigada pelo contato e pelos elogios. :-)

    Conheço um pouco de cavalos lusitanos, há vários criatórios bons no Brasil, também sou ativa, como juiza, em provas de equitação de trabalho. O Sorraia infelizmente não conheço pessoalmente, mas já li a respeito.

    Fico honrada com o seu convite, e se possível, pretendo aceitá-lo numa oportunidade futura. Se vier ao Brasil, não deixe de entrar em contato!

    Há um e-mail teu para contato ou encontro o mesmo no site?

    Abraços, sucesso sempre com os seus cavalos,

    Claudia

  5. Comentário por Paula — 04 04UTC mar 04UTC AM @ 8:18

    Eu gosto muito de ambos os cavalos, acho que no seu caso se trata dum classico mènage à trois ;-)

    O Zac, eu ao inicio achava ele sem sal nem pimenta, confesso, mas no ultimo ano eu vejo ele de maneira diferente, ou ele mudou muito, nao sei. O que eu acho mais interessante nele è que ele è um “generoso-racional”, ou seja, nao è um “generoso-impulsivo”. IMHO. Posso errar, mas esta è a minha sensaçao.
    O “generoso - racional” na minha opiniao tem muito mais merito, porque ESCOLHE de se dar, escolhe de confiar, escolhe de se entregar.
    Seu blog è bem interessante, Claudia :-)

  6. Comentário por jordani — 08 08UTC jul 08UTC PM @ 21:50

    maravilhoso

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