CAVALOS ENTUSIASMADOS

Textos, fotos e filosofanças de Claudia e amigos sobre o mundo dos cavalos, e os mundos aos quais o cavalo nos leva.

08 08UTC mai 08UTC PM

Diário de Colina - Parte III

 

6a, 11.07.03

 

Manhã – chuva! Não muita, mas o bastante para originar um tantinho de preocupação sobre amanhã, o dia do cross. Por enquanto, estamos formais e arrumadinhos, para a fase de adestramento. Os cavalos, brilhantes, trançados e (mais ou menos) comportados; os cavaleiros, cartola e fraque (ou capacete e casaca), culotes branquinhos e estribando longo – depois de todos estes anos, continua difícil para mim imaginar que são os mesmos que amanhã estarão galopando campo a fora a 550 metros por minuto, espirrando barro e espuma, encarapitados acima das selas de salto.

 

Hoje coube a mim uma posição privilegiada, ser secretária de uma das duas juízas internacionais, cuja presença é mandatória num evento como este, chancelado pela FEI. Escrevendo as notas atribuídas por M. Janine, suíça radicada na Argentina, aos meus amigos e colegas, tenho oportunidade de aprender mais um pouco, e de observar os velhos e novos conhecidos. Sidney continua o mesmo, Álvaro cresceu em tamanho e como cavaleiro, Renato fica nas cabeças com um de seus cavalos e (quase) em último com o outro. E os cavalos, potros promissores bem como os bem madurinhos, mas que estão cheios de gás como sempre.

 

Últimas instruções antes da entrada em pista...

Últimas instruções antes da entrada em pista...

 

O evento é protegido da excessiva formalidade pelas pequenas interrupções que nos trazem de volta à realidade: garotos que passam de bicicleta entre a cerca da pista e a cabine do júri, o catador de papeis surgindo ao nosso lado bem  no meio da reprise, o motorista da ambulância conversando aos gritos com seus amigos.

 

Neste ano de 2003, o CCE   brasileiro acontece em duas frentes principais: São Paulo e Brasília. E por alguma  coincidência,  a maioria das garotas dos níveis mais avançados está em Minas. De qualquer maneira, dos quarenta competidores de hoje, uma única representa o sexo feminino. Ou melhor, entre os cavaleiros, pois entre os cavalos, a denominação “entre as éguas” seria melhor. Especialmente no “uma estrela” , a predominância de éguas é absoluta.

 

Paciência também faz parte do esporte... aqui, a égua Desert Queen, montaria de Guto de Faria, com seu tratador

Paciência também faz parte do esporte... aqui, a égua Desert Queen, montaria de Guto de Faria, com seu tratador

 

Desde a “reinvenção” do CCE brasileiro no fim da década de 80, o adestramento tem sido nosso ponto mais fraco. Hoje está evidente que a nova geração, de cavalos e especialmente de cavaleiros,tem uma base muito mais sólida de equitação de plano e trabalho e adestramento. As juízas distribuem notas boas e aceitáveis com certa prodigalidade, até mais do que seus pares brasileiros. Mas ainda há os cavalos tensos, os cavaleiros distraídos – como no resto do mundo, aliás. Um de nossos amigos sofre especialmente com seu cavalo nervoso, que rodopia, corcoveia, trolopa ao invés de andar a passo. Talvez seja porque a pista de cross esteja logo ali adiante, e o cavalinho parece perguntar o que eles estão fazendo ali, quando a parte divertida está tão perto. Ou talvez seja a barulheira do palco de shows, que está sendo aprontado para o show de uma das duplas sertanejas do primeiro time, bem ao lado da pista de adestramento. Concursos hípicos internacionais da Festa do Cavalo em Colina sempre foram mesmo um show à parte. Admirável também é a atitude de nosso amigo cavaleiro, que mesmo sabendo que aquele pequeno rodeio forçosamente o deixará entre os últimos colocados, termina a apresentação sorrindo, conversando com o cavalo, mantendo as mãos suaves e o assento quieto, e recebe uma ovação unânime dos colegas ao término da apresentação.  A “guerra de egos” que permeia tantas modalidades hípicas também existe no CCE, mas em menor escala. Talvez seja porque a dificuldade e a adrenalina dos percursos de cross uma as pessoas, tal como combatentes de uma batalha. Contra os obstáculos? Creio que principalmente contra as próprias limitações, contra os seus medos mais íntimos.

 

À tarde, nós comissários mais uma vez percorremos o cross, distribuímos os postos de cada auxiliar, escolhemos os pontos ideais para termos uma visão clara dos obstáculos sem atrapalhar os cavaleiros. Esse trabalho de fiscal é comparável com o de piloto de avião – tudo é rotina durante 99% do tempo, mas é preciso ser infalível e absolutamente seguro de si no 1% de ocorrências especiais. Qualquer detalhe poderá ser decisivo para a definição de nossa equipe nos Jogos Panamericanos.

 

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Naqueles tempos, os cavalos ainda eram mais rápidos que as máquinas digitais...

Naqueles tempos, os cavalos ainda eram mais rápidos que as máquinas digitais...

criado por leschonski    23:37 — Arquivado em: Sem categoria

03 03UTC mai 03UTC PM

Diário de Colina 2003 - Parte II

Meus caros,

 

Vejam os problemas que estou tendo com o blog Terra:

 

  • Dentro do blog, não posso formatar tipo de fonte nem tamanho do texto – é por isso que a primeira parte deste Diário de Colina saiu quase ilegível apesar de muitas tentativas; (tenho que fazer em Word, recortar, colar, etc, etc… L

 

  • O tamanho do texto permitido é mínimo, por isso tenho que soltar este post em capítulos;

 

  • Fotos demoram a carregar e não saem do tamanho que quero, e nem sempre as legendas aparecem;

 

  • Depois da atualização do post, a página demora a carregar, dá mensagem de erro, etc, etc… Neste post anterior, “Diário de Colina parte I”, reparem que não é possível enviar comentários…

 

  • Absurdo dos absurdos, este “novo” blog Terra não tem contador de acessos. Pensei que eu não soubesse localizá-lo, mas o SAC me informou que não havia mais contador, mesmo.

 

 

A razão pela qual estou escrevendo tudo isto aqui é porque, claro, escrevi tudo isso num mail ao SAC Terra, ao qual não recebi absolutamente nenhuma resposta. Talvez colocando aqui em público eles se sensibilizem. Neste ponto, apesar de ser fiel assinante Terra há seis anos, estou pensando em migrar para o blogspot ou similar. Não aconselho ninguém que esteja pensando em iniciar seu blog a fazê-lo no Terra. Caros amigos do Terra, se vocês estiverem lendo isto aqui, aconselho-os a fazerem um blog Terra vocês mesmos, e verifiquem seus níveis de irritação e frustração.

 

Na verdade, estou pensando em migrar os Cavalos Entusiasmados para outro lugar, mas por enquanto não tenho tempo para tanto. Por isso, peço aos leitores que tenham mais um pouco de paciência, inclusive quanto à legibilidade.

 

Enquanto isso, encontrem abaixo mais capítulos do Diário de Colina 2003. Provavelmente vou demorar menos a inserir os capítulos seguintes.

Abraços, boa semana a todos,

Claudia

 

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Flanel e Claudia competindo em Colina no ano anterior (2002), com o incentivo de Alusio ao fundo

Flanel e Claudia competindo em Colina no ano anterior (2002), com o incentivo de Aluísio ao fundo

 

5a, 10.07.03

 

Quanto trabalho é investido numa pista de cross-country?  Quantas horas gastas em sua construção, na atenção aos menores detalhes, em todas as revisões, medições e numerações, na correção de todos os erros?

 

Não importa quão breve seja o espetáculo, que há provas e categorias em que apenas três ou seis cavaleiros desbravam os obstáculos construídos com tanta perícia e amor ao detalhe. O course-designer cria saltos novos, reforma os existentes, aproveita a natureza do terreno e os materiais disponíveis. Depois é preciso supervisionar a equipe que constrói os obstáculos, atentando a cada detalhe que represente um problema em potencial – altura irregular, piso perigoso, quinas, pontas, pregos, arames. Cavaleiros são designados para testar os novos obstáculos, verificando se as dimensões são as corretas, se as linhas e curva são saltáveis.

 

Agora, está na hora de embandeirar os obstáculos e medir a extensão final do percurso. De novo, é certo que haverá discussões e argumentos entre os concorrentes, erros do pessoal de manutenção, dúvidas sobre a regularidade e a adequaçao técnica de alguns obstáculos. Com toda a pompa e circunstância, o júri de campo (ground jury) será convidado a percorrer o trajeto, inspecionando “de lupa” e fita métrica cada um dos obstáculos. Enquanto isso, o chefe dos comissários e sua equipe (que somos nós) precisa se virar para distribuir a turma de fiscais ao longo das três pistas que serão disputadas – as provas de uma, duas e três estrelas, com respectivamente 18, 22 e 26 obstáculos. Por enquanto, temos apenas três fiscais confirmados – e este é um trabalho para o qual voluntários são difíceis de conseguir, pois ele se resume a ficar parado num lugar distante do resto do mundo, observando os cavaleiros passando por um ou dois obstáculos (em média um a cada seis ou oito minutos), sem ser possível ver o resto da prova. É um posto solitário, tomando sol e chuva ou o que mais São Pedro mandar, às vezes por quatro ou cinco horas a fio, recebendo um refrigerante quente e um sanduíche frio na hora do almoço.

 

 

Companheiros - a estrada ainda é longa…

 

A prova estadual, que está acontecendo hoje, serve como balão de ensaio para o internacional de sábado. O adestramento é seguido pelo  salto de picadeiro, e depois pelo cross. Nas categorias de base que hoje disputam, os obstáculos são uma versão miniaturizada das “casas” que aguardarão os concorrentes do sábado. Mesmo assim, a própria falta de experiência de alguns concorrentes e de outros tantos cavalos (pois também há a categoria cavalos novos, em que cavaleiros experientes estréiam suas novas montadas) rende momentos de emoção. Refugos na água e desvios em obstáculos técnicos são comuns, alguns cavalos são rápidos demais, muitos um pouco lentos. Os erros de percurso também acontecem, bem como uma única queda.

 

E nós, Aluísio e eu e todos os outros que estávamos montando aqui na Festa do ano passado, seguimos com os sentimentos divididos: que inveja dos cavaleiros! Que alívio por não termos que saltar aquele obstáculo cabeludo! Para mim, só há uma coisa pior que saltar um percurso de cross: não saltar o mesmo percurso de cross.

 

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No CCE do mundo todo, técnica e talismãs andam juntos

No CCE do mundo todo, técnica e talismãs andam juntos

 

 

 

 

 

criado por leschonski    19:35 — Arquivado em: Sem categoria
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