06 06UTC set 06UTC PM
TOMORROW YOU CAN BE ANYWHERE
(um post bastante pessoal…)
No princípio da década de 90, eu ainda não sabia muito bem que rumo dar à minha vida – por exemplo, não tinha certeza de que ficaria no Brasil ou se preferiria viver na Europa. Trabalhando numa fazenda um tanto remota, antes dos tempos de celular e internet, foi uma época de pouco dinheiro e menos contato social – mas havia muitos cavalos, que faz com que eu me lembre daqueles anos como dentre os melhores da minha vida. Ao menos em retrospectiva, que é uma dessas características benignas de nossa memória, dita seletiva.
“E aí, vocês vêm ou vão ficar enrolando?”
- Vênus, Sete e Fayad a postos para mais um dia de trabalho.
Foto: Milena Fassina
Num dia de folga passado na cidade próxima, comprei uma calça de sarja em cuja etiqueta de papelão, destas grampeadas no bolso traseiro, havia um desenho “estilo anos 40” de um rapaz desembarcando de um avião a hélice, descolado de óculos de sol, jaqueta sobre os ombros, maleta na mão e supostamente usando a mesma calça. O slogan sob o desenho era o título deste post – “Amanhã você pode estar em qualquer lugar” (ou, “em toda parte”, como queiram). Era a frase que me impelia nos momentos de dúvida – fosse sobre a carreira, a vida em geral, ou simplesmente nos pequenos momentos do dia: aplicar este medicamento ou aquele? Este folículo vai romper hoje ou só amanhã? Esta distância é de três ou quatro lances? (Como se vê pelo teor das dúvidas, já começava a se delinear meu perfil, hoje confirmado, de veterinária equitadora.) Especialmente quando levantava o olhar na direção de um jato que passava longe, longe, tomava fôlego e me imbuía da certeza de que o melhor ainda estava por acontecer. A etiqueta estava colada na parede ao lado da máquina de escrever (sim, usávamos máquinas de escrever!!! Com papel!!!) e era para ela que erguia os olhos quando perdia a inspiração entre uma linha e outra dos textos e das cartas que escrevia. Veterinária-equitadora-escritora.
. neste período, também estreei minha máquina fotográfica nova, experimentando os recursos que ela oferece, como aqui no CCE do RC Mec de Pirassununga…
De lá para cá, saí do Brasil (mas sempre voltei) numa dezena de viagens internacionais – menos do que os grandes executivos, mais do que muita gente. Uma à Ásia, duas aos EUA, as demais à Europa. Apenas duas pagas do meu próprio bolso, as demais, de diversas maneiras, relacionadas ao fato de eu ser “uma pessoa do cavalo que fala outros idiomas”. Menciono isto para dizer a toda esta garotada que sonha com o grande mundo do cavalo que seus sonhos podem sim se tornar verdade. No entanto, é preciso que você se qualifique, se atualize sempre, e tenha capacitações secundárias além da sua “profissão principal”. E pode demorar um pouco mais de tempo do que você imaginava. Da minha perspectiva atual, os últimos vinte anos parecem ter passado num tirão só, mas se lá atrás me tivessem dito que iria demorar tudo isso, quem sabe eu teria desanimado. - Ou, quem sabe, buscado um foco mais concentrado, trabalhado mais duro, para abreviar este tempo? E, ainda quem sabe, talvez esta dúvida seja uma das razões para este post – quem sabe graças a ele algum leitor chegue lá em dez anos apenas??
Ser profissional do cavalo no Brasil tem desafios únicos tanto quanto vantagens incomparáveis. Conseguimos montar ao ar livre em todas as estações do ano; temos áreas vastas e mão-de-obra acessível; temos grandes criatórios das mais diversas raças. Tudo isto pode ser expresso como o outro lado da moeda: certo descaso com os detalhes que fazem diferença; pouca qualificação profissional dos trabalhadores da área; ênfase exagerada na quantidade, em detrimento da qualidade individual. E com tudo isto, um dia decidi que seria aqui, neste país que eu me esforçaria para trabalhar com os cavalos e com as pessoas que os amam. E assim tem sido.
É um privilégio morar e montar no Manege Capela…
… e assim se passaram os dois últimos meses. Em princípio de julho, fui à Alemanha numa viagem muito bacana, e de tanto que queria escrever a respeito dela aqui no blog, acabei não escrevendo nada: não achava o tom, o ponto de onde começar. Depois fiquei escrevendo a respeito desta viagem, e das fotos nela produzidas, para a Paula. E começaram as aulas, houve provas da equitação de trabalho, um curso de delegado técnico de CCE, logo em seguida participei de um enduro em Pirassununga… e o blog foi ficando lá longe, coitadinho, esquecido para trás…
Apenas uma amostra das muitas fotos espetaculares que a Paula tirou na Alemanha, em julho. No futuro conto mais a respeito…
E estamos em setembro! Agora se aproximam o Encontro Internacional de Horsemanship na UC, o Congresso Mundial de Veterinários de Equinos, e mais viagens, mais cursos, mais competições a cavalo… e ainda não achei o tom que queria para escrever sobre minhas viagens de julho, e meus novos aprendizados, na vida a cavalo e na vida a pé, deste segundo semestre do ano, que também já anda pela metade…
Então resolvi que vou colocar este post no ar assim, agora, meio sem pé nem cabeça, para que o blog não feneça por decurso de prazo. E todas as idéias, os apontamentos que fiz, as fotos bacanas que tirei, vou colocando no ar pouco a pouco, sem muito critério. Espero que vocês gostem. E lembrem-se: amanhã poderei estar em qualquer lugar. E vocês também. De preferência, perto de cavalos.
………………..
And though you want them to last forever
You know they never will
And the goodbye makes the journey harder still
(livre citação de “Oh Very Young”, Cat Stevens)





criado por leschonski
23:34 — Arquivado em: 

Comentário por Rubens B. — 09 09UTC set 09UTC PM @ 17:30
Cláudia,
Esta postagem foi ótima. Tomorrow you can be anywhere, me inspirou bastante desde o mensseger :).
Comentário por Antonio — 10 10UTC set 10UTC PM @ 19:16
Podia-me dar o seu e-mail(messenger), para eu tirar umas duvidas sobre cavalos?
Obrigado
Comentário por Paula — 13 13UTC set 13UTC AM @ 7:18
http://www.youtube.com/watch?v=KOvp8Arzq2c
Maravilha, tinha esquecido, obrigada Claudia por me recordar esta cançao!
Vou trabalhar amanha mesmo as suas fotos da Alemanha, btw, eu tb tenho tido uma coisa atras da outra e o tempo passa rapido…
Comentário por Débora — 20 20UTC set 20UTC AM @ 0:09
E estaremos lá no WEVA.
Abraços, Cláudia!
Comentário por Patricia Borges C da Silva — 30 30UTC set 30UTC AM @ 9:54
As coisas como são… me encontro exatamente onde você esteve em 90.
A diferença é que não sou veterinária, e sim bióloga, terminando a graduação e
não posso escolher aqui ou Europa. Minhas escolhas estão em que mestrado fazer, que
laboratório de pesquisa procurar, coisas assim. Sempre amei cavalos desde criança
(hj tenho 22 anos) e infelizmente não estou conseguindo ver como aliar cavalos e
profissão!! Estou dando tiros para todos os lados, mas é complicado…
Aqui no Rio não sei como vou fazer isso, por isso estou pegando o contorno óbvio
de estagiar em áreas normais de Biologia e pagar com isso meu cavalo, minhas aulas…
O que me deixa frustrada é a falta de oportunidade, de capacitação, é como vc falou…
tudo ajuda ao Brasil a ser a grande nação do cavalo, mas o que prejudica é a falta de
incentivo, de instrução.
Desculpa o desabafo, mas a culpa é sua por levantar a bola! Eu só chutei!
Muito bom o seu blog, e sucesso nas suas empreitadas!
Abraços, Patricia.
Comentário por leschonski — 30 30UTC set 30UTC AM @ 10:19
Oi Patrícia -
obrigada pela mensagem. Tudo que você falou é verdade, mas eu acredito que aquilo que a gente quer mesmo para a nossa vida, acabamos tendo condições de realizar. Claro que isso implica em fazer escolhas (abrir mão de outras coisas), e pode levar tempo. Mas um dia você se orgulhará do fato de ter tido que escolher - isso é que valoriza suas realizações.
Abraços, mande notícias sempre,
Claudia
Comentário por Patricia Borges — 30 30UTC set 30UTC PM @ 12:30
Cláudia, desculpe mandar por aqui a pergunta, mas você sabe se empresas como
Tortuga, Vetnil, Purina e afins contratam biólogos? Cadastrei meu currículo em
algumas delas, mas não sei se devo esperar respostas positivas por conta disso.
Outra coisa, cursos de pós-graduação (lato e stricto sensu) aqui no Brasil, vc sabe
onde tem? Conheço alguns na UFPR, sei da Universidade do Cavalo, mas não conheço
nenhum outro.
Obrigada pela atenção, e no caso de precisar de uma bióloga, pode mandar e-mail!
Comentário por Claudia — 06 06UTC out 06UTC PM @ 15:44
Oi Patrícia,
tudo bem? Estou com muito trabalho estes dias, complicado falar por aqui.
Se quiser, por favor mande um e-mail com seu CV para leschonski@terra.com.br.
Abraços, aguardo contato,
Claudia
Comentário por Karime — 24 24UTC out 24UTC AM @ 11:08
Cláudia
Li esta postagem sua já faz algum tempo e adorei o “tomorow you can be anywhere”.
Parabéns por estar onde você está, fazendo o que vc está fazendo e sendo quem vc é!!!
Abraço
Karime