15 15UTC out 15UTC PM
AMOR E COMPETÊNCIA
Oi amigos,
Quem me conhece sabe o quanto prezo e defendo a boa atitude profissional, tanto no mundo do cavalo como nas outras áreas. Sempre que o empirismo (ou charlatanismo) ameaça tanto profissionais quanto clientes, a primeira coisa ameaçada é a segurança e o bem-estar de inocentes – em especial, de crianças e animais sob nossa responsabilidade.
Há algum tempo, soltei um desabafo a este respeito num dos fóruns virtuais de que participo, e tive algumas respostas bem interessantes, que, com a licença dos autores, gostaria de compartilhar com vocês.
No fim, é sempre a mesma coisa – usem o bom senso. Tratem os outros como vocês gostariam de ser tratados. Não esqueçam de que “não existe almoço grátis” – ou seja, pelo menos neste contexto, não existe pó de pirlimpimpim. Fico me perguntando até que ponto esta nossa atitude mágico-ingênua perante a vida é alimentada pelos profissionais de marketing, que ficam nos instilando idéias do tipo “o cartão de crédito realiza seus sonhos”, “cerveja faz você ser uma pessoa descolada”, “ter o carro do ano faz você ser um cara gostoso”.
Leiam, pensem, mandem suas opiniões! J
Abraços,
Claudia
Claudia e Athora… a minha cara braba é por causa do vento frio!!
FOTO (c): LU VARGAS
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O bom cavalo atleta tem no mínimo três dimensões: física, técnica e emocional, que precisam ser abordadas tanto nas sessões de treinamento quanto na rotina diária do cavalo (manejo). Condicionamento físico e treinamento técnico se complementam, mas um não é substituto para o outro. E condicionamento físico precisa ser feito com muito critério para não causar lesões. Condicionamento físico feito por pessoas não-qualificadas (excesso de trabalho, pouco trabalho, piso inadequado, abuso de recursos tais como andadores mecânicos, natação, trabalho de guia, picadores que não sabem montar, etc…) ainda que “pareça” atender aos aspectos físicos, pode causar lesões, além de ser PERIGOSO para o aspecto emocional – e poder prejudicar a parte técnica. Por exemplo, se um cavalo tiver tendência a pescoço invertido, o condicionamento físico sem levar em conta este aspecto deixará o “pescoço errado” cada vez mais fortalecido, e em consequência, o posicionamento correto será cada vez mais difícil e dolorido para o cavalo, entrando-se num círculo vicioso cuja correção poderá levar anos, se é que será possível.
É complicado? Claro que sim. Por isso precisamos de pessoal qualificado. Vou citar um exemplo de outra área que me ocorre com frequência, creio que cada um terá exemplos similares em sua respectiva profissão.
Como veterinária tendo dedicado 30 anos de vida e de profissão aos cavalos, sinto-me mais ou menos ofendida toda vez que alguém diz algo do tipo - “ah, eu perguntei pro balconista e ele mandou dar essa injeção aí” - “pra castrar chamo o prático que é muito melhor que veterinário” - “preciso urgente uma informação por e-mail, pois não tenho condições de chamar o veterinário”… e por aí vai. Toda vez que alguém está fazendo pouco caso do conhecimento técnico específico, está como que chamando de burras as pessoas que são profissionais especializados no assunto. (Claro que quanto mais qualificado profissionalmente, e com mais recursos financeiros for o meu interlocutor, mais eu me irrito… Uma coisa é gente que não tem condições “se virar como pode”, na base do prático, etc.; outra são pessoas graças a Deus muito bem de vida se recusarem a contratarem serviços profissionais de qualidade para seus animais. E se eu dissesse, por exemplo, para um engenheiro - “ah, isso é frescura. Vou chamar o Zé Pedreiro que faz um serviço tão bom ou melhor e cobra menos da metade!” ??)
Aqui perto de casa existe um pequeno haras compartilhado por dois sócios. Um deles contratou um aluno nosso, formado gestor em equinocultura, cuidar de sua metade do plantel. Este rapaz trabalha os cavalos diariamente, segundo princípios de adestramento clássico. O outro sócio conta com um rapaz simples, semi-analfabeto, que tem boa vontade mas não entende nada de cavalos. Por exemplo, este “tratador” tranca os cavalos nas baias “para não sujar”, dá a cada cavalo oito quilos de ração por dia para substituir o feno que acabou, e ainda aumenta a ração nos fins-de-semana porque o patrão está chegando. O “trabalho” que ele faz com os cavalos se limita a galopar quarenta minutos por sessão, o mais rápido possível, no estradão de terra batida ou no redondel.
Os cavalos do nosso ex-aluno estão melhores, mais bonitos e mais comportados. Resultado: o outro sócio reclama (”por que os dele estão melhores do que os nossos?”) e ao mesmo tempo diz que o que o sócio faz com os cavalos “é frescura”. Diz isto para quem estiver por perto, sem a menor cerimônia, e sem se dar conta de que está chamando de “burras” todas as pessoas que se dedicam a aprender tudo que há sobre cavalos, em teoria e prática, entre estas coisas, aprender a montar. (Pois neste raciocínio, se não fossem burros, não precisariam aprender e estudar tudo sobre cavalos, já que qualquer peão sabe estas coisas de nascença…)
Se fosse tão simples, não haveria cursos e livros e etc., etc., etc., a respeito, não é mesmo? Valorizar nossos profissionais é o mínimo que podemos fazer.
Muitas vezes, ouço também que aqui no Brasil não há profissionais qualificados, especialmente em determinadas regiões. O curioso é que acabei de mandar à Alemanha, para trabalho remunerado, dois outros gestores recém-formados, para atuarem como cavaleiros-tratadores-picadores. Lá eles são requisitados, e aqui não conseguem trabalho… pelo menos trabalho que os valorize, incluindo o ponto de vista financeiro… Por aqui é complicado achar quem queira pagar mil reais por mês para um equitador. Ou, quem queira investir para formar um. Investe-se na genética dos cavalos, como se fossem carros zero km, que saem prontos de fábrica.
Outra história que já contei muitas vezes – sobre um grande criador que tinha diversos cavalos de 50 ou 100 mil dólares, importados, e reclamava porque seu cavaleiro principal tinha a desfaçatez de exigir mil dólares mensais de salário. Este cavaleiro tinha dois auxiliares os quais ele ensinava a montar, que ganhavam um salário mínimo cada um, e não tinham perneira (bota). Pois o criador ficou bravo quando ousei sugerir que talvez a empresa devesse comprar as perneiras para eles (montavam de oito a dez cavalos por dia cada um), ao invés deles terem que pagar por elas de seu próprio salário. Este mesmo criador ficava bravo quando seus cavalos não pulavam zero faltas nos concursos, pois afinal ele tinha a melhor genética do mundo, e era obrigação dos cavaleiros fazer zero!!!
Entendo que a respeito deste tópico haverá tantas opiniões quanto pessoas. Estou apenas apresentando o meu ponto de vista.
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Vejam trechos de algumas das respostas que recebi:
Acredito que a maioria das pessoas não sabe o verdadeiro significado de se ter um animal de estimação, montaria, companhia, etc., todo mundo se preocupa com o quanto me custa manter um cavalo, respondo esta pergunta com muita frequência, mas nunca perguntaram o quanto estou feliz??, satisfeito??, o quanto me faz bem??
Acontece com frequência, as pessoas compram animais almejando somente o melhor da relação, o camarada só pensa em cavalgar, não se vê limpando uma cocheira, é cômodo pagar pouco pelo serviço independente da qualidade, para ele, afinal, isso é só um cavalo.
Sobre a desvalorização da mão de obra qualificada, isso é geral e faz tempo, tem anúncios de emprego oferecendo R$ 1200.00 para um profissional formado em administração com inglês fluente, nós brasileiros temos a mania de desvalorização, almejamos vender o nosso trabalho, produtos e serviços a vida inteira por preço de banana, para quem sabe no final da vida ter a condição de comprar um carro importado.
Fernando
O mesmo acontece com a doma de potros… impressionante ver que as pessoas não percebem que a iniciação de um potro é a fase mais importante para o futuro. Enquanto isso, na Europa e EUA, o normal é que a doma de potros para profissionais e amadores seja feita por profissionais especializados, que trabalham apenas com isto.
Uma doma bem feita não pode custar menos do que 1000 reais por mês. Muitos agora devem estar achando o valor absurdo, mas é o preço real de uma doma lá fora e aqui também deve ser. Enquanto isso, domadores de 1 salário mínimo (pela doma toda…!) saem acostumando e amansando cavalos por aí e os proprietários pagando e concordando… e depois… todos têm problemas com seus cavalos - desde disparar até cavalos que simplesmente não deixam seus cavaleiros montar… e aí a recuperação custa caro.. ou… troca-se o cavalo, o que é pior ainda…
Vejo no Brasil um problema maior do que simplesmente esses que você citou - as pessoas querem soluções sem terem ao mínimo curiosidade. Querem resultados a qualquer preço, desde que esse preço seja baixo…
Tudo isto é tão simples que todos complicam… seria tão mais fácil estudar e conhecer mais… seria tão mais fácil saber que quando falamos em economia no mundo dos cavalos não estamos falando em escolher o mais barato, mas sim o melhor que seu dinheiro possa comprar…
Ser profissional do cavalo no Brasil é tão bom ou ruim, fácil ou difícil como lá fora, com a diferença de que aqui deveríamos ser escolhidos por qualidade e conhecimento, e não pelos preços que são praticados…
Aluisio
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A mania de brasileiro de levar tudo no “jeitinho” não ocorre só na sua profissão. Sou corretor de imóveis; quantas vezes já não mostrei imóveis, para depois o interessado procurar o proprietário para fazer negócio direto. A minha satisfação é quando descobrem depois de adquirido e pago, que o imóvel tem dívidas, está penhorado pela justiça do trabalho, ou está em inventário….
E quando estas mesmas pessoas tomam prejuízos em conseqüência dos seus atos, muitas vezes por orgulho dizem:
- Se eu tivesse pagado um profissional o desfecho seria o mesmo, e ainda teria morrido com uma grana a mais…
E no seu caso às vezes os maiores prejudicados são os animais que não pediram para ter o dono que tem.
Paulo
Milena e Fayad… a prática e o amor pelo detalhe levam à perfeição!!
FOTO (c): LU VARGAS
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O menosprezo ao trabalho especializado não é “privilégio” apenas de quem trabalha com cavalos. Ocorre em todas as profissões!! Sou advogada e canso de ver empresários chegarem ao escritório do advogado com um caso perdido, querendo que o advogado faça milagre (e se não fizer o advogado é ruim), porque lá atrás deixaram justamente de consultar um advogado para fazer um contrato bem feito (pensando que estavam economizando), por exemplo.
Sem contar os milhares de “advogados” (se é que podemos chamá-los assim) que se “vendem” por uma miséria, e se você quiser cobrar um valor justo pelo seu trabalho, vai perder o cliente, porque na próxima esquina vai ter um rábula que vai cobrar bem “baratinho” (e que provavelmente vai acabar piorando ainda mais o problema).
Eu acredito que a máxima de SEMPRE, que vale em todas as áreas, é: É MELHOR PREVENIR DO QUE REMEDIAR!!
Não faz muito tempo que entrou em vigor a lei que PROÍBE que farmácias vendam remédios sem receita médica… era farmacêutico e até balconista de farmácia receitando todo tipo de remédio a quem quisesse economizar o dinheiro da consulta médica! E se com a saúde de pessoas se agia assim, imagine com a saúde de animais!!!
É uma questão de (falta de) cultura. E o melhor a ser feito, acredito que sejam campanhas de conscientização que, no caso dos advogados, cabe à OAB, e dos veterinários, ao CRMV (e cabe aos advogados e veterinários pressionarem seus respectivos órgãos de classe para que façam isso).
Emilly
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Quando fui convidada a assumir uma pequena hípica dentro de um condomínio, procurei preparar minha pequena equipe com cursos ligados a cavalos. Logo de cara o dono do condomínio não quis nem saber o valor dos cursos, nem me ajudou a pagar…
Minha equipe na época eram um jardineiro e um rapaz que trabalhou sua vida toda com vacas! Até ele aceitar que o aparelho digestivo da vaca é diferente daquele do cavalo foi muito duro! Um dia, esse retireiro me perguntou por que eu me preocupava tanto em trabalhar os animais no picadeiro, se não era melhor soltar no pasto! Confesso que foi uma ducha fria… Fiquei me perguntando se todo meu esforço estava sendo aproveitado ou se era melhor desistir….
Mais tarde consegui que a Matheis Borg fizesse uma parceria comigo num curso, onde vieram todos os ferradores da região, quase 30! Mas quando abri o curso para outros trabalhadores de fazenda, os donos achavam “frescura”, ou temiam que fossem perder o empregado!!!!
Patrícia
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Agradeço aos amigos que partilharam suas opiniões comigo, e reitero o convite para que todos se manifestam!
Claudia
Às vezes, se você precisa fazer a pergunta, não irá entender a resposta…
FOTO (c): PAULA DA SILVA



criado por leschonski
12:15 — Arquivado em: 

Comentário por Edson Martins Scarpelli — 17 17UTC out 17UTC PM @ 19:46
Claudia, uma vez em uma aula perguntaram-me: “- Professor o que é ciência.”, a resposta foi rápida, “-É conhecimento.” Apenas depois mais tarde, com calma, é que meditei em minha simples resposta. Vou explicar melhor, o conceito retirado do “AURÉLIO” define bem: 1-Conhecimento; 2- Saber que se adquire pela leitura e meditação; instrução, erudição, sabedoria; 3- Conjunto de conhecimentos socialmente adquiridos ou produzidos, historicamente acumulados, dotados de universalidade e objetividade que permitem sua transmissão, e estruturados com métodos, teorias e linguagens próprias, que visam compreender e, possivelmente, orientar a natureza e as atividades humanas; 4- Campo circunscrito, dentro da ciência, concernente a determinada parte ou aspecto da natureza ou das atividades humanas, como, p. ex., a química, a sociologia, etc; 5- A soma dos conhecimentos humanos considerados em conjunto; 6. Popular: habilidade intuitiva, sabedoria.
Concluo simplesmente que é o resultado do “APRIMORAMENTO” e “DEDICAÇÃO”; lembremos agora, é somente minha opinião. Não considero aprimoramento ou dedicação sinônimos de produção, digo isso no sentido capitalista da palavra, onde crescemos com a pressa de ter, ou que não conseguiríamos ser alguém se não produzimos ou ganhamos, quase sempre. Assim, então, não sobra tempo para APRENDERMOS. Essa visão pode dar a entender que fugi ao tema, mas a considero o centro do problema. A FALTA DE CIÊNCIA, produto do mais caro e valorizado por um país citado como “1º Mundo”. Para ser mais claro, falo de dentro de nossas casas, da criação que submetemos nossas crianças, dos poderes destinados às nossas atitudes, do dia a dia e, do maior valor que damos ao ter, assim, culturalmente, nosso mercado cospe nele, “O CONHECIMENTO”. No Brasil nosso maior problema é que não premiamos o mérito e, pior, qualquer conhecimento adquirido por um ser humano. Falo isso de uma maneira geral e não sobre exceções. Aqui isso NÃO TEM VALOR ($) ALGUM. Não falo do conhecimento que “trava”, mas o que caminha, o que promove discussão e não o que apodera e restringi, mas sim o que cria e evolui e, tudo dependente de aptidões e opiniões individuais relativas, sem egocentrismo, sujeitos às críticas que auxiliam para “caminhar”. Conquista que demora anos e anos. Posso parecer falar de coisas que não vemos, mas acredito que se realmente haverá evolução humana, será somente se esse valor não for perdido. Bom, simples assim. Cobro caro. Pelo menos é o que os proprietários de “animais” falam sempre pra mim. E pago caro por isso, muitos somem ou apóiam o trabalho escravo e sem resultados dos recém formados ou práticos, resumindo sem ciência. Perco muitos clientes. Quantas vezes já nos questionamos sobre isso? Mas evito emitir opinião sem escutar e estudar o caso, é o que não cansamos de repetir: “Cada caso, um caso.”. Um exemplo, quando me falaram em equoterapia, fui saber mais fazendo cursos e estudando antes de emitir qualquer opinião. Assim penso, assim sou. Penso que o “empirismo” esta nos procedimentos inconscientes, sempre realizados de maneira rápida e impensada, um padrão muitas vezes inevitável ao animal ser humanos e pior, quando acerta, o mercado promove. O mercado chama isso de: “TRATAMENTO DE EMERGÊNCIA”. Quem é clinico ou cirurgião há muitos anos sabe bem o que digo, aprendemos isso na vida a duras penas quando não salvamos quem queríamos. Muitos que vivem sobre os parâmetros do capital, o mercado cobra mais tarde: “Gaste o que tem nas suas emergências, familiares ou médicas preferencialmente”. Infelizmente a constatação de tanta discussão e direcionamentos errôneos é simples: 1º Vivemos sem ciência porque demanda tempo e trabalho e aqui onde vivemos isso não rende dinheiro; 2º Falta afeto (alma presente) no que fazemos e por isso muitos morrem cedo; 3º Finalizo que falta muita autocrítica, pois é salutar tê-la, para irmos em frente para qualquer evolução. Simples assim. Quero por fim, Claudia, felicitá-la por promover ciência e discussão.
Beijos,
Edson Martins Scarpelli.