CAVALOS ENTUSIASMADOS

Textos, fotos e filosofanças de Claudia e amigos sobre o mundo dos cavalos, e os mundos aos quais o cavalo nos leva.

13 13UTC mar 13UTC PM

Gestor em equinocultura - sim, esta profissão existe!

Olá amigos,

 

Esta semana, tive a honra de ser a paraninfa  da turma de formandos do curso de Gestão em Equinocultura da UNISO (Universidade de Sorocaba), no qual sou uma dos docentes. Foi uma cerimônia emocionante; os profissionais do cavalo que naquela noite iniciaram uma nova etapa de vida certamente terão muito a contribuir para que cavalos e pessoas do cavalo tenham vidas mais felizes e mais produtivas.

 

Na ocasião, fui convidada a proferir um pequeno discurso, o qual foi recebido com aplausos generosos. Gostaria de compartilhá-lo com vocês, na esperança de que ajude a servir de inspiração para tantos outros amantes do cavalo que dão duro para que sua paixão se torne modo de vida.

 

Para saberem mais sobre a profissão de gestor em equinocultura, consultem o site www.equinocultura.com.br. O site ainda está em construção, mas já tem muitas informações interessantes. Aliás, ele também está a caminho de se tornar ”bolsa de empregos” para profissionais em geral da indústria brasileira do cavalo.

Abraços,

 

Claudia

 

P.S.: Como meus amigos sabem, o “namasté” já vem sendo usado por mim há anos, antes dos fenômenos globais recentes… J

 

"Horizonte" - (c) da imagem: PAULA DA SILVA

 

 

  

 

Queridos formandos,

 

É com muita honra que me dirijo a vocês nesta noite. Talvez seja um alívio para vocês o fato de que esta seja a última vez (quem sabe?) que me dirijo a vocês como professora. Mas podem ficar tranquilos, pois foram-me concedidos apenas cinco minutos.

 

Creio que vocês estão recebendo a oportunidade rara e maravilhosa de conduzirem uma vida plena, realizada e entusiasmada. Ao se tornarem profissionais do cavalo, vocês têm a chance de ganhar a vida fazendo aquilo que mais gostam. Quantas pessoas que vocês conhecem têm semelhante privilégio? Vocês irão acordar de madrugada com o cheiro doce do feno recém-cortado, a luz nascente recortando os obstáculos do picadeiro, as éguas chamando seus potrinhos. Pensarão com um sorrisinho talvez de compaixão, talvez de superioridade, nas pessoas que naquela mesma hora estão presos nos engarrafamentos e nas filas.

 

Procurem nunca esquecer daquilo que os conduziu ao curso de gestão em equinocultura: seu amor pelos cavalos, o amor que, em cada um de vocês, nasceu quando eram crianças. Nunca deixem esta criança apaixonada por cavalos envelhecer e morrer. Não permitam que esta criança se torne mais um adulto medíocre, desmotivado e acachapado pela mesmice da vida diária. Vivam cada dia com os seus cavalos como se ele fosse ao mesmo tempo o primeiro e o último.

 

Por que trabalhar com e para os cavalos é tão importante? Porque os cavalos fazem de nós  pessoas melhores. Apenas aquele que traz à tona o seu melhor, o dia todo, todos os dias, persistirá e sucederá no mundo dos cavalos.

 

Ronald Duncan certa vez escreveu:

 

Onde no mundo o homem pode achar

Nobreza sem orgulho,

Amizade sem inveja,

Ou beleza sem vaidade?

 

Aqui, onde graça é por músculos temperada

E a força, por gentileza confinada.

 

Ele serve sem subserviência,

Ele lutou sem inimizade.

Não há nada mais poderoso,

Nada menos violento;

Nada tão rápido,

Nada mais paciente.

 

O passado do mundo foi carregado em seu dorso.
Nós somos seus herdeiros; ele é nossa herança.

 

O cavalo.

 

 

 ”Ready to work” - bico-de-pena

 

Graças à sua ética pessoal e sua formação profssional, vocês serão líderes, instrutores, conselheiros das pessoas à sua volta. Refletindo em si a pureza, a doação incondicional e a integridade absoluta dos seus cavalos, vocês  despertarão características similares nas pessoas à sua volta. E serão lembrados, e quiçá um dia amados, por isto. Daqui a trinta ou quarenta anos, olhem para os espelhos à sua volta – sua família, sua casa, sua empresa, seus cavalos – e vejam se o mundo se tornou um lugar melhor graças ao seu amor e à sua dedicação. Se assim for, mandem-me um e-mail contando. J

 

O mundo seria um lugar pequeno e triste se o Equus caballus, há milhares de anos, não tivesse se doado a nós. Cuidar dele em retribuição é o mínimo que podemos fazer, e estar com ele encerra sua própria recompensa.

 

Haverá, por certo, momentos de dificuldade e de desânimo. Nestes instantes, experimentem fazer isto: procurem o cavalo mais próximo e olhem para ele como se nunca o tivessem visto antes, com a maravilha e o encantamento dos olhos de uma criança. Lembrem-se que aquela criatura, desde que vocês se conhecem por gente, representa o ápice dos seus sonhos e ambições.

 

Sorriam para este cavalo, admirem a disposição de seus pêlos, a luz de seus olhos, o calor de seus músculos e a firmeza de suas pernas. Vocês fizeram por merecer a companhia dele. Peçam-lhe permissão para que ele compartilhe com vocês sua doçura e sua força, e ele o fará.

Que assim seja, ao longo de suas vidas. Sejam felizes.

Namasté!

 

Entardecer no Haras Água Boa (RN) - Foto (C) by PAULA DA SILVA

 

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10 10UTC mar 10UTC PM

NOVOS LIVROS SOBRE CAVALOS

 

Caros amigos,

 

Pois é, fevereiro já vai longe e os compromissos se acumulam, graças a Deus. Há muitas novidades para compartilhar com vocês – o início do campeonato brasileiro de Equitação de Trabalho, onde trabalhei no último fim-de-semana; minhas visitas a Ubatuba (SP) e Cachoeiras de Macacu (RJ), trabalhando com e para amigos cavaleiros (devo ser a única pessoa que consegue passar por Ubatuba e RJ na semana do carnaval, e não ver nada de carnaval nem de praia…); o acompanhamento dos amigos alunos da UNISO, tanto os formandos que procuram emprego quanto os estudantes em busca de estágios; planos de viagens, cursos e livros… e por aí vai.

 

Já devem ter percebido que por estes dias os cavalinhos andaram meio em segundo plano para mim – infelizmente. Todos sendo trabalhados pelos valentes estagiários, mas  por mim acompanhados apenas à meia-distância. Não bastasse tudo isso, Zacarias está meio claudicante desde semana passada – e olha que nem tenho trabalhado ele! Enquanto o Santo Dr. Marco Antônio não chega para examinar (é ele que preserva a funcionalidade dos meus cavalos desde 1996), Zaca está só na base dos passeios a passo. E vai engordandinho…

 

Eu mesma dei uma paradinha nos treinos de corrida a pé (sim, faço isso, embora em muito baixa velocidade e intensidade), mas agora estou retomando. E há tempos planejo o post correlacionando as experiências da corrida a pé com o treinamento e condicionamento de nossos cavalos.

 

Enquanto este novo texto não sai, gostaria de divulgar alguns dos livros escritos pelo meu amigo, o hipólogo Paulo Guilhon. São excelentes iniciativas neste nosso Brasil ainda carente de cultura e erudição equestres, atributos que o  caballero Guilhon tem de sobra. J Leiam e confiram!

 

Abraços, até a próxima,

 

Claudia

 

././././././././././

 

 

O hipólogo Paulo Guilhon, autor do livro “Doma Racional Interativa”, publicou recentemente mais duas obras: “Ndzinji - A Escola Chamada Cavalo” e “Educação Profissional de Cavalariços”.

 

 

Ndzinji - A Escola Chamada Cavalo

SINOPSE

A obra é um romance cavaleiresco fictício de caráter filosófico; uma metáfora da busca do homem pelo encontro consigo mesmo. É também um acervo de conhecimentos relativos ao universo das ciências e artes eqüestres, reunidos ao longo de quarenta anos de vivências com cavalos e entregues num contexto de ficção com sabor de aventura romântica.

O enredo narra a história de um jovem que sofre acidente durante competição esportiva e entra em estado de coma profundo. Nessa condição, o personagem passsa por crises existenciais, e sua consciência pede socorro. Ao fazer esse pedido, é transportado para outro plano dimensional e se vê diante de um Conselho formado por treze membros. Ali ele é convidado a ingressar numa escola onde o instrumento utilizado para transmissão das lições é o universo eqüestre. Os membros do conselho são mestres que, ao longo da obra, orientam o aprendiz.

A relação homem/cavalo é o pano de fundo para a projeção do processo de autoconhecimento vivenciado pelo personagem no decorrer do livro. Nessa relação o cavalo é o espelho utilizado para o aprendiz enxergar a si mesmo. A autotransformação fica sugerida como conseqüência do trabalho interno proposto pela Escola.

 

Educação Profissional de Cavalariços

SINOPSE

“Educação Profissional de Cavalariços” sintetiza a experiência e reflexões do autor sobre o tema. O livro, apesar de suas apenas 56 páginas, contém acervo de considerações colhido em duas décadas de trabalhos realizados no campo da formação e qualificação profissional de mão de obra destinada à equideocultura. A obra descortina aos leitores, realidades vivenciadas ao longo do seu envolvimento com essa atividade e convida criadores e adeptos do cavalo a análises dirigidas para as questões fundamentais que dão respaldo aos processos de criação, manejo e treinamento desses animais.

 

Os livros podem ser solicitados pelo e-mail pguilhoncavalos@yahoo.com.br .

 

Paulo Guilhon executando piaffe com Tobold Função, Puro-sangue Lusitano

 

criado por leschonski    14:16 — Arquivado em: Sem categoria

07 07UTC fev 07UTC PM

VENUS E ZACARIAS: PEQUENOS RETRATOS

 

Hoje gostaria de falar um pouco mais sobre os dois cavalos que na atualidade são meus companheiros mais constantes e importantes em passeios, treinos e competições: Venus e Zacarias. Eles sempre são mencionados por aqui, mas talvez vocês queiram conhecer melhor estes que são “cavalos entusiasmados” por excelência.

 

Venus tem boa família e boa criação (born and bred, como dizem os ingleses), o que se reflete em sua personalidade equilibrada e seu caráter impecável. Ela não apenas gosta de “suas” pessoas, mas faz questão de protegê-las. Ela não tem dúvidas de que seja a égua alfa de seu grupo – grupo que inclui não apenas os cavalos e as pessoas, mas até as vacas e os bezerros do sítio onde ela mora. Certa ocasião, dois cachorrões da vizinhança acuaram um dos bezerros recém-nascidos, que a mãe havia escondido numa touceira de mato. O bezerro tentava fugir e a vaca mugia sem saber o que fazer, e os cães, quem sabe, teriam encurralado e mordido o bichinho até matá-lo. Eis que Venus veio a galope, orelhas para trás, cascos pelos ares e pescoço no chão, e botou os cães para correr. O interessante é que apesar de soltos no mesmo pasto, nossos cavalos e a vacada costumam se ignorar cordialmente uns aos outros. Mas na hora H, Venus ficou do lado de quem precisava de socorro. Ela também é o único dos cavalos que (quase sempre) vem ao nosso encontro no pasto quase com alegria. Sua curiosidade e inteligência e apetite a fazem abrir porteiras, desatar nós de cabresto, soltar os outros cavalos, abrir o curral dos bezerros e invadir a cocheira do Flanel para roubar-lhe a papinha geriátrica. Se está atada no cabresto e entediada, costuma tomar nos dentes e jogar no chão tudo que está ao seu alcance, como uma criança que aperta todos os botões do elevador para ver se algo interessante vai acontecer.

Vênus 2005: estreando no enduro em alto estilo (Riviera Paulista)

 

Zacarias é um cavalo diferente, ao qual quase todos que o conhecem – independente de gostarem dele ou não – atribuem uma personalidade especial. Enquanto a maioria dos cavalos mostra indiferença aparente aos seres humanos – seja por apatia, reserva, medo ou noções da própria superioridade – Zacarias é muito claro em expressar sentimentos e opiniões. Ele ouve minha voz de longe, levanta a cabeça e às vezes vem ao meu encontro, ou até me segue no piquete. Às vezes oferece a cabeça para um abraço, e pressiona a testa contra o meu esterno, ficando imóvel e de olhos fechados. Quando acho que já está bom e tento me desvencilhar, ele continua procurando minha proximidade, como se não quisesse me deixar ir. Aprendeu meio por iniciativa própria a me seguir na pista e sobre pequenos obstáculos, e também a ficar parado no lugar em que se encontra, quando solicitado. (Claro que tudo isso não funciona em 100% das vezes, mas aí também não teria graça…) Ao mesmo tempo, ele é antipático, mesmo perigoso, com pessoas que não conhece ou das quais ele esteja desconfiado: empina, escoiceia e morde, mesmo que a pessoa esteja tranquila. Se for alguém inseguro então, é caso perdido.

 

Venus gosta de mostrar o que sabe fazer, mesmo que não tenha ninguém olhando. Seja o ritmo longo e constante dos galopinhos de enduro, uma pista de cross ou trabalho em duas pistas, ela se doa sem reservas; parece que a expressão “vai e se joga” foi feita para ela, o que não significa que ela desperdice energia. Ela é até mais calma do que a maioria dos cavalos de esporte. Às vezes chego a achar que ela está cansada, mas ela sabe reservar energia para os momentos mais importantes – o monitoramento com o Polar (medidor de frequência cardíaca) confirma isso.

 

Zacarias gosta de saltar. Provavelmente a sensação de “para o alto e avante” deve lhe proporcionar algum prazer supremo. Ele salta sozinho no cabo de guia, trotando solto atrás de mim, comigo largando as rédeas no pescoço e tapando os olhos com ambas as mãos… tudo isso sempre sobre alturas modestas, é claro, se bem que acho que o receio de subir a madeira nestas experiências seja mais meu do que dele. Quando tem um cavaleiro um tanto melhor em cima dele então (ou até eu mesma num dia inspirado), ele começa a saltar até BEM.

 

Zacarias 2005: sem pescoço, sem mecânica, sem musculatura, mas com vontade de sobra…

 

No seu começo de vida adulta, Venus era meio patricinha, achando que algumas regras de relacionamento pessoas & cavalos devessem ser reescritas para ela. (Por que eu tenho que ficar presa aqui? Por que devo me misturar com estes cavalos desconhecidos? Por que tenho me flexionar pra direita, se já sei fazer tão bem pra esquerda?) Creio que ela é um destes cavalos privilegiados que nunca conheceram pessoas que não fossem gentis com cavalos (e que Deus a proteja para que continue assim por todos os seus dias), o que a torna tão protetora e companheira da gente. Na cocheira, fica ofendida se não vou abraçá-la a cada visita, e nos enduros define um círculo em torno de si, cuja guardiã auto-nomeada ela se torna e que estranhos, pessoas ou cavalos, não podem invadir. É por isso que ela tem que usar uma IMENSA fita vermelha na cauda (que nos enduros sinaliza os cavalos coiceiros).

 

Zacarias veio para mim magro, com um pescoço quase inexistente, com aprumos corretos mas uma enorme cicatriz no carpo direito. Além disso, nunca havia aprendido a  galopar na mão esquerda. Fiquei com ele assim mesmo (por um preço pequeno e bem parcelado), pois no salto-teste que armamos na rua, com dois caixotes de tomate e uma ripa, ele quase me jogou da sela, passando a uma altura umas três vezes superior à do obstáculo improvisado. Durante todo este test-ride ele estava bem resfolegante, o que atribuí a nervosismo (dele) e falta de trabalho. Foi apenas depois que ele já estava comigo que me dei conta de que ele era roncador, e que se as hemiplegias de laringe costumam ser classificadas de grau um a cinco (a mais severa), a dele provavelmente era grau sete. A história da cirurgia da hemiplegia é assunto para outro post, e embora a respiração de Zacarias ainda não seja perfeita, ele melhorou o bastante para ser dublê de cavalo de enduro (regularidade, bem entendido… pelo menos até agora J).

Venus 2008: treino de salto com Fernando Bastos

 

O que Zacarias e Venus mais têm em comum, além de gostarem do que fazem, é terem curiosidade pelo mundo à sua volta, e de serem muito mais comunicativos do que a maioria dos cavalos por aí. Observando-os (e também a tantos outros, bem entendido) é que comecei a cristalizar novas idéias sobre a importância do enriquecimento ambiental para cavalos. Tudo isso é bem recente e será abordado em posts futuros. Num dia típico, Zack (que mora na Universidade do Cavalo) é solto no coast-cross pela manhã, junto com alguns companheiros, e passa o resto do tempo observando o ir-e-vir em seu piquetinho particular, próximo às cocheiras. Quando estou por lá, costumo soltá-lo para pastar no cabresto, o que significa que ele fica solto arrastando um cabo de cabresto no qual pisa de vez em quando.  Ele vai explorando diversos tipos de grama, come mangas ou goiabas, e às vezes também é picado por vespas que lhe rivalizam as frutas. Ele vê crianças, tratores, cachorros, cavalos conhecidos e desconhecidos, todos passando bem perto dele. Quando começa a chover, ele acha um telhado para se abrigar. O trabalho dele inclui sessões de guia em pasto meio irregular, exteriores com trechos de trânsito, salto sobre obstáculos improvisados. Brincamos em obstáculos de equitação de trabalho, já taqueei bolinhas de pólo campo afora, e às vezes ajudamos a fechar o gado. Às vezes ele fica irritado e eu também, e nem sempre as coisas correm como gostaríamos, mas o mantra geral é “faz parte”.

 

Zacarias 2007: saltar é divertido…

A vida de Venus, em geral lá no Manege Capela, é bem similar. Ela passa as horas diurnas solta com a tropa, explorando os banhados e o pequeno bosque, e convivendo com as vacas. Quando queremos montar, às vezes os cavalos vêm para nós num instante, às vezes eles nos dão um corridão de meia hora, morro acima e morro abaixo. Às vezes,  os cavalos brigam entre si e até se machucam; a própria Venus por estes dias está com um hematoma na perna, e adora lhe lhe façamos compressas de gelo, sentindo-se muito importante – desde que fiquemos por perto ao invés de deixá-la sozinha durante as aplicações, bem entendido. Que eu saiba, Venus é o único cavalo no estado de São Paulo que em 2008 competiu em provas abertas de enduro, de concurso completo e de salto. Mas ela também adora passear aos domingos nas estradinhas entre Capela, Araçoiaba e Salto, tanto para ver a paisagem quanto para comer paçoquinha na nossa curta, porém quase obrigatória, paradinha no boteco.

 

Em suma, acho que de modo geral Venus, Zacarias e seus companheiros consideram a vida deles bem interessante.  Mantê-la assim é uma de nossas metas permanentes.

 

 

criado por leschonski    20:52 — Arquivado em: Sem categoria

22 22UTC jan 22UTC AM

“Comendo na minha mão…”

 

 Os adeptos mais ortodoxos do horsemanship natural (*) afirmam que jamais se deve dar comida como recompensa para um cavalo, e em especial, que não devemos oferecer estes agrados em nossa mão. Vem aí minha pergunta favorita: sim, mas por que?

 

A resposta que eu costumava dar aos meus alunos é que gramíneas e outras plantas, alimento natural dos cavalos, não precisam de estratégia e ação integrada entre os membros da manada para serem ingeridos. Basta ir até a pastagem, baixar a cabeça e comer: a manada tem função protetora de seus integrantes contra predadores, mas não facilita nem possibilita, por si só, a busca de alimento. Já os caçadores de matilha dependem da colaboração estrita entre si para conseguirem comer, e esta interação pressupõe hierarquia: o líder comanda, os liderados obedecem, todos conseguem capturar a presa. “Obedecer”, para um carnívoro de manada, não é apenas essencial à própria sobrevivência, mas também fonte da alegria da barriga cheia. Por isso os profissionais da cinofilia, por exemplo, trabalham com recompensas à base de queijo e fígado, sem que isso prejudique a relação de dominância entre cão e handler. Por conta do instinto de “caçar em bando”, os cães têm uma necessidade muito mais imperiosa de serem submissos a alguém do que os cavalos: vocês conseguem imaginar um cavalo tomar um pontapé na barriga e voltar todo subserviente àquele que o chutou?

 

Primeiras lições

Primeiras lições

 

 Desde a primeira infância, a vida em manada pauta o comportamento hierárquico que possibilita a futura utilização do cavalo pelo ser humano.

 FOTO: PAULA DA SILVA

 

 Até aí tudo bem, mas por que os gurus do horsemanship ensinam que a eventual recompensa ou agrado em comida deve ser dado no cocho ou num balde, mas não  da mão humana? Qual a razão desta diferença, ou melhor, por que as duas maneiras são percebidas como diferentes entre si pelos cavalos?

 

Estes dias apenas (após uns doze anos pensando no tema, para vocês verem como eu consigo ser lerda…) consegui sintetizar minha resposta numa frase: o cavalo acha que está tomando a comida que era minha, interpretando minha resposta como submissiva. Ou um cavalo dominante permitiria que o dominado lhe tomasse a cenoura da boca?

 

Claro: colocar o agrado num balde ou no chão e ir embora, do ponto de vista equino, significa que não tenho interesse por aquilo e estou passando a vez ao próximo. Tal como nas manadas, onde os superiores detêm para si o privilégio de escolherem as melhores áreas de pastejo, antes de darem lugar aos demais. Procedendo assim, estou permitindo ao meu cavalo que ele coma o que gosta sem abrir mão de minha dominância – bem similar ao que seria feito pelos animais alfa (= líderes) do grupo.

 

E agora, isto significará que Venus, Zaca e os outros não mais receberão petiscos direto de minha mão?

 

Zack no pasto consorciado (grama e trevo) após o trabalho

Zack no pasto consorciado (grama e trevo) após o trabalho

  Nesta foto, é possível ver como as horas de pastejo fortalecem a musculatura cervical e dorso-lombar da maneira desejada para a boa equitação. Vide o post “Cavalos Maleáveis”…

 

Bem… nem tanto né.  :-)  Para mim o agrado com frutas, doces, etc, nunca foi um hábito constante, pois o mais perigoso desta história, na minha opinião, se dá quando o cavalo começa a entender o que deveria ser uma “ocasional surpresa agradável” como “obrigação do ser humano”, tal como a criança mimada que esperneia quando o pai não lhe traz um presentinho a cada noite. Às vezes trago paçocas, maçãs, balas ou outros agrados – mas em geral recompenso meus cavalos  colocando-os para pastar após o trabalho, de preferência num local de grama bem suculenta. Com cavalos de correção, tal como o Flanel nos bons e velhos tempos, chego a soltá-los na pista mesmo, para espojarem e pastarem a graminha das beiradas. Para máxima eficiência, pulo da sela e removo o material no instante seguinte à execução daquele exercício que causava dificuldade e resistência, e que o cavalo começou a me oferecer com mais desenvoltura. A idéia é que ocorra uma associação mental positiva que ao longo de futuras repetições vá estendendo o limite de tolerância do animal. Como dizemos no horsemanship natural, “o cavalo busca conforto”, ou ainda “a recompensa é o alívio imediato da pressão”.

 

Em resumo, eu diria que cavalos de temperamento forte, garanhões, aqueles que gostam de morder, aqueles com problema de dominância (às vezes tudo isto é um único cavalo…) não devem receber alimento ou petiscos da mão, de preferência “nunca”. Para os outros, não há problema na infração ocasional – desde que a dominância humana esteja bem estabelecida na cabeça destes cavalos, e que a oferta não se torne uma rotina obrigatória.  Do mesmo modo que às vezes trago o “agrado na mão”, não me importo de comer alguma fruta ou um doce ao lado de meus cavalos sem compartilhá-los – claro, ficando atenta e agindo como um cavalo dominante faria caso eles insistam em pedir um pedacinho…

 

São detalhes e observações pequenos, que uma vez formulados, parecem tão óbvios que tenho quase vergonha de escrever sobre eles aqui. Mas o fato é que eu nunca tinha lido ou ouvido esta explicação da maneira como está colocada aqui. Fica o convite a vocês, amigos leitores, para criarem suas próprias inferências, chegarem a suas próprias conclusões, neste “laboratório” infinito que é a convivência com nossos cavalos. Claro, enriquecido ainda mais por leituras, conversas com quem entende, troca de idéias. Ainda que não existam, no Brasil, muitas obras escritas ou traduzidas sobre etologia equina, a internet pode ser uma boa fonte, especialmente com um dicionário de inglês do seu lado. J Experimentem também ler textos de outros segmentos e aplicá-los à sua vida com cavalos. Um dos mais interessantes neste contexto é “As Sete Leis do Sucesso Espiritual”, por Deepak Chopra.

 

Ainda na série “pensando como um cavalo”, há outro insight interessante que tive há pouco tempo, sobre o qual quero escrever numa próxima ocasião. Mas já posso deixá-los pensando no assunto: qual a diferença entre se montar um cavalo castrado e uma égua? Durante anos, pensei que não existia diferença significativa, ainda que vários de meus amigos declarassem preferência por um gênero ou outro, porém também sem que soubessem verbalizar a razão para tal. (Geralmente o que diziam era algo do tipo: “a égua é maaaisss… assim, sabe…”)  Mas de um tempo para cá, cheguei a uma conclusão tão interessante quanto simples. Me aguardem…

 

Abraços,


Claudia

  

(*) Horsemanship natural = uma definição em poucas palavras é difícil, mas podemos explicar o processo como “educação e treinamento do cavalo através da comunicação baseada no comportamento natural dos equinos, visando um relacionamento entre pessoa e cavalo com compreensão e confiança mútuos”.

 

Quem, eu me preocupar?

Quem, eu me preocupar?

 

 P.S.:  Aproveitem para ler meu novo PTP (= pequeno texto poético), estrelado pela Venus, no blog da Paula, http://horseandphotos.wordpress.com/.

 

criado por leschonski    9:17 — Arquivado em: Sem categoria

05 05UTC jan 05UTC PM

A chama do entusiasmo – para pessoas e cavalos

 

 

Caros amigos e leitores,

 

Feliz 2009 a todos! Como sabem, escrever mais e melhor está entre minhas resoluções de ano novo, e isso inclui este blog que vos fala.

       Aembé num momento entusiasmado… (2003) 

 

Lá nos posts iniciais devo ter mencionado o significado da palavra “entusiasmo” – mas como já faz um tempinho, não custa repetir. A tradução de “ser entusiasmado” é “ter Deus dentro de si”. Em algumas línguas, também é entendido como “pleno de alma”, “cheio de espírito”.

 

Potrinhos e crianças são naturalmente “entusiasmados” – basta vê-los correndo e brincando, com qualquer coisa servindo como pretexto para alegria. É como se o dom da vida, por si próprio, fosse a maior motivação para que cada nova geração de criaturas busque a transcendência dos limites, aquilo que podemos chamar de evolução.

 

Em que ponto de nossa estrada este entusiasmo natural vai arrefecendo? Quando é que nos tornamos adolescentes entediados, adultos estressados ou deprimidos? Quando o potro pára de galopar espontaneamente para seguir a lei do mínimo esforço, como e porque um cavalo adquire aquele olhar ausente , que atravessa a pessoa à sua frente, como dizendo “eu tenho que lhe obedecer, então vamos acabar logo com isso”?

 

Dentro deste contexto, de uma maneira mais ampla, por estes dias li uma entrevista muito interessante, concedida por um pedagogo alemão, Dr. Gerald Hüther, ao Spiegel On-Line. O texto fala de educação infantil, mas a correlação com cavalos não é de todo impossível, ainda que em alguns pontos mais que em outros, é lógico. No geral, não é muito difícil enxergar potros de um “moderno” haras de manejo intensivo quando o entrevistado fala de crianças confinadas na cidade grande…

 

De qualquer maneira, cumpre lembrar que a essência do nosso amor por cavalos está na sua interação com o ser humano – ou seja, teremos atingido nosso objetivo apenas quando cavalos e cavaleiros são felizes juntos. E já que a iniciativa da doma e do treinamento do cavalo de sela parte do ser humano, um cavaleiro “entusiasmado” é fundamental na formação do cavalo idem.

 

O que quero dizer é que talvez seja necessário rever não apenas a maneira pela qual treinamos nossos cavalos, mas também a instrução recebida por cavaleiros, treinadores e demais profissionais do cavalo. Quantos instrutores de equitação vocês conheceram que conseguiram extirpar o prazer em montar de seus alunos, tornando tortura o que era para ser uma alegria? O mesmo, claro, vale para os domadores, picadores, treinadores, cavaleiros de competição…

 

Traduzi a entrevista na íntegra, para o caso de vocês quererem encaminhá-la para outros amigos que tenham filhos mas não sejam “do cavalo”. Adaptei apenas alguns trechos que se inserem na realidade européia mas não têm muito a ver com a nossa – por exemplo, o Dr. Hüther sugere que pais e filhos façam um passeio de bicicleta até um depósito de lixo…  J

 

Abraços, boa semana a a todos,

 

Claudia

 

A tropa levantando poeira… (2008)

 

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Como o sabe-tudo estraga a alegria de aprender

 

Entrevista concedida ao Der Spiegel On-line pelo neurobiólogo Gerald Hüther, sobre a motivação para os jogos.

 

Pergunta – Spiegel: Professor, sabemos que a amplitude de movimento das crianças, ou seja, seu „território de jogos”, fica cada vez menor. Que influência isto tem sobre o seu desenvolvimento?

Resposta - Hüther: Crianças sob supervisão permanente, que são permanentemente conduzidas pela mão de adultos, assemelham-se a animais domésticos que não mais conhecem a vida em liberdade. As pesquisas neurológicas nos revelam que sob estas condições o amadurecimento do cérebro deixa de ocorrer sob condições ideais. O cérebro permanece uma versão limitada daquilo que poderia ter sido.

 

P: O que está errado na interferência dos pais na atividade das crianças?

R: A participação dos aultos muitas vezes resulta na perda da iniciativa da criança em fazer suas próprias criações e descobertas. A sede por conhecimento é corrompida pela ostentação do adulto. Tome o exemplo de uma criança de um ano, que finalmente conseguiu fazer uma torrezinha de blocos de madeira, e se orgulha dela. Quando o pai vem para casa, ele diz: “Olha, você fez uma torre bacana! Mas o papai sabe fazer uma maior ainda!” Isto é mortal. O pai interfere na brincadeira, em vez de incentivar a criança, e assim estraga a diversão do brinquedo dos blocos. Um pai exemplar direciona a criança, em sua busca por respostas, para o caminho correto. As crianças precisam ser inspiradas, e não instruídas, pelos adultos. 

 

P: Como pais que moram com seus filhos numa metrópole ainda podem ser inspiradores?

R: Os pais podem ir com os filhos até um local onde haja algo a descobrir, por exemplo,  áreas rurais, bosques, parques – ainda há muitas possibilidades. Pais podem se organizar em grupos, para em sua área residencial organizarem espaços onde as crianças possam ser criativas. Pois o brincar infantil é isto: a criação coletiva de jogos e brinquedos que não sejam regulamentados pelos adultos. Também existem jardins de infância onde são feitas experiências neste sentido, onde tudo deve ser inventado pelas crianças.

 

P: Em vez de mais liberdade, muitas vezes o que se exige é mais disciplina no trato com crianças, principalmente no âmbito escolar. Qual a sua opinião a respeito?

R: Do ponto de vista neurobiológico, como todo bom pedagogo sabe, medidas disciplinatórias não resultam em mais disciplina, porém no máximo em obediência. Quem deseja disciplina, precisa dar oportunidade às crianças de sentirem as vantagens da disciplina. Elas deveriam ter a oportunidade de solucionarem uma tarefa que propuseram a si mesmas, tal como construir uma casa na árvore. Neste processos, elas se dão conta de que isto não é possível se as ferramentas não forem organizadas, e a obra não for planejada antes. Crianças precisam ser convidadas a se ocuparem como descobridores e formadores do mundo – e o modo mais fácil para tanto é nas brincadeiras, e não na escola.

 

P: Hoje a escola é considerada como uma instituição onde as crianças aprendem coisas que necessitarão em suas vidas futuras.

R: A maioria dos pais, muitas escolas e até algumas secretarias de educação ainda não perceberam que nossos mercados e nossas universidades têm graves problemas derivados do fato de que os jovens que lá chegam não têm motivação suficiente. Eles perderam a vontade de descobrir e criar, de maneira irreversível. As escolas sempre querem transmitir conhecimentos concretos às crianças. No entanto, já faz um século que pedagogos vêm apontando que não se trata apenas de retransmitir às crianças um patrimônio cultural, e sim, de ir despertando nelas aquele espírito que produz patrimônio cultural.  Ou seja, o objetivo primário das escolas não deveria ser que todos tenham conhecimentos perfeitos de matemática, português, ciências ou o que quer que seja, mas sim, que eles se tornem estudiosos e descobridores entusiasmados dos conteúdos de matemática, português e ciências. É algo totalmente diferente. Os gregos antigos já diziam: não se trata de preencher barris, e sim de acender tochas.

 

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Ndzinji Pontes conduzindo Thor Função em entusiasmo concentrado… 

N. da T.:  Já pensaram no contexto da “produção de novo patrimônio cultural” dentro do ensino da equitação e no treinamento de cavalos? Em nosso característico amálgama cultural, de que maneira as pessoas brasileiras do cavalo podem contribuir com o horsemanship internacional? Se é verdade que não temos uma grande escola brasileira de equitação, à maneira das linhas alemã ou francesa, por exemplo, isto nos dá uma grande liberdade de ação para formarmos um sincretismo eqüestre unindo os elementos que nos parecem mais valiosos e importantes para a nossa realidade. Desde que a natureza intrínseca dos animais seja sempre respeitada, é claro.

 

 

 

 

criado por leschonski    15:22 — Arquivado em: Sem categoria

18 18UTC dez 18UTC PM

BOAS FESTAS 2008 / 2009 !!

 

 

  Foto: Paula da Silva

Dezembro 2008

 

“Respire, sorria, vá devagar”

Thich Naht Hanh, monge budista  (encontrado em http://zenhabits.net)

 

Caros amigos,

 

Vejam algumas disciplinas que cursei em 2008 – tanto créditos novos quanto DPs:  J

 

  • Ter paciência, comigo e com os outros.
  • Consolidar o hábito de sorrir, de modo que a alegria se origine do sorriso, sem esperar até que aconteça o inverso.
  • Olhar o que é familiar como se nunca o tivesse visto antes - um objeto, um animal, uma pessoa - e maravilhar-me com a sua perfeição essencial. 
  • Perceber que tudo é um espelho, e que a responsabilidade pelo reflexo não é do espelho (embora luz boa ajude).
  • Promover a evolução daqueles ao meu redor, pois é a melhor maneira de eu mesma evoluir.
  • Milagres acontecem onde menos esperamos, e quando menos esperamos; por isso é tão importante caminhar de olhos erguidos, coração aberto e sorriso nos lábios.
  • Lembrar a cada dia que o passado e o futuro não existem.
  • “Karma” não significa que o destino é imutável, e sim, que cada um, através de suas escolhas,  é responsável pelo próprio destino.
  • A música é um atalho que pode me conduzir para mais perto de meu verdadeiro eu.                                                                                                                          

Coisas que quero consolidar em 2009:  

  • Montar a cavalo mais e melhor, incluindo competições
  • Participar de várias corridas de até 10 k
  • Escrever mais e melhor (pendência antiga)
  • Viajar mais
  • Retomar minha algo negligenciada vida pessoal (será que consigo!!??)

  

Desejo a todos nós que aproveitemos muito as festas de fim-de-ano, e que iniciemos 2009 “centrados e alinhados” em corpo, mente, coração e espírito! Olhando para a alvorada do novo dia, confiantes de que o melhor está por vir.

 

 

Beijos,


Claudia

 

 … fiquem de olho, fiquem em contato! Não esperem pretextos nem convite. Vamos comemorar!

 

Claudia e Escudeiro (muito longe de casa…)

 

 

 

criado por leschonski    12:16 — Arquivado em: Sem categoria

11 11UTC dez 11UTC PM

VAMOS AJUDAR OS CAVALOS DE SANTA CATARINA

Oi turma,

 

É com semanas de atraso que vou me manifestar sobre a situação em Santa Catarina;  provavelmente eu estava acometida de algum bloqueio interno para deixar de pensar nos animais de lá – não tanto naqueles que se afogaram, mas naquels que ficaram para trás, perdidos, isolados, muitos talvez condenados a morrer à míngua.  Quantos ficaram para trás quando seus proprietários  foram resgatados – cães e gatos, bovinos, aves de quintal, porcos – e também cavalos?

Muitos problemas ainda estão por vir – a falta de pastagens e de grãos e as doenças, zoonoses inclusive, são apenas dois exemplos.

 

Para eu acordar da indiferença, foi preciso que o lesse o post abaixo, publicado por Andrea Costa na Comunidade Virtual “Banco do Planeta” - http://bradescobancodoplaneta.ning.com/profiles/blog/show?id=1741754%3ABlogPost%3A183049

 

O choro das vítimas das chuvas em Santa Catarina foi ouvido por todo o País, que tem respondido com ajuda material, mão de obra (oficial e voluntária) e doações em espécie.

Mas há o grito silencioso daqueles que não tem voz: os animais. De estimação ou de produção, a situação também é crítica para milhares deles. Muitos foram abandonados presos a correntes ou cercados, deixados para trás em casas e apartamentos, ou seguem pelas ruas e pastos, exaustos, assustados, com fome, frio, abandonados à própria sorte, em meio ao caos e desespero que se instalou no Estado. Protetores de SC e do Brasil estão se mobilizando, mas as dificuldades são monumentais.

O Instituto Ambiental ECOSUL - em parceria com a WSPA (Sociedade Mundial de Proteção Animal) e o Blog “Mãe de Cachorro” -, criou a “RESA - Rede Catarinense de Solidariedade aos Animais” com o objetivo de arrecadar donativos e adotar outras providências para amenizar a vida dos animais e o impacto da tragédia que se abate sobre eles em Santa Catarina. Todos os donativos, valores arrecadados e as ações planejadas - e postas em prática - têm por objetivo atender às principais necessidades das entidades, abrigos e ativistas independentes que atuam nas regiões atingidas - exclusivamente para socorro, assistência e manutenção dos animais.

Abra seu coração a essas vítimas silenciosas. Faça uma doação ao Instituto Ecosul:

Banco 027 – Agência 001 – Conta Corrente 162.132-0
BESC - Banco de Santa Catarina, Florianópolis - SC

CNPJ do Instituto Ecosul 04.682.569/0001-35.

Famílias que perderam tudo também choram a situação de seus animais queridos e precisam da sua ajuda.

NECESSIDADES JÁ IDENTIFICADAS E URGENTES:

- Vacinas contra Leptospirose e anti-rábica, antibióticos, sarnicidas, anestésicos, seringas, agulhas, …
- Máscaras e luvas descartáveis
- Ração para cães, gatos, cavalos e bois
- Água potável em embalagens de 5 litros
- Coleiras e correntes para cães
- Casas e Caixas de transporte para cães e gatos
- Material de higiene e desinfecção de instalações e dos animais
- Cobertores e toalhas
- Potes para alimentação e água

ENTIDADES E ATIVISTAS INDEPENDENTES JÁ CADASTRADOS PARA RECEBER APOIO DA RESA:

- Abrigo Animal, Joinville
- Amigo Cão, Joinville
- AJAPRA, Jaraguá do Sul
- Amigo Fiel, Jaraguá do Sul
- APRABLU, Blumenau
- Focinho Feliz, Blumenau
- Proteção Animal, Itajaí
- Viva Bicho, Balneário Camboriú
- Amigo Bicho, Itapema
- Associação de Proteção aos Animais, Porto Belo
- Ativistas Independentes de Navegantes, Porto Belo e Biguaçú
- Canis da Olga e da Kátia, Florianópolis
- APRAP, Palhoça
- São Francisco de Assis, Palhoça
- Fundo Vira-lata, Garopaba

……….

 

(Autora – Andrea Costa)

 

 

Acessem também o link  http://ecosul.wordpress.com/2008/12/01/sos-animais-santa-catarina/ , onde poderão ler muitas outras informações interessantes.

 

Vamos parar e pensar: e se fosse com a gente? Zacarias, Venus, Pimenta, Zulu, e toda a bicharada querida?

 

Sugiro que nos mobilizemos para contribuir da maneira que pudermos -  fazendo doações de materiais ou em espécie, atuando como voluntários, e também divulgando estes links e entidades arrecadadoras ao maior número possível de nossos contatos.

 

Abraços, obrigada,


Claudia

 

 

 

 

 

criado por leschonski    21:34 — Arquivado em: Sem categoria

02 02UTC dez 02UTC AM

COMUNICAÇÃO COM CAVALOS – VERSÃO 1998

Olá,

ests dias, enquanto organizava o computador, deparei com um texto meu um pouco mais antigo, escrito em 1998, quando o "horsemanship natural" ainda era no Brasil quase totalmente desconhecido. A cada artigo que escrevia ou palestra que dava, eu meio achava que tinha que pedir desculpas (ou ao menos me justificar,,,) por ousar mencionar o bem-estar emocional dos cavalos.

De lá para cá, o paradigma vigente já evoluiu um pouquinho… ao menos em alguns dos círculos do cavalo. Mesmo assim, acho que este texto continua bem interessante de se ler, à medida que é quase um resumo  do trabalho com cavalos baseado nos princípios da etologia equina.

Boa leitura, bom mês de dezembro para todos,

Claudia

………………………

 

Athora Função, Luso-árabe, na foto com dois anos de idade.

Foto: arquivo pessoal

 

A primeira ponderação que eu faria é que não podemos nos valer de “argumentação racional” junto a cavalos, do mesmo modo que faríamos com seres humanos. O comportamento irracional, seja instintivo/inato ou reflexivo/adquirido, é muito prevalente nos animais, e uma vez instalado, só pode ser mascarado, ou enfraquecido por um estímulo posterior ainda mais forte, porém jamais apagado totalmente.

Todo aprendizado no animal, tanto o desejado como o indesejado, se processa através do condicionamento de recompensa e castigo, conforme a atitude do animal seja a desejada por nós ou não. Isto é adicionalmente complicado pelo fato de que muitas vezes ensinamos coisas aos cavalos involuntariamente, sem nos darmos conta disso. Por exemplo, uma pessoa tímida produzirá cavalos agressivos, sem que ela perceba estar fazendo isso, pois os cavalos são instintivamente compelidos a questionar a dominância de uma autoridade fraca.

Portanto, todo o treinamento de cavalos se baseia em erro e acerto : a atitude correta deve parecer agradável ao cavalo, enquanto todas as incorretas serão desagradáveis. Um exemplo simples : apertar as pernas contra o costado do animal montado significa que desejamos que ele se mova para a frente. O animal em início de treinamento não compreende essa ordem, então a tornamos mais intensa (= cada vez mais desagradável), até que mais ou menos por acaso ele acabe indo para a frente, o que é recompensado com agrados, e principalmente com alívio de pressão. O reforço sempre constante desta atitude acabará por desenvolver um reflexo condicionado no cavalo : apertar as pernas = ir para a frente. É fácil entender que este procedimento é demorado, ainda mais à medida que o treinamento fica mais complexo, e o cavalo demora até compreender o que estamos querendo dele.

Zacarias montado por Fernando Bastos, no Campeonato Paulista de CCE, novembro/2008

Foto: Karin Massonetto

Como seria mais fácil se pudéssemos explicar ao animal o que dele desejamos, ou melhor ainda, se pudéssemos fazê-lo sentir aquilo que dele queremos ! Por exemplo, se uma criança aprendendo balé tem dificuldade em determinado movimento, o professor pode auxiliá-la fisicamente, dirigindo seu corpo à posição desejada, dizendo : viu só, é assim. E mesmo que tenhamos força física para fazer algo semelhante com um cavalo, como fazê-lo entender que esperamos dele a repetição espontânea daquele movimento ? Ou tomemos o problema do salto : muitos cavalos derrubam obstáculos com as pernas anteriores porque não flexionam suficientemente as mesmas. Não é porque não tenham força física, flexibilidade ou vontade para fazê-lo, mas simplesmente porque não entenderam - falta-lhe discernimento racional para tanto - que bastaria que levantassem um pouco mais as pernas. Não seria maravilhoso se pudéssmos lhes explicar : veja, levante as pernas assim que você não vai mais dar caneladas nas varas ?

Pelas mesmas razões, comportamentos compulsivos são dificílimos, muitas vezes impossíveis, de eliminar nos cavalos. Em virtude de manejo pouco adequado - geralmente associado à falta de movimento ou de convívio com outros cavalos - muitos cavalos adquirem tiques nervosos, tais como aerofagia, coprofagia, “dança do urso” (balançar de uma perna para outra), os quais depois os acompanham pelo resto da vida, mesmo depois que a causa original do vício tenha sido eliminada. Num paciente humano, imagino, é possível usar argumentos verbais/racionais, do tipo : “perceba que agora você não precisa mais deste comportamento, pois sua vida mudou” - o que, obviamente, é impossível de se conseguir com cavalos através dos métodos convencionais.

Outra coisa importante de se saber a respeito de cavalos é que eles são herbívoros de fuga, cuja maior chance de sobrevivência ( na vida selvagem) consistia em correr à menor sombra de perigo real ou imaginário. Este mais básico de todos os seus instintos faz parte irremovível de todo cavalo - criaturas claustrofóbicas sempre sujeitas ao pânico. Ora, conquistar a confiança dos cavalos é essencial para termos sucesso em seu treinamento, pois como esperar que seu cérebro possa se concentrar em aprendizado se está tomado pelo medo ? Isso é relativamente fácil nos potros novos, nos quais o medo é apenas um instinto genérico, logo superável por seres humanos cordatos e confiáveis, porém se torna outro problema grave e até insuperável nos animais problemáticos que vieram de um passado com experiências negativas. De novo a deficiência de comunicação entre as espécies é um empecilho : como posso fazer o cavalo compreender que ele nada tem a temer de mim, que ele está seguro agora ?

Fernando com Vênus iniciando o cross no CCE de 22/11/08.

Foto: Paula da Silva

Por isso mesmo, se eu pudesse fazer uma única pergunta aos meus cavalos, perguntaria : do que é que você tem medo ? E inversamente, se eu pudesse lhes transmitir uma única idéia, lhes diria : nunca farei nada, deliberadamente, que coloque você em perigo. Confie em mim !

 

./././././././.

criado por leschonski    8:11 — Arquivado em: Sem categoria

21 21UTC nov 21UTC PM

OLÁ AMIGOS CAVALEIROS…

Olá amigos,

Este blog de novembro está meio encalhado, né? Peço desculpas a todos os meus fiéis leitores. Há tempos não sobra um fim-de-semana livre, pelo contrário, amanhã mais uma vez o Fernando Bastos apresenta nossos cavalos Zacarias e Vênus, no CCE da Universidade do Cavalo, enquanto eu estou trabalhando na tradução de outro curso, desta vez de ferrageamento. Aproveito para informar a todos que a Associação Brasileira de Ferradores está ativa e em franca expansão!! Hoje iniciamos o segundo processo de certificação, chancelado pela American Farriers’ Association.

Além disto, está por aqui a nossa amiga Paula da Silva, autora de muitas das fotos que utilizo aqui no blog. Se não chover muito… ela pretende tirar umas fotos do CCE amanhã, que compartilharei com vocês logo mais.

Enquanto isso, reproduzo aqui um texto que escrevi para o Fórum Desempenho (vejam mais informações em www.desempenho.esp.br ) como minha contribuição a um debate onde algumas pessoas defendiam determinada modalidade, ou estilo de equitação (ex.: clássico vs. western) como sendo superior a outro. Então, começamos também trocar idéias sobre o que constituiria ou não “crueldade” no trato e no treinamento de cavalos. E lá pelas tantas, entrou a velha controvérsia dos cavalos de marcha, quando ficamos debatendo se uma colocação “classicamente errada” (ex. pescoço invertido, à frente da mão, dorso rígido) do cavalo teria como melhorar a qualidade da marcha.

Espero que aproveitem a leitura, bom fim-de-semana a todos,

Claudia

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Olá amigos cavaleiros,

acho o seguinte, e salvo engano estou parafraseando o Bjarke: existe apenas boa equitação. Acontece que cérebro, anatomia e fisiologia de pessoas e cavalos são sempre os mesmos, não importa se colocam "fantasias" de salto, rédeas, adestramento, enduro…

Aembé Apuã, minha boa amiga que hoje vive em Manaus, e continua conquistando fãs por onde passa!

Foto: Adriana Füchter

Certas coisas não são produtos de técnica, mas de ignorância. E, como bem sabemos, a violência começa onde o conhecimento termina (por isso é que na linguagem coloquial violência e ignorância são sinônimos). Veja alguns exemplos de ignorância em nosso contexto, do mais genérico para o mais específico. São “idéias e opiniões” que encontramos a todo momento como parte do “treinamento ignorante” de cavalos:

• causar dor promove aprendizado
• causar desequilíbrio melhora a qualidade do movimento
• medo é sinônimo de beleza e eficiência
• quanto mais pressão, melhor o resultado
• é possível e correto exercitar-se o tempo todo em tensão máxima, sem intervalos (seja física ou mental)
• animais não têm sentimentos ou emoções
• animais não sofrem dor
• um cavaleiro desequilibrado não interfere em nada no equilíbrio do cavalo
• um mesmo equipamento (sela, embocadura) serve a todos os cavalos

Pessoas que têm estas opiniões e utilizam este tipo de recurso existem em toda parte - no salto e no adestramento assim como no laço, no western pleasure, no rodeio e no enduro, e em todas as outras modalidades e usos do cavalo.

Agora, imaginem-se tendo que aprender algo, um esporte ou uma nova profissão, e sendo “treinados e preparados” segundo os princípios acima.

Vocês acham que aprenderiam? Que ficariam harmônicos, rápidos, fortes, auto-confiantes??

Não é um rótulo, uma roupa, uma modalidade… que nos torna bons cavaleiros. É CONHECER cavalos e APRENDER a montar. Sentir empatia pelos animais, não como instrumentos a serviço de nosso ego e de nosso status quo, mas como herbívoros de planície que TAMBÉM foram selecionados durante milênios para sentirem AFINIDADE pelo ser humano (só por isto nossas atividades equestres são possíveis em larga escala; quem duvida, que experimente treinar uma zebra).

Nos últimos anos, tenho me dedicado a workshops, laboratórios e experiências para abandonar os rótulos. Aluísio Marins, da Universidade do Cavalo (vejam www.universidadedocavalo.com.br  ), é grande divulgador desta revisão de conceitos. Parte da idéia é o seguinte: tudo que melhora nossa equitação, não importa de onde venha, é utilizado. Tudo que a piora, o que a entrava, é descartado.

• O objetivo da existência é evoluir.
• Evoluímos ajudando os outros a evoluir.
• Ajudamos os outros a evoluir levando-os a encontrarem sua verdadeira vocação.

Meu pequeno PSI Zacarias anteontem fez um excelente recuo (afastar) sem rédeas (estavam largadas no pescoço), reagindo apenas a uma pequena pressão no peitoral, e mudanças de meu equilíbrio. E agora? O que meu velho professor de adestramento diria?

"Frankly, dear, I don’t give a damn." (Rhett Butler)

Quanto à questão dos marchadores, não pretendo me aprofundar no tema, mesmo porque falta-me conhecimento específico, mas sei que muitos marchadores, no Brasil como em outros países, são treinados consoantes ao bom adestramento. Certa vez montei um Campolina campeão, pedindo desculpas antecipadas ao treinador "porque iria estragar a marcha dele" (eu só queria demonstrar algumas figuras de picadeiro), e montei o cavalo como montaria os meus. Para minha surpresa, de repente o rapaz gritou: "A marcha dele tá muito boa, é essa que o juiz quer ver".

Exemplo fictício: se alguém afirmar que para galopar da maneira que é a desejada em determinado evento fictício, o cavalo precisa estar pisando curto, com o dorso preso, pescoço invertido e coluna rígida, e que tudo isso seria SUPERIOR ao equilíbrio natural do cavalo (passadas amplas, dorso flexionado e oscilante, frente colocada), qual seria nossa conclusão natural:

Assinalem a(s) alternativa(s) correta(s):

(a) se isso é verdade, não vou participar, pois é doloroso e desagradável para o cavalo;
(b) qual é a base anatômica, técnica e fisiológica para esta afirmação?
(c) tudo isto provoca um galope artificial. Porque será que eles preferem algo artificial ao andamento natural do cavalo? Será porque este galope é mais confortável para o cavaleiro?
(d) estes cavalos devem ser diferentes dos outros, pois esta exigência é oposição total a todos os princípios da boa montaria;
(e) estes treinadores são tão geniais que ultrapassam a minha compreensão;
(f) talvez esta seja uma tradição fundamentada em ignorância? Não faz muito tempo, pessoas iam para a fogueira por afirmarem que a terra era redonda e que girava em torno do sol…

E pra todo mundo adentrar contente o fim-de-semana, espalhem pelo mundo este dito cuja origem não recordo, mas que tem todo o jeitão de ter vindo de um caubói do oeste americano:

"Nunca tente ensinar um porco a cantar. Você perde seu tempo e chateia o porco."

Abraços,

Claudia

criado por leschonski    21:40 — Arquivado em: Sem categoria

03 03UTC nov 03UTC PM

MANHÃ DE SÁBADO


Desde sempre, o sábado é o meu dia favorito da semana. Antigamente, era o começo do fim-de-semana, quando a segunda-feira estava a uma eternidade. Era o dia de não-planejar, dormir até mais tarde, fazer ovos mexidos no café, selar o cavalo e sair sem destino, ou para passear com os amigos, depois ficar acordada até a hora que desse vontade, pois havia o domingo para reorganizar tudo, fazer o dever de casa, enfrentar a nova semana de estudo ou trabalho.

Tempos depois, continuei preferindo as provas equestres que acontecem aos sábados, justamente porque depois haveria todo o domingo para descansar, limpar o material, cuidar dos cavalos, apreciar com vagar as memórias das aventuras do sábado.

Há muitos anos que me desabituei aos fins-de-semana como dias de folga; tal como acontece com a maioria das pessoas do cavalo, sábados e domingos são os dias em que mais trabalho, para ocasional estranheza de minha família e dos amigos não-equestres, que organizam festas, churrascos, aniversários e encontros aos sábados, “quando todo mundo tem tempo”. Mas também aprendi a apreciar as preciosas gotas de tempo especial, os feriados com que o destino nos brinda num parêntese de espaço e de tempo, em paralelo aos afazeres e à faina de nossa rotina diária. O truque é mantermos os olhos abertos, todos os sentidos alertas para nos darmos conta destes pequenos presentes, das ilhas e dos oásis no rio eterno do tempo que corre.

Há dias, houve um sábado destes. A prova de salto do Festival do Cavalo aconteceria a poucos quilômetros da Universidade do Cavalo, na qual eu estaria trabalhando num curso durante todo o dia; mas três de nossos cavalos participariam da prova, montados pelo Fernando Bastos. Minha tarefa era levar os cavalos da UC até o Marco Zero. Acordei às cinco e meia para tratar os cavalos – quase toda a tropa do Manege Capela estava na UC por causa do curso de odontologia (como vocês vêem, faltam para nós fins-de-semana para acomodarmos tantos eventos, especialmente no segundo semestre). Peguei a Venus e o Sete para tratar, Lasar não gostou de ficar sozinho no piquete e estourou o pequeno arame da cerca elétrica, Anita inebriada de súbita liberdade irrompeu pelo coast-cross alto do piquete vizinho, desaparecendo no quase-escuro da madrugada.

Ricardo e Sete crescendo na linha para colocar os quatro lances!

Foto: Karin Massonetto

Mas, com vagar, alguns recapturados e todos alimentados, antes das sete Zaca e os outros dois estavam escovados e encilhados. Velen e eu seguimos com os três cavalos, Denise viria logo mais de carro para me levar de volta.

A manhã ainda estava gostosa – durante o dia faria muito calor. O sol já começava a subir, e os cavalos estavam convictos de que era o início de um enduro. Há pouco mais de um mês, este pequeno trajeto fora parte do caminho que Venus e eu tínhamos percorrido entre Capela e Sorocaba, como parte do treino para Avaré, e tenho certeza de que se dependesse dela, era teria passado na frente do Marco Zero e ido bater direto em casa.

Quase podíamos ouvir os três falando entre si, incentivando um ao outro e dando risada:
- Você é lerdo!
- Sai pra lá, o lerdo é você!
- Por que vocês dois estão com tanta preguiça?

Sete forçando o cabresto, Vênus como sempre parecia que dançava, Zacarias de rédea solta olhando cada detalhe da manhã nova, curioso sempre, narinas e olhos bem abertos, orelhas atentas.

Deixamos para trás o curto trecho de acostamento, e logo trocamos também a estrada de terra pela estradinha de servidão da grande plantação de milho da fazenda do zoológico. O galope de Zack era cadenciado e suave, e as rédeas continuavam supérfluas: ele não tinha pressa nenhuma, vivendo pelo prazer do ar fresco, do céul azul, da terra firme e elástica sob seus cascos.

Fernando e Zaca aquecendo a caminho da vitória na prova de um metro.

Levamos uns vinte e cinco minutos da UC até o Marco Zero, mas poderiam ter sido horas, ou segundos. Lá além dos portões, a pista já estava sendo armada, o som sendo testado – o cotidiano nos alcançava.

Logo apareceu Denise para me levar de volta, e no mesmo horário em que muita gente ainda acordava, eu já tinha aimpressão de que o sábado andava pela metade.

Ao longo do dia de trabalho, via-me com um pequeno sorriso secreto nos lábios, toda vez que lembrava do delicado galope equilibrado de Zacarias ao longo da trilha, um quilômetro apenas que ele percorreu  parecendo, como eu, querer que aquele instante da alvorada nunca terminasse. Naquele minuto, galopamos mais perto de Deus.

Abraços,

Claudia

P.S.: Naquele sábado, com cada conjunto competindo em duas categorias, nossos três cavalos e dois cavaleiros obtiveram três primeiros, dois segundos e um quarto lugares. Depois, Denise e Geraldo os levaram montados de volta à UC. No domingo, os cavalos descansaram e nós limpamos o material.

Na categoria um metro, Venus levou o troféu de melhor anglo-árabe.

criado por leschonski    22:25 — Arquivado em: Sem categoria
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